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“A nossa geração nunca foi rasca, o país é que não nos soube dar valor”

“A nossa geração nunca foi rasca, o país é que não nos soube dar valor”

Susana Moreira, 38 anos, sócia-gerente da creche Chuxinhas, Póvoa de Santa Iria

Foi jornalista mas a precariedade profissional obrigou-a a procurar nova ocupação. Decidiu abrir uma creche na Póvoa de Santa Iria, a Chuxinhas, depois de perceber que a cidade estava a crescer e não havia oferta suficiente naquela área. Considera que os jovens portugueses estão impedidos de mostrar o seu valor no seu país. Acredita que as mulheres são melhores empresárias que os homens porque estão mais dispostas a arriscar.

Edição de 23.10.2013 | Três Dimensões
Fui jornalista durante dois anos mas tinha de pagar para trabalhar. Estive em rádios locais e noutros órgãos nacionais como a Renascença ou a Bloomberg. Tirei o curso superior na área da comunicação com grande paixão. Gostava e vibrava com o que fazia mas existiam poucas saídas. A minha geração foi injustamente considerada "rasca". Os jovens têm muito potencial mas o país não lhes dá condições nem lhes reconhece o valor. Há muitos com grandes qualidades a sair do país para entrar em empresas de prestígio no estrangeiro.Vim viver para a Póvoa de Santa Iria quando casei, aos 27 anos. Era uma terra jovem, com muitos prédios novos. A minha geração mudou-se para cá e muitos dos meus amigos de S. João da Talha, Loures, onde vivia antes, são hoje meus vizinhos de rua e de café. Desde sempre tive o bichinho de ser empresária. Achava que um dia podia trabalhar por conta própria mas nunca pensei que viesse a ser na área da infância. Foi por um motivo infeliz que aconteceu mas não controlamos tudo na nossa vida.A minha primeira gravidez terminou da pior forma. Perdi o bebé no dia do parto e sem que nada o fizesse prever. Foi uma situação extremamente dolorosa. Como estava em casa dediquei-me a estudar mais sobre a infância e decidi arriscar neste negócio. Abri uma creche no Tágides Parque. Mais tarde os pais das crianças pediram e abri um jardim de infância e o negócio foi crescendo. Nunca dei um passo maior que a perna. Sou uma pessoa muito ponderada e pensei muito antes de me lançar por conta própria. Entretanto engravidei de novo e sou mãe de um rapaz que tem hoje sete anos e que é o meu orgulho.Nunca pensei ver a economia neste estado. Não é nada fácil ser empreendedor neste país. Tudo o que alcancei foi sempre vencendo muitos obstáculos e dificuldades. As leis são extremamente exigentes e os custos são elevadíssimos. Para manter o negócio aberto e com as licenças em dia é muito complicado. Com a conjuntura que atravessamos considero-me uma sortuda em ter a porta aberta.Cada vez vejo mais mulheres à frente de negócios e sem medo do risco. Acho que actualmente são os homens que têm mais medo de arriscar. Quando disse ao meu pai que ia abrir um negócio por conta própria ele tinha receio e achava que era uma ambição desmedida, porque entendia que eu era muito nova para dar esse passo e que tudo podia correr muito mal. Mas quem não arrisca não petisca, como diz o ditado.Estou onde quero e sinto-me bem com o que tenho. Durmo com a empresa todos os dias e tenho um telefone que está ligado 24 sobre 24 horas. Tenho uma equipa de 46 pessoas a trabalhar no Chuxinhas e na qual eu confio. As responsabilidades que assumimos enquanto empresários causam-nos um grande desgaste. Há dias em que penso que já tenho idade de ficar quieta e sossegada. E noutros penso que ainda tenho uma vida inteira para investir. É preciso viver um dia de cada vez.Continua a ser possível desenvolver bons projectos sem precisar da banca. O dinheiro existe, o problema é que às vezes as pessoas não têm ideias para criar projectos. Um exemplo disso foi quando fui sócia fundadora do Colégio dos Morgadinhos, aqui na Póvoa. Apesar de já não estar ligada a esse projecto orgulho-me do que fiz. Recorremos a sócios com capitais próprios para abrir a empresa porque a banca fechou as portas. Conseguimos juntar 689 mil euros para avançar com a ideia. O meu trabalho não tem rotina e nunca gostei de horários impostos. Gosto de trabalhar do nascer ao pôr do sol mas apenas em coisas que me motivem. O meu principal valor de vida é a humildade. A minha mãe não me deixou riqueza de dinheiro mas deixou-me riqueza de princípios, saber perdoar com um sorriso ou manter a calma em situações menos boas. A vida não é fácil mas são estes os ideais que tento transmitir ao meu filho.O mais importante para mim na vida é ter saúde e viver um dia de cada vez. Para mim a pessoa mais importante da minha vida é o meu filho e as pessoas que me estão mais próximas. Gosto de aproveitar a vida ao máximo porque vivemos numa linha muito instável. Hoje sabemos que estamos bem mas amanhã não sabemos o que nos pode acontecer.Filipe Matias
“A nossa geração nunca foi rasca, o país é que não nos soube dar valor”

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