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“Quando era adolescente não conseguia ficar calada perante uma injustiça”

“Quando era adolescente não conseguia ficar calada perante uma injustiça”

Helena Carrasqueira, 43 anos, advogada, Santarém
Edição de 30.10.2013 | Três Dimensões
Igualdade, Fraternidade e Liberdade são ideais que têm muito a ver comigo. Nasci a 14 Julho de 1970, no dia da Tomada da Bastilha, que esteve na origem da Revolução Francesa de 1789 e, de facto, identifico-me totalmente com os ideais alcançados com a mesma. O meu pai era militar e estava colocado num quartel nos arredores de Lisboa e, só por esta razão, nasci na Capital. Os meus pais são naturais de Alcanhões, onde hoje resido, e considero-me cem por cento ribatejana. Gosto muito da paisagem que, na Primavera, é uma das mais bonitas do país, gosto de cavalos e da genuinidade das pessoas do campo e de ver o trabalhar da terra.Quando era criança pensava em ser pediatra. Frequentei a área de Ciências até ao 12.º ano mas, a dada altura, percebi que não era esse o caminho e fiz os exames necessários para mudar para Humanidades. Ainda hoje sinto que tenho alguma apetência por Ciências mas jamais poderia ser médica, pois o sofrimento físico das outras pessoas incomoda-me muito e por isso agradeço aos meus pais o facto de terem sabido aceitar a minha opção.O debate intelectual sempre me deu prazer. Pensei em seguir Direito porque era uma pessoa que gostava muito de ouvir o que os outros tinham a dizer. Em seguida analisava o que ouvia e usava de algum sentido crítico para firmar a minha posição. As pessoas com quem lidava permitiam-me discutir sobre vários temas, sempre com a capacidade de nos respeitarmos uns aos outros. Nunca gostei de arbitrariedades nem de prepotências e lembro-me que no liceu, com 14 ou 15 anos, não era capaz de ficar em silêncio perante uma injustiça. Tive uma infância mais solta do que aquela que as minhas filhas vão ter. Cresci no campo e andava por ali a brincar ou a andar de bicicleta. Os pais não tinham os receios que existem hoje. O mundo mudou muito, principalmente devido à mobilidade e à liberdade de circulação de pessoas que actualmente existe. Hoje as pessoas podem estar aqui e daqui por uma ou duas horas em Espanha o que tem consequências a nível de segurança. O mais gratificante é fazer diferença na vida de alguém. Já ando na barra há 15 anos. Terminei o curso em 1996. Recordo-me perfeitamente do meu primeiro caso, quando era estagiária, relacionado com uma tentativa de incêndio mas com alguns contornos singulares. A nossa avaliação é sempre suspeita mas acho que me saí muito bem. Gosto muito do tribunal mas tenho a noção de que todos os processos têm que ter uma excelente preparação prévia para terem sucesso em julgamento. Partilho o escritório de Santarém com mais três advogados mas trabalhamos todos individualmente. Um ano após terminar o estágio, fui sócia fundadora de uma sociedade de advogados na Chamusca mas em 2007 decidi sair da sociedade e começar a exercer em nome individual. Tenho escritório em Santarém e na Golegã, onde já tinha a minha carteira de constituintes. Não aceito casos que vão contra os meus princípios. A advocacia não tem que ser exercida de forma fria, como muita gente pensa. Concentro-me na situação que a pessoa me apresenta e tento perceber exactamente o que pretende. Só depois indico quais são as soluções jurídicas porque nem sempre há apenas um caminho. Já me aconteceu dizer às pessoas que a sua opção não é a mais adequada e se vejo que o caso não tem de facto sustentabilidade tenho que ser honesta com a pessoa.Gosto muito de provérbios pois condensam de uma foram magnífica a sabedoria popular. Não faço colecção de nada mas se fizesse seria de máximas de vida e de provérbios populares. É uma forma de aprendermos algo com a experiência dos outros. Tenho várias frases que aprecio mas destaco o lema da PSP que é uma máxima que devia estar sempre presente na mente das pessoas: os fortes são serenos. Os fortes não têm que atropelar os outros, têm que estar de forma serena na vida.Os fins de semana são dedicados à família e aos amigos porque senão estaria a viver para trabalhar e não a trabalhar para viver. Ás vezes gosto simplesmente de estar sem fazer nada, de ficar tranquilamente a apanhar sol e a contemplar a paisagem, enfim, a aproveitar as vantagens de viver no campo. Também gosto muito de fotografar momentos únicos e de fazer jardinagem mas a verdade é que não tenho muito tempo livre porque tenho duas filhas e ser mãe também é um trabalho a tempo inteiro.Sou bem-disposta por natureza mas se me aborrecer nota-se à distância. Sou muito transparente. Tenho dificuldade em ocultar as minhas emoções. Os meus olhos dizem tudo. Tenho sonhos porque, como diz o poeta, “o sonho é uma constante da vida”. Tenho as minhas ambições mas apesar de perseverante não sou ambiciosa. Aliás, não gosto de pessoas que, devido à sua ambição, passam por cima dos outros.Elsa Ribeiro Gonçalves
“Quando era adolescente não conseguia ficar calada perante uma injustiça”

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