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“Tive uma vida atribulada mas procurei sempre andar para a frente”

“Tive uma vida atribulada mas procurei sempre andar para a frente”

António Cordeiro, 65 anos, Agência Funerária Hélder Vacas, Santarém

António Cordeiro trabalhou no ramo automóvel e foi agricultor, mas quis o destino que se dedicasse de alma e coração à actividade funerária. Actualmente já está reformado e são os dois filhos que dirigem a histórica Agência Funerária Hélder Vacas mas sob a sua supervisão. Diz que preza a honestidade acima de tudo e que sempre teve como objectivo fazer o melhor, tanto profissionalmente como pessoalmente. Considera-se um verdadeiro ribatejano e não dispensa um bom petisco. Sente-se um homem realizado.

Edição de 11.12.2013 | Três Dimensões
Nasci no Reguengo do Alviela, S. Vicente do Paúl, e foi aí que completei a escola primária. Antes de vir estudar para Santarém passei também pela escola do Pombalinho. Fui um dos primeiros alunos das Explicações Martinho. Ingressei no ensino particular com o professor e grande historiador Martinho Vicente Rodrigues para onde fui estudar depois de ter estado até aos 19 anos na Escola Industrial e Comercial de Santarém. Agora vivo em Vale de Figueira, mas venho todos os dias para Santarém.Fiquei sem mãe aos 10 anos e fui criado por uma tia. Ser criado por ela foi extraordinário. Sempre foi impecável para mim. Nunca me esqueço. Tive direito a ir para um quarto mobilado, enquanto o meu primo ficou durante anos num divã na sala. Para ela eu era o filho número um. A minha tia foi mais que minha mãe. Hoje sou amicíssimo do meu primo e é como se fosse um irmão verdadeiro.Fiz a tropa e estive em África sem nunca ter mexido numa arma. Fiz a recruta e fui mobilizado para Moçambique, onde permaneci dois anos. Não foi muito complicado porque fiquei no quartel-general. Estive em Lourenço Marques, agora Maputo, cerca de 2 meses e meio, depois o quartel-general mudou para Nampula onde passei os últimos 22 meses.O meu primeiro emprego foi numa firma de automóveis. Gosto muito de carros e na altura em que estava nesta área ainda se podiam vender automóveis. Também fui agricultor. Comprei uma propriedade na Golegã que explorei durante seis anos e depois acabei por vendê-la. Foi nessa altura que enveredei pelo ramo funerário. Em Julho de 1990 comprei a empresa Hélder Vacas com um sócio, com quem estive dois anos, entretanto fiquei a gerir a empresa sozinho. Fui sempre rebelde e nunca estava bem em nenhum lado. Tive uma vida atribulada, mas sempre com o objectivo de andar para a frente e ter sucesso. Agora já estou mais calmo e cansado. Acima de tudo estou aqui para ajudar os meus dois filhos a dar continuidade ao negócio da funerária.É muito complicado lidar com a morte mas também é complicado lidar com os familiares dos falecidos. Estão a viver uma situação grave e complicada e alguns ficam muito nervosos. Enveredar por esta profissão tornou-me um homem mais sensível, apesar de conseguir ter alguma frieza perante a morte. Quando se trata de uma criança não consigo fazer o funeral, nem tenho coragem de enfrentar os pais. Quando somos pais acabamos por sofrer com estas situações.É bom ter os meus filhos no negócio. Assim estou perto do Nuno e do David e eles gostam da profissão. Em contrapartida por vezes sinto-me triste, porque esperava algo melhor para eles. Passam aqui a mocidade, passam o dia-a-dia aqui. Mas sinto-me um pai orgulhoso e tenho dois filhos impecáveis, espectaculares.Aprendi muito com o Sr. Hélder Vacas. Para mim foi o homem que mais soube de funerária em Santarém e arredores. Ele foi o “pai” de todos os funerários em Santarém. De certo modo considero-me também um mestre dos meus filhos por lhes transmitir os ensinamentos que fui adquirindo ao longo dos anos de experiência nesta actividade.Não tenho horário fixo, tenho o chamado horário de bombeiro. Recordo-me de um ano em que estava num casamento e apareceram 5 funerais seguidos. Chegamos ao casamento eram 17h00 e acabamos por almoçar e jantar ao mesmo tempo. É uma profissão complicadíssima, podemos ter 5 ou 6 dias sem funerais. Estou casado há 43 anos. Conheci a minha esposa quando vim de férias do Ultramar. Quando voltei para Santarém começamos a namorar e casamos. Foi muito difícil para a minha esposa saber que tinha um filho, o Nuno, que aos 15 anos queria seguir esta actividade. Agora já encara com naturalidade e vai dando uma ajuda. Sou também um avô babado. Tenho uma netinha que quando sai do colégio vem sempre para aqui brincar connosco para a agência.Sou bairrista. Em Santarém gosto de tudo, é a minha segunda terra. Gosto dos toiros, gosto dos copos, sou Ribatejano a cem por cento. Gosto de petiscar e sou de boa boca. Não cozinho, mas aprecio quem cozinha.A honestidade é muito importante. Ao longo da vida cumpri sempre com as obrigações devidas e fiz sempre o melhor que pude. O que me faz mais feliz é saber que tenho dois filhos que têm orgulho na profissão que têm e que são bem recebidos por toda a gente. Sinto-me um homem concretizado.Andreia Montez
“Tive uma vida atribulada mas procurei sempre andar para a frente”

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