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A Federação Portuguesa de Futebol tem que apostar na formação dos árbitros distritais

Fernando Silva tem 15 mil euros para fazer a gestão do Conselho de Arbitragem de Santarém

Fernando Silva tem 59 anos e é profissional na área da saúde. É há três anos presidente do Conselho de Arbitragem da Associação de Futebol de Santarém. Mas a sua carreira no dirigismo desportivo começou há mais de três décadas na Académica de Santarém, passando depois pela Associação e pela Federação Portuguesa de Futebol. É do organismo máximo do futebol nacional que exige mais apoio para a formação dos árbitros distritais. Em conversa com O MIRANTE fez um balanço do seu mandato e conta como vai a arbitragem no distrito de Santarém.

Edição de 02.10.2013 | Desporto
Qual o balanço que faz do período como presidente do Conselho de Arbitragem?A nossa prioridade foi organizar o Conselho em termos gerais. Deparámos logo com o problema da falta de árbitros e avançámos com a realização de um curso de árbitros, que foi um êxito, contou com a participação de 50 candidatos. Mas depois acabaram por não ficar todos. Muitos desses jovens vêm tirar o curso para currículo. Fizemos um outro curso no Cartaxo, com 25 candidatos e aí as coisas já correram melhor, ficaram praticamente todos. Iniciámos também a formação dos árbitros que já estavam no activo. Criámos centros de treino, fizemos protocolos com as câmaras do Entroncamento, Tomar e Almeirim, e os árbitros passaram a ter onde treinar semanalmente. O balanço é muito positivo, porque também contámos com a ajuda excepcional da Comissão Técnica Distrital.Mas no campo da formação ainda existem muitas dificuldades? Sim. Principalmente de ordem financeira. Quando discutimos o orçamento deparamos com o problema grave de apoios financeiros, não só da associação, que nos ajuda até onde pode, como especialmente da Federação Portuguesa de Futebol que nas provas nacionais ostenta um luxo enorme, tem dinheiro para isso e para muito mais, mas esquece que é nos distritais que se formam os árbitros e é aqui que os vêm buscar para os seus quadros. É preciso que os dirigentes da Federação olhem para esta situação e comecem a apoiar a formação nos distritos. Qual é o orçamento do Conselho de Arbitragem para toda a época?Temos 15 mil euros para gerir todo o Conselho, para acções de formação, cursos de início de época, para os observadores. Não dá quase para começar. São os elementos da Comissão Técnica que praticamente subsidiam o Conselho, não nos cobram quilómetros e horas de formação, só assim é possível desenvolver o trabalho de formação que temos conseguido fazer. A Federação tem que olhar para este caso de uma forma diferente e dividir melhor o dinheiro que tem ao seu dispor para a formação. Tem sentido pressões ou contestação por parte de clubes e dos seus filiados nas suas directrizes?Ser presidente do Conselho de Arbitragem é dos cargos mais difíceis que já desempenhei, não se agrada a ninguém, não se agrada aos adeptos, aos dirigentes, e nem aos próprios árbitros, que nem sempre gostam das nomeações. Por isso mesmo há sempre algumas pressões, principalmente de alguns clubes que contestam as arbitragens quando perdem. Mas felizmente as coisas têm corrido, por norma, bem e a contestação tem sido residual. E também os árbitros sentem que estão a ser acompanhados e têm-nos apoiado. Temos um quadro de árbitros pequeno, e em todas as jornadas ficam sempre jogos das camadas jovens sem árbitros, isso serve também para fazer alguma pressão. Durante o seu mandato realizaram muitos cursos, tiveram êxito, mas continua a não haver árbitros que cheguem?Depois das nomeações para os nacionais, ficamos com vinte equipas de arbitragem disponíveis. Só nas camadas jovens disputam-se 30 jogos por semana, daí a ficarem jogos sem árbitros. Este ano remodelámos o curso que vai decorrer nos próximos meses. Vai decorrer em Santarém e Tomar e no último fim-de-semana vai decorrer em regime de internato em Rio Maior. A adesão tem sido francamente positiva, depois os jovens quando terminarem o curso vão ser acompanhados por tutores e responsáveis de estágio, por isso penso que iremos inverter a situação e acreditamos a larga maioria não vai fugir da arbitragem. Acha que CAS tem condições para colocar árbitros nas ligas profissionais de futebol, nos tempos mais próximos?Quando entrámos para a direcção encontrámos o Conselho desorganizado e com falta de apoio aos árbitros dos nacionais, tratámos de inverter essa situação. E a época passada foi uma época de sucesso. Tivemos um árbitro em primeiro lugar a nível nacional, tivemos um observador do futsal em primeiro lugar e os árbitros da terceira divisão subiram praticamente todos. Estamos a fazer um trabalho muito importante que é reconhecido pela Federação e acredito que a curto prazo teremos árbitros no futebol profissional. Não nos podemos esquecer que temos também um árbitro assistente na primeira liga e um árbitro na primeira divisão de futsal.Este ano o João Mendes esteve muito perto da subida?É verdade, foi por uma unha negra que ele não subiu. Foi uma pena que o João tivesse ficado em décimo primeiro no apuramento dos 10 que passaram para o estágio que agora é obrigatório. Também ao nível da classificação da segunda categoria o Hugo Silva ficou num brilhante quinto lugar e nesta época que agora começou pode vir a ser um forte candidato ao quadro de promoção. Os árbitros têm que trabalhar, estudar e têm que se empenhar ainda mais?Hoje os árbitros treinam quatro vezes por semana, tanto os do nacional como os do distrital. Os nossos árbitros que andam no nacional estão fortemente empenhados e motivados, sabem que só trabalhando muito podem vi a concretizar os seus objectivos de progressão na carreira. Os árbitros correspondem efectivamente ao esforço feito pelo Conselho de Arbitragem?Sem dúvida que sim. Os árbitros de todas as categorias colaboram cada vez mais connosco e quando fazemos qualquer acção eles estão sempre na primeira linha. Os árbitros do nacional são os principais mentores dos centros de treino. Temos em Almeirim o Jorge Maia e na Zona Norte o André Gralha, o Hugo Silva o João Mendes, os árbitros mais experientes a desenvolver com a ajuda da Comissão Técnica um excelente trabalho de formação.E os núcleos estão a trabalhar?Infelizmente só temos um a funcionar, é o Núcleo da Zona Norte, que trabalha muitíssimo bem. Cada vez mais é importante criar núcleos de árbitros. Na zona de Almeirim está lançado o embrião e acredito que a breve prazo ali teremos um núcleo formado e regularizado. Os prémios de jogo também são pouco aliciantes para manter os jovens na arbitragem, ou a forma como são tratados nos campos de futebol é que os afasta?É um pouco das duas coisas. O prémio que recebem é muito pouco aliciante. Mas também a falta de formação cívica de alguns dirigentes e público em geral não ajuda na formação e na permanência dos jovens. Acha que hoje em dia os árbitros ainda são vistos como os maus da fita dentro do teatro do futebol?Acho que já foi mais. Hoje o árbitro já é mais visto como uma pessoa que trabalha e se prepara bem. Se as pessoas vissem como eles preparam os jogos, as suas sessões de treino e as suas viagens, de certeza que seriam ainda mais bem recebidos do que são. O nível de formação académico e preparação subiu muito e isso tem-se reflectido para melhor nas suas actuações.A questão do policiamento também está na ordem do dia?Está e de que maneira. É uma situação que nos preocupa bastante, não há uma directriz clara sobre o assunto. A lei da República diz que o policiamento deixou de ser obrigatório, a Federação enviou-nos um comunicado em que aceitava este facto desde que houvessem seguranças, mais tarde recebemos um outro comunicado a revogar esta situação, mas não nos dá nenhuma directriz sobre o que fazer. O que nós dizemos aos árbitros é de que devem fazer os jogos, mas se entenderem que não têm condições de segurança não devem fazer o jogo. Tem havido alguns jogos dos nacionais que não se realizaram por falta de policiamento. Aguardamos pela decisão da Federação sobre esses casos para nós próprios tomarmos uma directriz para os nossos árbitros. Sabemos que todos os fins de semana vai ver jogos distritais, e por fiscalização ou incentivo aos filiados?É por incentivo aos árbitros. Quero mostrar aos árbitros que estou sempre ao seu lado, e aos dirigentes que tenho ali um quadro de confiança. No final de mandato, se for convidado, continua para acabar o seu ideal?Não, não vou aceitar. Passei por muitos cargos e por muitas dificuldades, mas nenhum cargo foi tão desgastante e tão difícil como este. Quero deixar o Conselho de Arbitragem de Santarém devidamente organizado e estruturado para que o trabalho de quem vier a seguir fique mais facilitado do que aquele que encontrei.

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