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Pirataria é a principal personagem do filme negro dos Clubes de Vídeo

Pirataria é a principal personagem do filme negro dos Clubes de Vídeo

Eram às dezenas em toda a região e agora contam-se pelos dedos das mãos

O Fusão das Artes, no Entroncamento, propriedade de José São Pedro, é um dos raros Clubes de Vídeo que ainda resiste. Em vinte anos nunca fechou um único dia e há onze anos que não aumenta o preço dos alugueres, que é de dois euros e meio, mas mesmo assim perde clientes. Está a morrer às mãos dos downloads ilegais a velocidades “supersónicas”.

Edição de 23.12.2013 | Sociedade
José Augusto São Pedro está no mercado de aluguer de filmes desde o dia 1 de Maio de 1994. Vinte anos de sobressaltos num negócio para o qual não vislumbra futuro. Quando O MIRANTE perguntou a alguns habitantes do Entroncamento se ainda havia clubes de vídeo na cidade a maioria disse estar convencida que já não havia nenhum. Mas há. Dos quatro ou cinco que chegaram a funcionar ainda resiste um, o “Fusão das Artes”, na rua 1º de Dezembro. Curiosamente o espaço de aluguer de filmes funciona ininterruptamente desde a sua abertura. Sábados, domingos, feriados e dias santos, como se dizia antigamente. “A partir de certa altura passei a abrir só à noite porque à tarde não aparecia ninguém mas não fechei um único dia nestes quase vinte anos”, diz José São Pedro.Farto de ter que se levantar às 4 da manhã para entrar ao serviço às seis na linha de montagem da General Motors da Azambuja, José São Pedro decidiu trabalhar por conta própria e comprou um clube de vídeo. Na altura tinha 24 anos, muita energia e carradas de ideias. Aos 45 anos anos continua a ter energia e ideias mas acha que o negócio do aluguer de filmes está no limite. “Quando comecei, qualquer filme tinha, no mínimo, entre 100 a 120 alugueres. Agora não passa dos 20 ou 30. E se não há novidades o negócio pára. Essa foi a primeira lição que aprendi. Cheguei e deslumbrei-me com as estantes cheias de cassetes de VHS mas eram todos filmes já vistos. Andei por Lisboa a comprar existências de Clubes de Vídeo que fechavam para ter aqui novidades. Comprar novos era difícil. Cada cassete custava 16 contos (80 Euros) e tínhamos que ter 4 ou cinco de cada título”.Ao fim de seis anos o VHS ficou obsoleto devido à chegada ao mercado dos DVD. O período de adaptação foi de dois anos. No Fusão das Artes havia prateleiras com cassetes e com DVD. Depois as cassetes foram guardadas. José São Pedro tem cerca de vinte mil. Filmes em DVD no Clube de Vídeo são perto de 14 mil. “A maioria estão em gavetas. São títulos únicos. Agora só compro um DVD de cada filme para poder ter maior diversidade. Mas só saem se alguém perguntar por eles. O espaço disponível é para as novidades”, refere. A disponibilização de um catálogo online com todos os filmes do vídeo clube, está fora de causa por exigir um grande investimento. “Um site com motores de busca por título, actores, realizadores, custa uma fortuna”.Filmes pornográficos ajudaram durante anos a pagar os filmes de autorA secção de filmes para crianças foi das primeiras a sair de cena por causa dos inúmeros programas infantis e dos canais por cabo. A seguir foi a pornografia. “Ao longo dos anos os filmes pornográficos geraram receitas para eu ter aqui filmes de autor, daqueles que tinham menos alugueres”. Houve mais factores a agravar a situação dos clubes de Vídeo. “Um filme, depois de ir para as salas de cinema só podia ser editado em vídeo seis meses depois. E no início até acho que era um ano. E só seis meses depois de estar para aluguer nos Clubes de Vídeo é que podia ser vendido ao público. Agora quando é editado em vídeo vai logo para venda. E antes de chegar às salas de cinema já está pirateado na internet”.José São Pedro comprou equipamento para recuperar CD e DVD, nomeadamente os dos jogos. É uma forma de fazer algum dinheiro. Quando lhe falamos em venda de pipocas e bebidas como nos cinemas não fica entusiasmado. “É uma forma de gerar receita mas tem efeitos perversos. De repente arrisco a ter uma loja de conveniência em vez de um vídeo-clube. Vêm aqui comprar as bebidas mas não alugam filmes”. A manutenção do preço do aluguer em 2,5 euros vai segurando alguns clientes uma vez que nos vídeo clubes das operadoras os alugueres dos filmes mais recentes são muito mais elevados.O dono do Fusão das Artes não consegue caracterizar os seus clientes. “Por vezes aparecem estudantes que têm que fazer trabalhos e que em vez de lerem os livros preferem ver as adaptações para cinema mas as bibliotecas escolares e as bibliotecas municipais também têm videotecas. Os mais jovens sacam filmes da net mas nem sequer os chegam a ver. Vão saltando de umas cenas para as outras só para dizerem que viram o filme. Compramos filmes comerciais mas esses são os mais pirateados. O cinema de autor ou cinema europeu tem uma procura residual. A maior parte dos meus clientes são pessoas muito interessadas pelo cinema e que cultivam esse gosto há muitos anos. Deixámos de trabalhar para as massas”.Eram mais de mil e quinhentos mas hoje já só restam cem Ainda há clubes de vídeo na região. Contam-se pelos dedos de uma mão e os clientes são cada vez menos mas resistem. Têm todos entre vinte e vinte e cinco anos de idade. Resistiram à abertura de novos canais de televisão generalista como a SIC e a TVI, à difusão das parabólicas e à televisão por cabo. Estão a morrer às mãos da pirataria na internet que ganhou mais força com as velocidades de download disponibilizadas pelas redes de fibra óptica. Em Santarém O MIRANTE encontrou o Universal, em Abrantes o Pintus, em Tomar o Mercado do Vídeo, no Entroncamento o Fusão das Artes. O presidente da ACAPOR - Associação do Comércio Audiovisual de Obras Culturais e de Entretenimento de Portugal, Nuno Pereira, ajuda a definir a actual situação. “O principal motivo para o fuzilamento sumário destas empresas é, sem sombra de dúvida, a pirataria. Velocidades de descarga supersónicas, oferta inquantificável de títulos, gratuitidade, streaming legendado, são argumentos com os quais nenhuma empresa que está sujeita às leis do mercado pode combater. O maravilhoso mundo da pirataria só traz um problema: Mata a galinha. E mata mesmo”.Aquele dirigente acha difícil serem aprovadas medidas de combate à “praga”. “Não há nenhuma força política que queira pegar no assunto porque corre o risco de perder votos. Infelizmente para a nossa classe política, este é um argumento de peso”. Nuno Pereira lembra que grande parte do crescimento dos clientes da internet foi feito com a promessa de acesso ilimitado a produtos culturais gratuitos. “O lobby das empresas de telecomunicações exerce o seu poder no sentido de manter o actual estado de coisas”, acusa. Mas mesmo as operadoras estão a provar do seu próprio veneno. “Os clubes de vídeo digitais das operadoras (os únicos a funcionar legalmente em Portugal) têm crescido muito abaixo do esperado e não têm de forma alguma compensado o desaparecimento dos clubes de vídeo físicos. A pirataria também inibe que essas plataformas possam crescer. A pirataria, como um verme, faz apodrecer toda a indústria e não apenas uma pequena parte da mesma”, refere.Os proprietários dos clubes de vídeo que O MIRANTE contactou acreditam que o seu negócio irá desaparecer a breve prazo. O presidente da ACAPOR concorda. “Em face do actual cenário o negócio do vídeo pode mesmo desaparecer em Portugal uma vez que as edições em DVD e BLU-RAY são dominadas por uma única empresa - a ZON - e, agora que a mesma já promove a venda dos mesmos conteúdos através dos seus serviços, acreditamos que não faltará muito a que essa empresa deixe de editar aqueles títulos no formato físico. Portugal pode mesmo ser dos primeiros países no Mundo em que a edição do formato físico desaparece.
Pirataria é a principal personagem do filme negro dos Clubes de Vídeo

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