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Um ribatejano de sucesso na academia de talentos do Sporting

Um ribatejano de sucesso na academia de talentos do Sporting

Telmo Costa foi campeão como treinador da equipa de juniores dos leões

Nasceu há 38 anos, no Tramagal, mas viveu até aos 18 anos na aldeia de Santa Margarida da Coutada, no concelho de Constância. Chama-se Telmo Costa, é licenciado em educação física com a especialização em treino de futebol e tem o mestrado em psicologia do desporto e o curso de treinador de terceiro grau. Foi jogador nas camadas jovens do Tramagal Sport União e é actualmente treinador principal da equipa de juvenis do Sporting Clube de Portugal. Antes treinou a equipa de juniores dos leões sagrando-se campeão nacional. O MIRANTE foi a Santa Margarida para conversar com o ribatejano que ajudou a formar jogadores como Nani, Rui Patrício e William Carvalho, entre muitos outros.

Edição de 30.12.2013 | Desporto
Quando é que o futebol surgiu na sua vida?Surgiu muito cedo. Fiz a minha formação como jogador no Tramagal e ainda cheguei a jogar nos seniores. Mas quando chegou o dia de ir para a universidade deixei de jogar e pensei em avançar para a carreira de treinador. Por isso formei-me em educação física com a especialização em treino de futebol.Está ligado ao Sporting há mais de sete anos. Como é que um jovem consegue chegar tão cedo a um clube dessa dimensão?Ainda na faculdade, fui convidado a estagiar no Benfica e aceitei. Depois fui treinar as camadas jovens do Real Massamá, onde estive durante sete anos. O meu trabalho foi reconhecido e um dia apareceu o meu amigo e companheiro de estudos, José Lima, a convidar-me para seu adjunto na equipa técnica dos juniores do Sporting. Aceitei e passei directamente para os quadros do clube. E já lá vão sete anos. Ser treinador da equipa de juvenis do Sporting é um grande desafio?É um enorme desafio. Já treinei os iniciados e os juniores, onde fui campeão nacional, e agora chegou a vez dos juvenis. Ao nível da formação o Sporting é o clube mais prestigiado em Portugal e a sua escola de futebol é conhecida em todo o mundo. É a partir dos juvenis que é preciso ajudar os jovens a definirem-se, quer como jogadores, puxando pelo seu talento, quer como homens, incutindo-lhes no espírito as regras de conduta da alta competição sem deixar de os “obrigar” a manter os estudos.Já foi campeão à frente da equipa de juniores. A passagem para os juvenis não foi um passo atrás?Não. Na Academia do Sporting ser treinador dos iniciados, juvenis ou juniores é estar no mesmo patamar. A nossa missão é formar jovens como jogadores e como homens.Como é que está a equipa de juvenis este ano?Neste momento estamos a meio do processo. Estamos a tentar formar uma equipa mais competitiva. Apesar de nesta altura o Benfica estar um pouco mais forte do que nós, acreditamos que ainda podemos chegar a campeões. Acreditamos que na fase final vamos estar mais fortes.No juniores foi chegar, ver e vencer?É verdade. Tínhamos um excelente grupo de jogadores e o trabalho que o José Lima tinha feito era excepcional. Só tive que o prosseguir e consegui unir o grupo em torno de um objectivo comum: vencer o campeonato. E assim as coisas acabaram por correr da melhor maneira. É um orgulho treinar na Academia do Sporting, que ainda recentemente foi considerada uma das melhores do mundo?Sim, é um grande orgulho para todos os que ali trabalham. É um grande incentivo para todos. Mas também não é menos entusiasmante ver jovens que passaram pelas nossas mãos singrarem e hoje serem titulares em grandes equipas do mundo, bem como ver a equipa do Sporting recheada de jovens jogadores formados na Academia. Quem são esses jogadores e onde estão hoje?O Nani, que está no Manchester United, foi meu jogador quando ainda treinava o Real Massamá. No Sporting, o Rui Patrício, André Martins, André Santos, Adrien Silva, Cédric Soares... E o William Carvalho, sem dúvida um jovem que pode ser apontado como um exemplo de simplicidade e vontade de trabalhar. Muitos mais havia para citar mas ficamos por aqui.Começou cedo como treinador, por isso não teve uma carreira de jogador de futebol. É um treinador de que linha?Sou um treinador totalmente habilitado. Sou formado em educação física com a especialização em treino de futebol, fiz ainda o mestrado em psicologia do desporto e tirei cursos de treinador. Não me coloco na linha de qualquer outro técnico de renome. Há alguns que admiro, mas o que sei é que sou um treinador que faz o que gosta e trabalha sempre para ser cada vez melhor.A maior satisfação de um treinador das camadas jovens é ver aparecer jogadores como Cristiano Ronaldo, Nani ou Rui Patrício?A satisfação de quem está a fazer formação é ver jogadores com um percurso desses, mas é sobretudo ver a evolução de outros jogadores que apesar de não chegarem tão longe também são bons jogadores. Saídos das camadas jovens do Sporting há jogadores em todas as principais equipas portuguesas e em muitas do estrangeiro. E neste momento ver a equipa principal do nosso clube recheada de jogadores vindos da Academia, e a equipa B onde se continua a abastecer a equipa principal, formada quase por completo por jogadores da nossa formação, é para nós todos que trabalhamos na Academia motivo de grande satisfação e orgulho.Falou atrás do William Carvalho. Acreditava que fosse possível chegar tão rapidamente a este nível?Sinceramente acreditava. O William Carvalho foi capitão de equipa no meu segundo ano como treinador da equipa de juniores e quando terminou a época fui o responsável por ele ir para o Fátima, onde o meu irmão Ricardo era o treinador. Falei com o William e disse-lhe para continuar a trabalhar como o fazia até ali, porque assim não tinha dúvidas que podia ir longe. E aí está a prova.Foi o seu irmão Ricardo que o influenciou para ser treinador?Não, ajudámo-nos mutuamente. Sou quatro anos mais novo que o Ricardo, mas começámos quase ao mesmo tempo e temos carreira muito distintas. Mas temos em comum um gosto enorme pelo que fazemos. Quais são as suas ambições como treinador? Ambiciona chegar ao mais alto nível?Neste momento sinto-me muito bem a formar jovens no Sporting. Mas sou ambicioso e garanto que estou a fazer o meu percurso com passos certos, para chegar o mais longe possível.A aposta na área do desporto colocou Rio Maior no mapa do mundo A cidade de Rio Maior é mesmo a Capital do Desporto?Não estive em Rio Maior a tirar o curso, esse fi-lo em Lisboa. Em Rio Maior estive a fazer o mestrado em psicologia do desporto, que por acaso não chegou ao fim. Fiquei com a pós-graduação, acabei por não entregar a tese. Mas chegou para se aperceber das condições para o desporto existentes na cidade?Rio Maior tem todas as condições para ser uma grande escola de desporto. A aposta feita nesta área colocou-a no mapa do mundo. Tem tudo o que é preciso para se desenvolver um trabalho em profundidade. As selecções nacionais de quase todas as modalidades estagiam ali e de todo o mundo vêm equipas estagiar a Rio Maior.Ainda falta alguma coisa?Na minha opinião falta um clube que aposte forte nos seniores. Na formação, o Núcleo Sportinguista de Rio Maior está a fazer um bom trabalho. Mas a necessidade de uma equipa de seniores forte poderá dar uma outra visibilidade a nível nacional. Mas neste momento de crise isso não é fácil?Aceito que sim. Todos os clubes vivem com problemas e no interior isso é ainda mais visível. É necessário procurar alternativas aos donativos das empresas e autarquias.A formação que é ministrada na Escola Superior de Desporto é de qualidade?No tempo que lá passei aprendi bastante e conheço muitas pessoas que ali se formaram e são hoje figuras gradas ao nível do desporto, o que atesta a formação que ali é ministrada.Panorama do futebol na região “é assustador”Como foi a sua carreira enquanto jogador de futebol?Joguei nas camadas jovens do Tramagal Sport União e ainda cheguei a jogar nos seniores, mas foi antes de ingressar na universidade. É o clube da minha zona, que infelizmente viveu momentos muito conturbados. Vejo com agrado que voltou com o futebol sénior e que mesmo o futebol jovem está no bom caminho. É necessário que as pessoas façam um trabalho em profundidade nas camadas jovens de modo a que no futuro sejam essas camadas a abastecer as equipas de seniores.Quer dizer que não perdeu o contacto com o futebol do distrito de Santarém?Não por completo. Vou lendo sempre algumas coisas na imprensa regional. Vejo com pena que as coisas estão cada vez pior. O panorama é mesmo “assustador”. Quando vemos um clube carismático como é o Fátima a viver um momento muito difícil é no mínimo preocupante. Mas pelo que vejo o panorama geral é muito mau. Penso que é tempo dos desportistas da região pararem e fazerem uma reflexão profunda para ver se há ou não hipóteses de alterar a situação. Na minha opinião, a solução passa pelo aproveitamento da formação.Acredita que se faz uma boa formação no distrito de Santarém?Acredito. Conheço bem as escolas de formação da Académica de Santarém, CADE, União de Tomar e também do Cartaxo. Não é por acaso que daí vêm alguns jogadores para o Sporting e para outros clubes de grande dimensão. Penso mesmo que se trabalha melhor na formação do que nos seniores.Mas o que falta aos clubes regionais também falta aos grandes, que são obrigados a vender as suas pérolas para poderem sobreviver?É verdade. Mas falando do Sporting, que é o meu clube e que conheço por dentro, a missão é mesmo essa. A aposta é na formação de jogadores para os seniores e também para rentabilizar. Por isso foi criada a Academia, onde existem todas as condições para formar jogadores e homens. É das melhores escolas do mundo. Temos provado isso da melhor maneira e não só com os títulos conquistados. Por exemplo, o ano passado a maioria dos capitães das selecções nacionais jovens eram jogadores do Sporting.Isso também tem a ver com a forma como é feito o recrutamento?O recrutamento e o acompanhamento. Não estamos só preocupados em formar jogadores, queremos que eles sejam homens de bem, independentemente de virem ou não a ser grandes jogadores. Fazemos avaliações trimestrais, do carácter, comportamento, na escola e na Academia e tomámos decisões. Mas nesta altura as academias estão cheias de jogadores estrangeiros?Na Academia do Sporting nem tanto. Existem alguns jovens que vêm de outras partes do mundo, mas a esmagadora maioria é portuguesa e em grande parte são eles que nos procuram, porque querem aprender na melhor escola de Portugal e numa das melhores do Mundo.O comportamento dos jovens é seguido ao pormenor?Temos aí uma grande prioridade. Se um jovem não se comporta bem no clube, se não avança nos estudos ou se tem um mau comportamento na escola é castigado. É castigado como?Primeiro é chamado à psicóloga e à professora que os acompanha. Na equipa joga menos e fica a saber que é por causa do seu comportamento. Em último caso pode mesmo ter que deixar o clube. Constância já merecia ter um relvado sintético Como está o desporto no seu concelho?Infelizmente o desporto em Constância regrediu muito nos últimos anos. Chegámos a ser fortes principalmente no futsal e no futebol de cinco. Eu próprio ainda joguei futsal aqui no Aldeense. E tínhamos também os Indomáveis, que estiveram vários anos nos nacionais. Neste momento apenas o Montalvo mantém os jovens em actividade no futebol.Com poucas condições?É verdade. Os dirigentes do Montalvo fazem um grande esforço para manter os jovens em acção. O clube já merecia ter outras condições, o piso do campo já devia ser sintético. No meu tempo jogávamos praticamente em terrenos pelados, agora as exigências são outras. Entre um clube que tem campo com piso sintético e um que o tem pelado, os jovens escolhem o primeiro. O sintético em Montalvo ainda está longe de acontecer?Penso que não. Há pouco tempo fui alvo de uma pequena homenagem por parte da Câmara de Constância e falei com algumas pessoas ligadas à área do desporto, que me disseram que a autarquia está a trabalhar para que em breve o piso do campo de Montalvo seja dotado de um relvado sintético. Obra que terá também alguns melhoramentos ao nível dos balneários. Acredito nas pessoas e penso que em breve os jovens terão melhores condições para jogar e treinar.
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