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A importância da Dieta Mediterrânica na promoção da saúde e na prevenção das doenças cardiovasculares

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Graça Ferreira da Silva *

Edição de 06.11.2013 | Economia
As doenças cardiovasculares constituem a principal causa de doença e morte da população portuguesa, acarretando custos elevados em saúde. Um terço do total de mortes em Portugal são por acidente vascular cerebral (20.000) e por enfarte agudo do miocárdio (10.000). Estas doenças têm, na sua origem, fatores de risco que são evitáveis ou controláveis: o consumo de tabaco, os excessos alimentares e o sedentarismo. A prevenção destas doenças é possível, pela adoção de um estilo de vida saudável. Por estilo de vida saudável entendemos: A - uma alimentação adequada (como a Dieta Mediterrânica), B - a prática de atividade física regular e C - uma vida sem tabaco.Nas últimas décadas houve alterações sociais e económicas, que levaram a um aumento do sedentarismo (abandono do sector primário e do modo de vida a ele associado com o crescimento do emprego no sector terciário) e ao aparecimento de uma alimentação muito calórica, com excessos de gordura saturada, sal, açúcares e, simultaneamente, a um abandono progressivo da nossa dieta tradicional.Estudos científicos revelaram que a população portuguesa é a mais sedentária da Europa e que as nossas crianças estão em segundo lugar em excesso de peso e obesidade. Temos também um grande número de doentes com hipertensão arterial e com colesterol elevado. Todas estas alterações estão na base do aparecimento, dos enfartes de miocárdio, dos acidentes vasculares cerebrais e da diabetes.Estas doenças são cada vez mais frequentes e constituem já uma verdadeira epidemia e um grave problema de saúde pública. Prevê-se que continuem a aumentar nas próximas décadas se não forem tomadas medidas para as evitar. Já hoje, na União Europeia, 42% do total de mortes são causadas por doenças cardiovasculares, constituindo a principal causa de morte. Uma das medidas fundamentais, pela sua eficácia na promoção da saúde, será a recuperação da nossa dieta tradicional à base de vegetais, frutas frescas, pão, azeite, utilização abundante de ervas aromáticas, frutos secos, peixe e vinho tinto (em doses moderadas) - o que na essência constitui a Dieta Mediterrânica.A tomada de consciência destes factos e o impacto na vida das pessoas e da sociedade, conduziu a que várias entidades, nacionais e transnacionais, desencadeassem um processo de preservação e salvaguarda da Dieta Mediterrânica. Com este objetivo, em 1996, foi iniciado em Espanha um processo de validação da Dieta Mediterrânica, como um dos regimes alimentares com maiores benefícios para a saúde, posteriormente apoiado pela Itália, Grécia, Marrocos e diversas instituições internacionais. Ao longo do processo foram realizados estudos científicos que confirmaram aqueles resultados, demonstrando um manifesto impacto na melhoria da saúde e na qualidade de vida da população. Perante estes factos, em 2010, a UNESCO atribuiu à Dieta Mediterrânica o estatuto de Património Cultural Imaterial da Humanidade. Quer na Europa, quer nos Estados Unidos, a Dieta Mediterrânica está atualmente a ser divulgada e promovida por diversas entidades com o objetivo de melhorar a saúde pública e a esperança/qualidade de vida. Um dos trabalhos mais importantes que comprovaram os benefícios da Dieta Mediterrânica foi o “Estudo dos Sete Países”, do Professor Ancel Keys, da Universidade de Harvard. O estudo tinha por objetivo saber qual o papel da Dieta Mediterrânica na mortalidade global (por todas as causas) e na mortalidade por doença cardiovascular. As conclusões revelaram que os povos da bacia do Mediterrâneo, apesar de terem um consumo elevado de gordura, sofrem menos de enfarte de miocárdio e que isso se deve ao tipo de gordura que consumem ser sobretudo gordura insaturada – o azeite. Outros estudos científicos demonstram os benefícios da Dieta Mediterrânica, não só na prevenção da doença cardiovascular, mas também de cancros, da doença de Alzheimer, das doenças renais, das infeções e ainda do seu importante papel na diminuição da obesidade, do colesterol, da tensão arterial e da diabetes.As mudanças sociais ocorridas a partir da segunda metade do século passado, conduziram a uma redução e modificação do núcleo familiar e à incorporação da mulher no mercado de trabalho. As consequências destas alterações traduziram-se numa alteração do quotidiano com o aparecimento das refeições rápidas e pré-cozinhadas, fora do horário e fora de casa (com uma menor dedicação à cozinha); à globalização do tipo de alimentação - com consumo excessivo de carnes vermelhas, comidas pré-processadas, bebidas gasosas, leite gordo, manteigas e produtos de pastelaria - determinando o abandono da nossa dieta tradicional, a Dieta Mediterrânica, e à perda dos seus benefícios. As transformações sociais e em particular a globalização estão, assim, a pôr em risco este património, podendo levar à sua destruição e desaparecimento.A recuperação dos nossos hábitos tradicionais alimentares é por isso essencial para a promoção da nossa saúde e qualidade de vida e deve acompanhar-se do combate ao sedentarismo, com a adoção de um estilo de vida ativo. Privilegiar as deslocações a pé, evitar o uso do elevador, caminhar diariamente 30 minutos e uma alimentação saudável – Dieta Mediterrânica, a nossa alimentação tradicional - são o melhor contributo para a nossa saúde. Somos um país atlântico mas os nossos hábitos alimentares e culturais são em tudo semelhantes aos dos povos da bacia do Mediterrâneo. Daí ter sido constituída uma Comissão Interministerial (Saúde, Agricultura, Turismo, Economia) com o apoio de várias organizações não-governamentais e Universidades para promover a inclusão de Portugal como país Atlântico por posição geográfica, mas Mediterrânico pela cultura, isto é, pela prática social, pela filosofia de vida, pela história e, em particular, pela nossa alimentação tradicional.* Médica Cardiologista; Presidente das XIX Jornadas de Cardiologia de Santarém; Presidente da Associação Cardiológica do Ribatejo; Presidente do Núcleo Regional de Santarém da Fundação Portuguesa de Cardiologia

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