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Colectividades de Vila Franca fizeram investimentos megalómanos

Colectividades de Vila Franca fizeram investimentos megalómanos

Professor José Costa está a finalizar uma tese de doutoramento sobre o movimento associativo da cidade
Edição de 23.12.2013 | Sociedade
As colectividades de Vila Franca de Xira estiveram demasiado dependentes de apoios públicos e deram sempre passos maiores do que as pernas. Uma situação que levou a que muitas ficassem moribundas e a sobreviver com “balões de oxigénio” baseados em apoios do Estado. Esta é uma das conclusões a que chegou José Costa, 60 anos, que está a terminar uma tese de doutoramento sobre o movimento associativo do concelho.O professor de história na escola Reynaldo dos Santos em Vila Franca questiona se é justo o erário público pagar para as associações funcionarem. “Diria que possivelmente não”, defende. José Costa lamenta que actualmente a população só vá às associações “quando lhes interessa” e para satisfazer as suas necessidades. Na opinião deste professor, o associativismo foi “um dos movimentos sociais mais importantes” a surgir em Vila Franca mas lamenta que actualmente as pessoas estejam desenraizadas desta realidade.“Os balões de oxigénio financeiro dão vida artificial às associações. Houve projectos megalómanos na maioria das associações que nunca deveriam ter existido. E os responsáveis por isso são os sócios. Um sócio quando se desliga da colectividade é culpado pelo que vai acontecer, porque passa um cheque em branco aos órgãos dirigentes”, opina. Na óptica de José Costa, uma associação que tenha muitas dívidas e poucas actividades para a comunidade deve fechar portas. Para o professor o associativismo está em mutação e o futuro será das colectividades que se saibam adaptar aos novos gostos da população. “As crises levam ao isolamento da população e estamos a assistir a um novo tipo de associativismo, dirigido a novos grupos específicos, como os movimentos gay, feministas, da igualdade de género e até de voluntariado. Esta vida de isolamento das pessoas, de se fecharem em casa em frente aos computadores, acabará por fartar as pessoas, que irão voltar a sair à rua”, antevê.O desinteresse dos jovens pelas associações é compreensível na óptica de José Costa, devido à diversidade de ofertas existentes. Nota que as redes sociais não foram de todo prejudiciais e permitiram o contacto com pessoas de outros países. “Não se pode radicalizar o discurso e ver as coisas só pelo lado negativo. As redes sociais não vão substituir o relacionamento que se tem pessoalmente e por isso as pessoas vão continuar a precisar de fazer desporto, ir ao teatro, encontrarem-se, e para isso haverá sempre as associações para dar uma ajuda”, conclui. Na opinião de José Costa as várias colectividades de Vila Franca têm conseguido reinventar-se e responder às necessidades do presente. E dá como exemplos o Ateneu Artístico Vilafranquense, União Desportiva Vilafranquense e Os Sentinelas. «Vivemos num sistema político cínico e hipócrita»Sabemos o suficiente sobre a nossa história?Não. Se soubéssemos não haveria determinado tipo de observações e reacções a determinados fenómenos, que ao longo da nossa história foram sempre recorrentes, como as crises económicas. Só quem não conhece a história do país é que se admira com o que estamos a viver. A prosperidade no país durou sempre curtos períodos. Já devíamos ter aprendido com os erros do passado.Há um prisma dominante de que os políticos não falam. É de que as crises fazem parte do sistema, são fenómenos cíclicos. Sucedem em determinados momentos mas são riscos que no seu conjunto surgem para olear o sistema, acabarão por fazer uma limpeza e uma selecção natural do mercado. Infelizmente o sofrimento causado pelas crises é desigual. O que sente quando ouve alguém dizer que no tempo de Salazar é que se vivia bem?As pessoas não conhecem a história e esquecem facilmente. Não dão valor ao ar que respiram e a este clima de liberdade. Infelizmente o sistema em que vivemos é muito cínico, muito hipócrita. Basta ver os princípios que estão por trás da governação dos regimes democráticos. Querem fazer crer às pessoas que somos iguais perante a lei e temos igualdade de direitos. Mas depois ficamos desiludidos, porque vemos que não é bem assim. Há um grande sistema de castas onde prevalece muita gente intocável. Um apaixonado por história que passa os tempos livres na Torre do TomboJosé Lopes, 60 anos, é natural de Penamacor mas vive em Vila Franca de Xira desde os dez anos. Considera-se um “neo-vilafranquense”. Dá aulas na escola Reynaldo dos Santos e garante que nunca perdeu as estribeiras na sala de aulas. Tenta ser equilibrado na sua relação com os jovens e fez ao longo dos anos várias especializações em história contemporânea para complementar a licenciatura. Gosta particularmente da história dos séculos XIX e XX. Foi militar e serviu na Escola Prática de Administração Militar, até ser expulso por associação ao Processo Revolucionário em Curso (PREC). Esteve para entrar na banca mas preferiu o ensino.Usa os transportes públicos, em especial o autocarro e o comboio. Passa a maioria dos tempos livres no arquivo municipal de Vila Franca e na Torre do Tombo em Lisboa, a preparar a tese de doutoramento. Não prescinde dos encontros com os amigos, vibra com o Benfica mas não vai ao estádio. Ouve jazz, fado, música popular e cantores de intervenção. No verão adora sardinhas assadas e gosta de sopas. Nas viagens prefere as capitais europeias com vocação cultural às praias. Detesta o cinismo e a hipocrisia e foi, durante anos, sócio da Cooperativa Alves Redol de Vila Franca de Xira.Excesso de informação não significa mais conhecimentoProfessor há mais de 30 anos, José Costa dá aulas a alunos entre o quinto e o 12º ano de escolaridade. Diz que nos últimos anos os jovens aprendem mais rapidamente na internet do que nos bancos da escola, apesar de considerar que a existência de muita informação não significa uma abundância de conhecimento. “Estudar nunca foi fácil e hoje em dia vê-se mais facilmente a meta do que o caminho”, nota.Apesar das dificuldades da profissão, José Costa garante que quer continuar a ser professor. “Sinto-me atacado. Temos sido rebaixados, postos na praça pública pelos governantes de uma maneira desprestigiante. Não queremos privilégios que nunca tivemos. Queremos apenas ser respeitados. Os professores têm sido desqualificados, têm destruído as carreiras profissionais, os estímulos e os incentivos. Hoje a tarefa é muito mais difícil do que antigamente”, lamenta.
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