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Guarda-redes Nuno Carrapato regressou a Almeirim para matar saudades

Projecta o regresso à Madeira mas enquanto isso não acontece faz o gosto ao pé jogando no Fazendense

Nuno Carrapato nasceu em Almeirim há 37 anos, de onde saiu há uma década e meia para consolidar o seu sonho de infância: ser guarda-redes num grande do futebol português. Em 2003 naquela que era a sua época de afirmação na Superliga, uma lesão nos ligamentos cruzados e no menisco do joelho esquerdo tirou-lhe a titularidade no Nacional da Madeira e comprometeu o sonho de jogar no Euro 2004. Este ano voltou a Almeirim para matar saudades e faz o gosto ao pé jogando na Associação Desportiva Fazendense.

Edição de 23.12.2013 | Desporto
Ainda se recorda do seu início no futebol?Sim, não me esqueço que comecei e fiz toda a minha formação no União de Almeirim. Tinha 10 anos quando pisei pela primeira vez a relva do Estádio D. Manuel de Melo. Foi muito por influência do meu pai, que é um apaixonado pelo futebol. Passei ali por todos os escalões e ainda júnior joguei nos seniores. Eram ainda os bons tempos do União.Tem acompanhado esta fase má do União de Almeirim?O União de Almeirim está a atravessar uma crise que é geral no futebol português. Aqui as pessoas querem resultados mas ajudam pouco. Acho que a política que estão a ter nesta altura é a mais correcta. O clube tinha dívidas, está a tentar pagá-las e não é possível entrar em mais aventuras. Acredito que, mais ano, menos ano, o clube vai-se levantar outra vez. Agora o mais importante é pagar as dívidas e levantar a cabeça.Foi por isso que voltou? Chegou a fazer parte do grupo que está a tentar levar o União a bom porto. Porque é que saiu e foi jogar para o Fazendense?Sim. Não estou no União de Almeirim mas não deixei o grupo. Voltei para matar saudades e para passar uns meses junto da minha família, mas a minha vida vai ser na Madeira. Apareceu o Fazendense, que me deu algumas condições, e ainda quero continuar a jogar durante mais algum tempo. Foi assim que resolvi ficar, estou a ajudar dois clubes do meu concelho.Na Madeira tem curiosidade em saber os resultados dos clubes da região?Sempre e não só do União de Almeirim. O meu pai é um grande adepto e sócio do União de Santarém, outro clube que passou por grandes dificuldades e parece estar a voltar a encontrar o caminho certo. Sempre que possível estou por dentro da I Distrital, olho principalmente para os clubes onde joga o meu irmão. Também acompanho a carreira de alguns amigos e fico contente quando eles ganham. Foram esses amigos que me ajudaram a chegar onde cheguei.Quem foi a pessoa mais influente na sua carreira de futebolista?Sem dúvida que foi o mister José Peseiro, a quem estou muito agradecido e dedico uma grande amizade. O futebol do distrito de Santarém tem pouca visibilidade e têm aparecido poucos profissionais que cheguem à Superliga. Eu tive a sorte que outros bons valores que há aqui não tiveram. Peseiro acompanha-me desde os tempos de criança e foi quem me levou para o União de Montemor quando eu tinha apenas 19 anos. Passei para a Covilhã, onde joguei na segunda liga, estive no Torreense, onde as coisas me correram bem mas desci à II B. Joguei no Peniche, daí foi o salto para o Machico e no final da primeira época o professor José Peseiro foi-me buscar para o Nacional.É um técnico muito ligado à sua carreira…Muito do que sei hoje devo-o a ele. Ensinou-me a vida a nível desportivo e a nível profissional, fora do campo. Quero sempre os melhores resultados para ele.Foi no Nacional da Madeira que conheceu os melhores anos da sua carreira?Os melhores e os piores. Foi no Nacional que subi à Superliga e vivi os momentos mais altos da minha carreira. Mas foi aí que me lesionei com gravidade e estive quase um ano parado. Perdi aí a grande oportunidade de ir ainda mais além no futebol. Conheci na Madeira grandes momentos, devo muito ao Nacional e às suas gentes. Pretendo voltar para lá já em Maio, no final do campeonato distrital.Na altura em que se lesionou falava-se na possibilidade de ser chamado à selecção e, eventualmente, ser o terceiro guarda-redes nos convocados para o Euro 2004. Chegou a fazer essas contas?Sei que era mesmo uma das apostas de Luiz Felipe Scolari para o Euro 2004. Em 2003, já havia sido chamado aos trabalhos da selecção B, que contava com alguns jogadores que meses depois seriam chamados pelo seleccionador nacional para o Campeonato da Europa. Na altura estava a rubricar grandes exibições na baliza do Nacional, estava na lista para me juntar a Ricardo e Quim no lote de guarda-redes com entrada directa nos 23, que iriam colocar um país inteiro a respirar futebol, a pensar no título europeu. Foi uma lesão que o proibiu de sonhar?Foi uma lesão que me roubou alguns sonhos. Não escondo alguma mágoa, acima de tudo porque estive pertíssimo desse objectivo, que só não se concretizou devido a essa lesão que marcou negativamente a minha carreira. Cheguei à selecção B, onde tive como colegas o Miguel, Ricardo Rocha, Pedro Mendes. Sinto que nesse ano tinha tudo para ser internacional. O Euro 2004 começou em Junho e, semanas antes, o Casimiro Mior, que tinha falado com o Scolari, disse-me que se tivesse feito uma segunda volta ao nível do que estava a realizar até então, possivelmente seria o terceiro guarda-redes da selecção no Euro 2004. Foi a grande oportunidade perdida e no futebol as grandes oportunidades raramente voltam.Mas o futebol continuou a ser a sua vida?Sim. Quando assinei o primeiro contrato como profissional tomei a decisão de que o futebol ia ser a minha vida e tenho trabalhado arduamente para isso. Não me posso queixar muito, tenho orgulho na minha carreira como jogador de futebol.Mas isso também o levou a abandonar os estudos?Foi uma opção. A um profissional não é possível conciliar as duas coisas e foram os estudos que ficaram para trás. Não dá importância à formação académica?Dou importância relativa, porque acredito mais que no futebol é mais importante a experiência de uma carreira ao mais alto nível. Já tirei um curso de treinador e já exerci o cargo de técnico de guarda-redes. É aí que quero fazer carreira no futuro.Mas no futebol não se vivem momentos de grande desafogo financeiro?É verdade, mas os maiores problemas passam-se nos clubes ditos amadores. No futebol profissional até não se têm registado situações de grande gravidade.Nunca passou por situações como aquelas que se passam por exemplo no Fátima?Já passei por situações parecidas. Tenho algumas dívidas para receber, uma está em tribunal, a outra estou em negociações. Acredito que tudo se irá resolver. O futebol é o meu presente, o meu futuro e a minha vida.Sente que tem uma boa imagem na Madeira?Tenho a certeza que sim. Na Madeira trabalhei sempre com grande honestidade, tenho a porta aberta em todos os clubes por onde passei. Não tenho dúvidas de que vou encontrar trabalho com alguma facilidade.Almeirim cresceu muito e tem bons equipamentos desportivosRegressou a Almeirim para matar saudades. O que é que encontrou de diferente na cidade?Encontrei muitas diferenças. Almeirim cresceu muito, continua a ser uma cidade onde a maioria das pessoas se conhecem umas às outras. Vive-se de uma forma calma, com o campo e para o campo. Continua a ser uma terra tipicamente ribatejana de que eu gosto muito.Mas a nível desportivo a evolução não foi assim tão grande?Foi, foi! É verdade que o União de Almeirim se foi abaixo. Mas apareceram outros clubes e outras modalidades que levam o nome da cidade bem longe. Depois, ao nível de equipamentos desportivos o concelho está muito bem servido. Ao longo dos últimos anos o então vereador do desporto, Pedro Ribeiro, desenvolveu uma actividade muito importante junto das colectividades e por isso tem conseguido criar condições para a entrada de pessoas qualificadas para o desporto. Os mais jovens têm em Almeirim todas as condições para se desenvolverem em diversas modalidades.Quer dizer que os almeirinenses escolheram bem o novo presidente de câmara nas últimas eleições?Sem dúvida que sim. Pedro Ribeiro, para além de um amigo pessoal, é uma pessoa muito profissional e muito responsável. Tem ajudado muitas instituições de Almeirim. Penso, como a maioria dos almeirinenses, que o cargo de presidente está muito bem entregue.Acredita que a câmara vai continuar a apostar no desporto?Acredito. Pedro Ribeiro vai continuar a apostar no desporto e também no apoio a outras colectividades. Não tenho dúvidas de que as pessoas reconheceram o seu trabalho nessas áreas e sei que ele não as vai desiludir agora que chegou ao lugar mais alto da autarquia.Então não encontra nada que o desiluda na cidade?Que me desiluda não. Só há uma coisa que penso que Almeirim merece e que as pessoas da cidade têm que procurar ajudar a conseguir, que é colocar um clube de futebol pelo menos na segunda divisão nacional. Penso que o União de Almeirim está no caminho certo para lá chegar. Mas também não nos podemos esquecer do Fazendense, que é um clube do concelho, dirigido por pessoas muito experientes e tem condições para poder chegar a esse patamar. E neste momento estou a ajudar para que isso aconteça.

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