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Um artesão que vai resistindo à crise

Um artesão que vai resistindo à crise

A oficina é no antigo quartel da Cavalaria, em Santarém, onde trabalham também outros artífices

Manuel Ferreira, 58 anos, ganha o pão a fabricar peças de artesanato em bunho e outros materiais. Faz disso a sua profissão, já lá vão mais de duas décadas. Não é uma vida fácil, até porque este trabalho faz mesmo calos. Mas vai dando para as despesas.

Edição de 09.10.2013 | Sociedade
Há mais de 20 anos que Manuel Ferreira se aventurou no artesanato. Tem dias que gosta, outros que nem por isso, mas para ele a independência no trabalho é o que realmente importa. Ali, ele é o patrão dele próprio. Quando lhe perguntamos se vai sentindo a crise, suspira e responde que quem se dedica ao artesanato é dos primeiros a sentir a crise, pois não se trata de artigos de primeira necessidade.A época de Natal é o balão de oxigénio que permite equilibrar as contas, pois sempre se vende mais qualquer coisa. “As pessoas têm mais disponibilidade financeira e depois é a questão da prendinha, as pessoas gostam de oferecer algo diferente”, diz na sua oficina situada no antigo quartel da Cavalaria, de onde saiu o capitão Salgueiro Maia e a sua coluna militar em 25 de Abril de 74 para ajudar a derrubar a ditadura em Lisboa.Há cerca de dois anos que está ali aquartelado, em instalações cedidas pelo município, à semelhança de outros artífices e entidades diversas. Partilha a sua sala com outra artesã, Maria das Neves, que se dedica aos cestos e às malas. No outro lado da sua oficina encontra-se outra senhora, Arminda, que vai fazendo louças em barro, estatuetas. Antes tinha a oficina no antigo campo da feira, num espaço que já não existe.Manuel é um bom exemplo de que os cursos de formação profissional ainda servem para alguma coisa. Foi após ter frequentado uma acção dessas que ganhou afeição à arte. Depois foi aprendendo sozinho, ganhando destreza e jeito com a prática, porque o caminho faz-se andando e quem não nasceu em berço de ouro tem que pôr mãos à obra para ganhar o sustento de cada dia. Apesar de se queixar das dores nas costas e dos dedos dormentes, dedica-se por inteiro a essa actividade de manhã à noite. A produção não pode parar. “É o que sei fazer e agora depois de velho já não vou a tempo de trabalhar noutro ramo, hei-de morrer a fazer isto”, sentencia.A retribuição nem sempre é choruda, mas parece conformado com a sua sina até porque a clientela hoje em dia não nada em dinheiro. O artesão pratica quase os mesmos preços que praticava há 10 anos. “Faço peças que nem chego a ganhar dois euros à hora”, confessa a O MIRANTE. Agora, para dar descanso aos calos e para ver se ganha mais alguma coisa, Manuel inovou a sua arte apostando na confecção de carteiras artesanais. Como companhia na oficina tem a Linda, a sua cadela de estimação. Enquanto decorria a conversa, no seu local de trabalho, o artesão levantava-se de vez em quando para lhe mandar a bola e suspirava dizendo que era a sua única companhia.Tempos livres são raros na vida do artesão. “Quando não estou a fazer peças, estou a tentar vendê-las”. Manuel monta banca habitualmente às quartas-feiras na Rua Capelo e Ivens, ao sábado no Largo Seminário e ao domingo junto ao jardim das Portas do Sol. É por isso uma cara conhecida na cidade.Mesmo com pouco tempo livre Manuel diz que ainda vai gerindo os seus blogues (manuelferreiraartesanato.blogspot.pt), mostrando-se um verdadeiro fã da Internet. Faz vídeos dele próprio a trabalhar na sua arte e coloca-os no youtube. Já fora da sua oficina Manuel confessa que a sua profissão está em vias de extinção. “Quem é que quer ir para uma profissão que não é rentável? E que faz calos na mão? Se calhar, se fosse há uns anos atrás também pensava melhor”.
Um artesão que vai resistindo à crise

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