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Usou as mãos de ouro com que nasceu para fazer os brinquedos da sua infância

Usou as mãos de ouro com que nasceu para fazer os brinquedos da sua infância

Josué Domingos, 76 anos, morador na Moita do Norte, herdou do seu pai a habilidade para o artesanato

Antigo carpinteiro nas oficinas das OGMA dedicou-se ao artesanato após a reforma. Assume-se como um perfeccionista assumido e pensa todas as peças ao pormenor.

Edição de 20.11.2013 | Identidade Profissional
Elsa Ribeiro GonçalvesHerdou o nome invulgar do seu padrinho e a habilidade de mãos do pai que era carpinteiro-marceneiro. Josué Domingos, 76 anos, nasceu em Lisboa a 25 de Agosto de 1937. Reformado das oficinas das OGMA - Indústria Aeronáutica de Portugal (Alverca) recebe-nos na Quinta do Tojal, em Moita da Norte, Vila Nova da Barquinha. No amplo pátio de casa, colocou uma mesa onde é possível apreciar alguns dos seus trabalhos, devidamente catalogados e datados, que executa em vários tipos de madeira. “Já quando trabalhava nas OGMA era eu que fazia as prendas que os oficiais ofereciam às entidades convidadas que lá apareciam”, explica o artesão.Josué Domingos foi morar para a Quinta do Tojal, na Moita do Norte, no concelho de Vila Nova da Barquinha, com dois anos e meio, uma vez que o pai empregou-se nas oficinas da CP no Entroncamento. Frequentou a escola Camões no Entroncamento, destinada aos filhos dos operários da companhia de caminhos de ferro. O artesão, que conserva uma memória prodigiosa, recorda que o talento para a arte revelou-se cedo, por volta dos 8 anos, tendo construído a maior parte dos brinquedos da sua infância.“Em Abril de cada ano realizava-se uma grande feira no Entroncamento. Eu lá ia com o meu pai, agarrado à sua mão, via as barraquitas dos brinquedos mas nunca me atrevia a pedir nada. E depois vinha para casa e fazia os brinquedos que tinha visto”, recorda Josué. De todos os brinquedos que fez, há um que ainda hoje guarda e do qual tem enorme orgulho: uma máquina locomotiva, igual a tantas que observava sempre que passava a caminho da escola. O pai ficou pasmado quando lhe mostrou o que tinha feito. Josué acabou por tirar o curso industrial de serralharia na Escola Jácome Ratton, em Tomar, após o que entrou nas oficinas da CP, onde se manteve 11 meses. Como ganhava pouco, aproveitou o facto de terem aberto vaga para as oficinas das OGMA, fez exame e entrou para a empresa em Novembro de 1955. Ficou a trabalhar como mecânico de célula de aviões e depois ingressou nos armazéns de ferramentas e carpintaria. Reformou-se a 1 de Abril de 1987, depois de ter construído milhares de peças para aviões. Com mais tempo livre, foi a partir desse momento que se dedicou com mais afinco à paixão do artesanato. Como herdou as ferramentas do seu pai começou a fazer algumas peças em madeira na oficina que tem na Quinta do Tojal, assim conhecida porque as mulheres que antigamente iam lavar roupa à fonte da Moita escolhiam esse lugar para estender e corar ao sol. Tratar da quinta, com 15 hectares, ocupa-lhe bastante tempo mas, especialmente no Inverno, é ali que fica horas a fio com a conivência da esposa, Maria Aurélia, com quem está casado há 51 anos. Sem outro curso que não o de serralharia - diz que foi uma “barbaridade” terem acabado com os cursos industriais - Josué sabe fazer peças à escala, desenhos em baixo relevo ou pirogravura, onde o desenho é gravado com uma caneta eléctrica. Também faz peças em talha como, por exemplo, molduras. Perfeccionista assumido, já lhe aconteceu deitar peças fora a meio do trabalho ou dizer uma asneira sempre que alguma se parte inadvertidamente. Todas as peças são pensadas ao pormenor. Exemplo disso é o barco da sua autoria que está em exposição permanente no Centro Cultural de Vila Nova da Barquinha e que fez a convite de um colaborador da autarquia que lhe conhecia o jeito. Para o conceber foi ao Museu da Marinha e comprou os planos dos barcos representativos desta região, executando-o a uma escala de 1:25. Trabalhou no mesmo 245 horas e apenas exigiu que fosse protegido para que não se deteriorasse com a passagem do tempo. Na mesa que apresenta a O MIRANTE tem peças diversas como guarda-jóias, molduras, barcos e aviões. São estas que apresenta nas feiras de artesanato, onde participa com regularidade, e onde recebe rasgados elogios. Em casa também repara tudo e a esposa atesta que nunca foi preciso chamar ninguém para arranjar nada que se tivesse estragado. Até este momento, assegura, ainda não houve nenhuma peça que lhe passasse pelas mãos que não tivesse solução. O desafio que Josué Domingos tem, neste momento, entre mãos passa pela recuperação total da bateria da colectividade da qual é um orgulhoso associado, Clube de Instrução e Recreio, ex-Tuna da Moita do Norte. “Vou trabalhar até poder. Passo horas de volta disto mas sinto-me feliz assim”, refere.
Usou as mãos de ouro com que nasceu para fazer os brinquedos da sua infância

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