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Crianças de famílias com menores rendimentos sofrem mais acidentes

Crianças de famílias com menores rendimentos sofrem mais acidentes

Associação para a Promoção da Segurança Infantil considera que o país necessita de maior investimento na criação de infra-estruturas de segurança

Muitos dos atropelamentos de crianças acontecem em manobras de marcha-atrás, em acessos a garagens, dentro de jardins e quintais, geralmente por um familiar que não se apercebe que a criança está por perto porque escapou à vigilância de outro adulto.

Edição de 15.05.2013 | Sociedade
Uma criança foi atropelada acidentalmente, em Abril, quando estava a brincar à porta de casa na localidade de Besteiros, concelho de Ourém. A carrinha dos Correios estava a fazer a manobra de marcha-atrás quando a criança atravessou a estrada para ir ao encontro do pai que estava a chegar para o almoço. O menino de 16 meses, que ficou apenas com o lábio rasgado, foi uma das mais recentes vítimas de um tipo de acidente bastante comum entre a população mais jovem. A mãe da criança, Lígia Teles, diz que felizmente tudo não passou de um grande susto. “Quando se tem crianças pequenas em casa, por mais atenção que se tenha com elas, há sempre um momento em que nos escapam da vista e os acidentes acontecem. Felizmente não foi grave e a vigilância, que já era grande, foi reforçada”, disse a O MIRANTE.Segundo dados da Associação para a Promoção da Segurança Infantil (APSI), nos últimos dois anos, todos os dias 13 crianças e adolescentes [dos zero aos 19 anos] sofreram um acidente de viação sendo que quatro dessas crianças eram peões, sete passageiras e duas condutoras. “Muitos dos atropelamentos de crianças pequenas acontecem em manobras de marcha-atrás, em acessos a garagens, dentro de jardins e quintais, geralmente por um familiar que não se apercebe que a criança está por perto porque escapou à vigilância de outro adulto. De dentro do carro é impossível vê-las devido à sua baixa estatura”, explica a secretária-geral da APSI, Helena Sacadura Botte.A APSI refere também que desde o início dos anos 90 do século passado a taxa de mortalidade por acidentes tem diminuído (à excepção do período 2000-2004 em que aumentou ligeiramente tendo retomado a tendência de descida) atingindo actualmente um valor considerado “histórico” de 5,86 por cada 100 mil habitantes (2009 a 2012). “Portugal está agora abaixo da média europeia em relação à taxa de mortalidade por acidentes em crianças e adolescentes”, sublinha Helena Sacadura Botte.No entanto, apesar da redução da mortalidade por acidente com crianças e adolescentes em Portugal, nas últimas duas décadas, as lesões e traumatismos continuam a ser a principal causa de morte entre os zero e 19 anos, sendo responsáveis por 16,62 por cento do total de mortes nessa faixa etária. A APSI considera que o país necessita de um maior investimento na criação de infra-estruturas sendo necessária a afectação de recursos financeiros para a coordenação, investigação e desenvolvimento de competências na área da segurança infantil.“A existência de um provedor da criança e a criação de uma comissão nacional pela segurança infantil são algumas das medidas de eficácia comprovada para que Portugal possa assumir uma liderança firme nesta área”, reforça a secretária-geral da APSI.Pobreza cria maior vulnerabilidade aos acidentesOs traumatismos e lesões afectam de forma desproporcionada as crianças e adolescentes mais vulneráveis aparecendo associados à riqueza do país e à condição socio-económica da família. Segundo a European Child Safety Alliance (ECSA) há um número mais elevado de crianças e adolescentes a sofrer lesões nas famílias com menores rendimentos, com uma escolaridade e literacia mais baixa e que vivem em zonas carenciadas e em espaços confinados.Para a APSI, Portugal deve estar atento e ponderar se é necessário dirigir acções mais específicas para públicos mais vulneráveis (imigrantes, famílias com baixos rendimentos ou com várias gerações de pobreza). O esforço que Portugal fez em 2009 no sentido de reduzir o IVA dos Sistemas de Retenção para Crianças (cadeirinhas para o automóvel) foi apontado neste relatório como um factor positivo na diminuição das desigualdades associadas aos acidentes. Ao longo dos anos a disponibilidade de equipamentos de segurança (cadeirinhas, coletes salva-vidas) aumentou sendo mais fácil encontrá-los no mercado. No entanto, os portugueses têm que trabalhar mais que as famílias que vivem noutros países da Europa para poder comprar alguns desses equipamentos (algumas cadeirinhas para o automóvel).Portugal ainda está abaixo da média europeia ao nível de segurançaApesar da redução da taxa de mortalidade por acidente, a actuação de Portugal ao nível de segurança que as políticas nacionais conferem aos cidadãos mais novos e mais vulneráveis fica muito aquém das expectativas. Em relação à adopção de medidas para a segurança das crianças e adolescentes, o país apenas obtém a classificação de “razoável” no Relatório de Avaliação da Segurança Infantil 2012. Em 2007 houve um progresso no desempenho de Portugal. No entanto, de 2009 para 2012 não houve avanço. Segundo a European Child Safety Alliance, o país necessita ainda de uma intervenção significativa na segurança de peões e ciclistas, segurança na água e prevenção de quedas, queimaduras e asfixia/estrangulamento. Nas restantes áreas (segurança dos passageiros, motociclistas/ciclomotoristas, prevenção das intoxicações) é necessário reforçar a adopção, implementação ou execução de algumas medidas de eficácia comprovada.Várias crianças atropeladas na região nos últimos anosNos últimos anos O MIRANTE tem dado conta de vários atropelamentos que envolvem crianças. Na edição de 8.Outubro.2009 Ruben Aniceto, 7 anos, foi atropelado mortalmente por um carro quando caminhava para casa, a pé, na companhia do irmão depois de terem saído da escola. Em Julho de 2009, um jovem de 20 anos morreu atropelado na principal rua de Fazendas de Almeirim quando circulava de bicicleta tendo sido apanhado por uma viatura que circulava no mesmo sentido.Melhor sorte teve um rapaz de 13 anos que sofreu apenas ferimentos ao ser atropelado quando atravessava a estrada numa passadeira na Estrada Nacional 118, em Samora Correia (ver edição 12.Fevereiro.2009). Em Novembro de 2007, uma menina de três anos ficou ferida na sequência de um atropelamento na EN 10, na zona do Sobralinho (Vila Franca de Xira). A menina ia ao colo do avô, que quando se apercebeu que a viatura não iria parar tentou proteger a neta sofrendo toda a violência do embate.Em Setembro de 2005, um jovem de 12 anos, residente no Cartaxo, teve que ser conduzido de emergência ao Hospital de Santa Maria, em Lisboa, depois de ter sido atropelado por um automóvel na Estrada Municipal 512, quando seguia de bicicleta. Em Setembro de 2008, Pedro Constantino, residente na Freiria, Rio Maior, foi atropelado por um condutor alcoolizado. O menino de 12 anos sofreu vários traumatismos numa perna, braço e pé. No dia 1 de Maio desse ano três mulheres e duas crianças que apanhavam a espiga na Quinta-Feira de Ascensão, à beira da Estrada Municipal 583 na localidade de Correias, concelho de Rio Maior, foram atingidas por um automóvel desgovernado. O despiste seguido de atropelamento causou a morte a uma mulher de 77 anos, tia de uma menina de seis anos que sofreu ferimentos graves. Outra menina de dez anos fracturou um braço e uma perna. Em Junho do ano passado, José Carlos Sousa, 7 anos, morreu depois de ter sido atropelado em Salvaterra de Magos.
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