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“De vez em quando também choro com os donos dos animais”

“De vez em quando também choro com os donos dos animais”

Maria João Nunes, 42 anos, médica veterinária, Abrantes

Tinha já quinze anos quando teve o primeiro animal de estimação, o gato Horácio. A paixão pela Medicina Veterinária também surgiu tarde mas continua a ser intensa. Maria João Nunes trabalha há 18 anos na VetiLabe, Clínica de Medicina Veterinária em Abrantes mas reside em Santarém. Descontraída e muito positiva, gosta de aproveitar a vida em toda a sua plenitude. Viver, rir e amar é o seu lema de vida que está tatuado, em inglês, no seu pé.

Edição de 27.11.2013 | Três Dimensões
Ser médica veterinária nunca foi um sonho de infância. Sabia que iria tirar um curso relacionado com a área de Ciências mas, como o meu irmão mais velho era médico, não queria seguir Medicina. Até ao 12.º ano estive sempre indecisa e falava em Biologia, Investigação ou Genética. Um dia, por um acaso, soube que o meu irmão tinha retomado contacto com um amigo de liceu que dava aulas na Faculdade de Medicina Veterinária. Foi quando se fez luz porque ia ao encontro de tudo aquilo que queria.Moro há 15 anos em Santarém e vou, todos os dias, de comboio para Abrantes. Foi uma opção que tomei, há três anos, por razões económicas e de conforto. Já não conseguia viver de outra maneira. Nasci em Lisboa mas fui morar para Santarém quando comecei a trabalhar, em part-time, na VetiLabe em Abrantes. Na altura estava também ligada à clínica de grandes animais em Coruche. Dois anos mais tarde, surgiu a oportunidade de me tornar sócia da Clínica VetiLabe e abracei o projecto a tempo inteiro. A medicina dos pequenos animais abre-nos o leque em termos de experiência em termos médicos. Sou sócia da VetiLabe desde 1997. Enquanto o que faço for uma paixão, trabalhar para mim é um prazer. Gosto tanto do que faço que acaba por ser uma ocupação de tempos livres. Nos primeiros anos, em Abrantes, os cães de caça eram os nossos principais clientes mas agora, cada vez mais, as pessoas trazem o cão que levam para dentro de casa. O número de gatos domésticos que vêm ao veterinário também subiu. É um animal mais pequeno e que não tem tantos gastos. Quem decide ter um animal doméstico que deve estar consciente dos gastos que ele acarreta.Tive o meu primeiro animal de estimação aos 15 anos. Como vivia num apartamento em Lisboa havia sempre uma limitação em relação a animais em casa. Lembro-me que eu e o meu irmão pedíamos sempre um cãozinho no Natal. Só por volta dos 15, 16 anos é que consegui convencer os meus pais a introduzir um gato lá em casa. Era o gato Horácio e viveu 18 anos. A sua morte foi um dos maiores desgostos da vida do meu pai.A chamada de urgência no dia de Natal é clássica. O pior momento é mesmo quando o telefone toca. Depois o stress passa. Não funcionamos com marcação de consultas, excepto cirurgias e domicílios. As pessoas são atendidas por ordem de chegada. É uma questão de hábito. Gostamos de trabalhar sob pressão. Estamos abertos das 10 horas às 20 horas mas temos urgências 24 horas, 365 dias por ano. A VetiLabe tem como lema não recusar tratamento a ninguém nem que seja por questões monetárias mas, como empresa, temos as nossas limitações.De vez em quando também choro com os donos. Tenho vários casos marcantes na minha carreira. Há animais que acompanhamos desde que nascem até que morrem. O que marca mais é a ligação que o dono tem com o seu animal de estimação. Quando os donos morrem, os cães ficam com uma tristeza profunda. As eutanásias também são difíceis. Recordo a eutanásia de uma cadelinha com 20 anos em que o dono veio com o filho, que tinha a mesma idade da cadelinha, e choraram baba e ranho durante todo o processo. Eu também chorei. É possível ter animais em apartamentos. Só é preciso bom-senso. A medida de tentar limitar a dois animais por apartamento é muito pela rama pois pudemos estar a falar de um T0 onde estão dois Rottweilers e de um T6 com três Caniches. Não podemos deixar que o Estado entre na nossa privacidade desta forma. Por causa da crise económica, os animais chegam ao veterinário num estado cada vez pior. Ás vezes, tarde demais. Fazemos consulta, cirurgia geral, raios-x, internamento, banhos e tosquias. Não somos especialistas em tudo e se surge qualquer coisa fora da nossa área redireccionamos os animais para colegas nossos. Para além de cães e gatos, tratamos os porquinhos-da-índia, coelhos, tartarugas, alguns pássaros e aves. Nunca me apareceu um animal verdadeiramente exótico, como tarântulas ou cobras. O mais longe que fomos passou por tratar uma iguana (risos).Adoptamos a postura de movimento alegria no trabalho. O nosso ambiente pauta-se pela descontracção e pomos as pessoas mais bem-dispostas. Visto sempre uma bata mais alegre porque o paradigma da bata branca também se aplica aos cães e aos gatos. Os animais não falam. Temos que perceber o que é certo ou não e chegar a um diagnóstico acertado através das pistas que vamos descobrindo. O mais gratificante é ver o animal recuperar a cem por cento, a par da alegria dos seus donos.Gosto de aproveitar a vida em toda a sua plenitude. Tento ter uma vida para lá da clínica apesar de ser quase impossível desligar. Gosto de jantar fora, de sair à noite, de estar com os meus amigos, de ir ao cinema, de ler.... Os fins-de-semana que tenho de folga são de ouro. Tenho três cães, o Figo, o Uva e o Rox (o sénior lá da casa). A chegada a casa é um perfeito reboliço (risos). Estou na vida de forma muito descontraída mas tenho facetas de organização, quer na vida pessoal ou profissional. Tenho que pôr tudo no sítio certo para me sentir a dominar a questão. Sou o mais positiva possível e encaro as dificuldades como desafios. Os tempos difíceis não duram, as pessoas fortes é que duram. O meu lema de vida é viver, rir e amar. Tatuei essa frase, em inglês, no meu pé. Acho que há um “deficit” de amor e por isso devemos viver em pleno, rir muito e amar o próximo, sejam pessoas ou animais.Elsa Ribeiro Gonçalves
“De vez em quando também choro com os donos dos animais”

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