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Indulgente Serafim das Neves

Edição de 23.12.2013 | E-mails do outro mundo
As prendas de Natal das minhas avós e tias voltaram a ser “packs” de peúgas. Tenho amigos que ficariam muito desiludidos ao desembrulhar prendas assim. Eu fiquei feliz. Fico sempre feliz quando recebo peúgas. Já a antecipar o Natal, tinha feito, no fim de Novembro, um inventário da minha gaveta das meias. Separei-as por características e afinidades. Fiz vários montinhos. Num deles coloquei os pares que não posso usar porque uma das peúgas tem, pelo menos, um buraco. Num outro pus as chamadas peúgas desirmanadas. Eram mais de quarenta. Cada uma de sua cor. No montinho dos pares de peúgas irmanadas e sem buracos ficaram oito. Foram eles que me aguentaram até à noite da consoada. Agora voltei a ser um homem completo. Tenho a gaveta das peúgas cheia de pares de peúgas novinhas em folha que me devem chegar até ao meu dia de anos, altura em que as minhas avós e as minhas tias me voltarão a oferecer... peúgas.O meu pai que é um homem prático, ofereceu-me cuecas. Uma prenda interessante e prática, não se desse a circunstância de ele desconhecer a existência de boxers e eu abominar o modelo de cueca Tarzan. Não comi muito na noite de Natal. Vi na televisão jantares de carenciados e de sem-abrigo onde serviram pratos de bacalhau com couves que tinham o triplo do meu. Não sei porque fazem aquilo às pessoas. Fico sempre com receio que apanhem alguma indigestão. Quem passa fome todo o ano não devia ser sujeito a deglutir tudo e mais alguma coisa na consoada. Esta mania que nós temos de só sermos generosos nos dias santos é algo de que sempre discordei. É disso e das recolhas de alimentos do Banco Alimentar contra a Fome, nomeadamente dos dois da região. O de Abrantes e o de Santarém. Eu entro no supermercado e fico com o saquinho plástico na mão a pensar no que hei-de lá colocar. À minha volta as outras pessoas metem-lhe lá dentro quilos de arroz e massa, latas de atum, frascos de salsichas. A mim apetece-me oferecer papel higiénico, sabonete líquido, shampô, gilletes, creme para a barba, desodorizante, after-shave, trufas de chocolate, umas garrafas de um bom tinto, caixas de fósforos, acendalhas... acabo por entregar o saco com o atum, a massa e os pacotes de leite mas o dia já não me corre bem.As pessoas com dificuldades na vida apreciam um bom banho, gostam de fazer a barba ou, no caso das senhoras, de depilar as pernas. Quando vão à casa de banho precisam de papel higiénico como todos nós. Além disso, uma massa de atum acompanhada com um copinho de um Cardeal D. Guilherme tinto reserva de Alcanhões, há-de saber bem melhor do que se ficar no estômago a nadar em meio litro de água da torneira, não é verdade?! E já nem falo das crianças que gostam de gomas, pastilhas, bolachas oreos e coisas assim...Entretive-me aqui a falar do Natal e até me esqueci de casos mais interessantes que tinha para te relatar. Fico pelo que melhor se enquadra no espírito da Quadra. O que me dizes daquele vereador da câmara de Azambuja que levou para casa treze processos de contra-ordenações e os teve por lá a marinar, durante quatro anos, até terem ultrapassado o prazo de validade? É serviço à comunidade ou não é?! O homem foi eleito para defender os cidadãos. Os interesses dos cidadãos. À conta dele houve pelo menos treze cidadãos que se livraram de ser multados. Se todos os políticos de Portugal fizessem o mesmo éramos todos mais felizes. Éramos ou não éramos?!Cumprimentos, rabanadas e boas digestõesManuel Serra d’Aire

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