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O tempo em que os alunos bebiam vinho para se aquecerem e levavam porrada para terem respeito

O tempo em que os alunos bebiam vinho para se aquecerem e levavam porrada para terem respeito

Memórias de Silvina Matos e Marina Vinhas, professoras de outras épocas nas escolas de Samora Correia
Edição de 13.11.2013 | Sociedade
Nas décadas de 60 e 70 era normal os professores baterem nos alunos para imporem a disciplina. Silvina Matos era professora nessa época em Samora Correia e explica que na altura as reacções mesmo entre as crianças “eram muito físicas e por isso tinha que se utilizar a força”. Silvina recorda o episódio de quando estava a controlar a fila para a cantina e um aluno a ameaçou que lhe dava com uma cadeira se não se fosse embora. A professora colocou-se ao lado dele até que começasse a comer e hoje recorda que na altura fez-se valente mas estava cheia de medo. “Os miúdos que eram mais reguilas são os que me deixam mais saudades porque eram um desafio. Hoje se os vejo a passar na rua e não me cumprimentam, provavelmente é porque andam mal encaminhados”, salienta Marina Vinhas, 64 anos, que também leccionou nesses tempos. Realça que era importante haver autoridade nas salas de aula e que isso “transmitia segurança aos alunos”. Silvina, 70 anos, que começou a dar aulas com 20 anos, recorda que com o tempo perdeu-se o hábito de bater nos alunos, com o que concorda porque hoje os tempos são diferentes.Naquele tempo não havia aquecedores nas escolas primárias. Para se aquecerem, a professora Silvina fazia fogueiras no recreio. Mas também era normal os alunos beberem vinho em casa para andarem mais quentes. “Os miúdos desde muito novos estavam entregues a eles próprios e às vezes a refeição que tinham na cantina era a única”, recorda a professora. “Algumas famílias eram pobres e as crianças cresciam praticamente isoladas do contacto com outras vilas”, acrescenta a professora de Samora Correia. Hoje há manifestações de pais quando se fazem turmas em algumas escolas com vários graus de ensino. Nos tempos de Marina e Silvina estava tudo misturado do primeiro ao quarto ano (antiga quarta classe). A profissão era exigente e desgastante. Na sociedade a profissão docente era tão considerada como a de médico ou de padre. Silvina tinha 50 alunos na escola dos Arados. Não havia uma divisão por ano escolar e o truque para os fazer ter sucesso era dividi-los em grupos de trabalho. Desde o primeiro ano que o objectivo era fazer com que os alunos passassem no então exame da quarta classe. O dia do exame era importante. Era aquele em que os meninos e meninas vestiam o melhor fato. Apesar da disciplina férrea havia amor pelos alunos, diz Marina Vinhas que assumia um aluno como se fosse seu filho quando este lhe era entregue no primeiro ano. “A escola ajudava a educar, mas o trabalho também era feito pelos pais”, diz comparando com a situação actual. Antes do 25 de Abril de 1974, a fotografia de Salazar e o crucifixo faziam parte da decoração de cada sala. Apesar de admitirem que o ensino era mais limitado, as professoras nunca sentiram pressão por viver numa sociedade sem liberdade. “Nunca senti imposições de ninguém no meu trabalho. Tínhamos a visita de inspectores mas isso era encarado como fazendo parte do trabalho” diz Marina.Exposição “A minha turma...”As memórias de outros tempos de escola fazem parte da exposição “A minha turma... do aprender ao saber”. Que está patente na Galeria 2 do Palácio do Infantado, em Samora Correia, até ao dia 31 de Março de 2014 e que já contou com milhares de visitas. A iniciativa mostra retratos de turmas de escolas de Samora Correia desde a década de 20 até aos anos 80, além da recriação de algumas salas de aula da época. “As infra-estruturas das escolas são as mesmas, o que mudou foi o relacionamento entre colegas e professores assim como os pensamentos”, explica Joaquim Salvador, o organizador da exposição. A Galeria 2 está aberta das 10h00 às 18h30 de terça a sexta-feira e das 15h00 às 18h30 ao sábado.
O tempo em que os alunos bebiam vinho para se aquecerem e levavam porrada para terem respeito

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