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Familiares de imigrantes ucranianos não vêm a Portugal porque vistos custam uma fortuna

Familiares de imigrantes ucranianos não vêm a Portugal porque vistos custam uma fortuna

Dezena de documentos traduzidos e reconhecidos notarialmente e deslocações de milhares de quilómetros

O Natal Ortodoxo é celebrado a 7 de Janeiro. Dos 50 mil ucranianos residentes em Portugal muitos gostariam de ter a família que deixaram no país de origem à mesa da consoada mas isso é impossível. Para além das despesas das viagens há o “pesadelo” da obtenção de vistos. São montes de burocracias e despesas que desanimam qualquer um. Para entrar na Ucrânia um português só precisa mostrar o passaporte.

Edição de 30.12.2013 | Sociedade
Svitlana Budz e o marido Vassily são ucranianos e trabalham em Portugal há perto de dez anos. Quando emigraram deixaram dois filhos menores na aldeia onde residem, Kobaky, na zona dos Cárpatos, à guarda dos pais de ambos. Nos últimos anos reencontram-se com a família nas férias de Verão. São sempre eles que vão lá. A vinda a Portugal de qualquer dos filhos está fora de causa, quer no Natal, quer nas férias de Verão. Obter um simples visto de curta duração familiar é o cabo dos trabalhos e a documentação que é exigida custa uma pequena fortuna, apesar do visto em si ser gratuito porque só paga quem não tem familiares directos em Portugal. Em contrapartida, um português, ou qualquer outro cidadão da União Europeia só precisa mostrar o passaporte para entrar na Ucrânia. São, no mínimo, necessários onze documentos ou fotocópias de documentos com reconhecimento notarial e alguns deles traduzidos, para juntar ao pedido de visto. Isto para além de, pelo menos, duas viagens de ida e volta a Kiev, que fica a cerca de 600 quilómetros da aldeia, porque a documentação tem que ser entregue pessoalmente na embaixada de Portugal e só o beneficiário do visto o pode levantar quando ele estiver pronto. Os filhos de Svitlana e Vassily, Dima e Alexander já terminaram os seus cursos superiores. São ambos médicos e estão casados mas têm que continuar a ter a ajuda dos pais porque um médico na Ucrânia ganha cerca de 120 euros mensais e o custo de vida é muito elevado. Dificilmente virão a Portugal se o acordo entre a União Europeia e a Ucrânia, que tem levado milhares de ucranianos a manifestarem-se na Praça da Independência, na capital do país, não vier a ser assinado. E a questão dos vistos é apenas uma minúscula parte desse entendimento.Uma espécie de filme de terror com nove idas à embaixada A irmã de Svitlana, Lyudmyla Belmega, a residir no Entroncamento, também deixou dois filhos na Ucrânia. Um ainda estuda na Universidade de medicina de Ivano-Frankivsk. O outro esta a fazer o internato de cirurgia, não remunerado, no hospital da cidade de Kossiv a vinte quilómetros da aldeia natal. Tanto Vladymyr como Dmytro já vieram a Portugal várias vezes mas graças a mil e um sacrifícios da mãe e a milhares e milhares de euros gastos em burocracias e transportes.A primeira vez que vieram foi em 2005. Eram ainda menores. A avó materna, Olga Mikailevna, fez nove viagens com eles entre a sua casa em Kokaby e a embaixada de Portugal em Kiev. Quase dez mil e quinhentos quilómetros no total. Cada viagem demora doze horas de comboio para cada lado, a que se somam quatro horas de autocarro. De cada vez faltava sempre um documento qualquer. De cada vez tinham que ir novos documentos ou cópias autenticadas de Portugal. Uma carta entre os dois países, mesmo em correio prioritário, nunca demora menos de duas semanas a chegar, quando chega. Entre o pedido e a emissão dos vistos decorreu meio ano. Lyudmyla e a mãe recordam a situação como “um autêntico filme de terror.A situação melhorou de então para cá, provavelmente por terem deixado de trabalhar na embaixada alguns ucranianos que exploravam os seus próprios compatriotas através da exigência de pagamentos para não complicar o processo, o famoso Mogarich (prendas) que é o combustível para tudo, ainda hoje, na Ucrânia. Mas as exigências em termos de documentação são praticamente as mesmas.O familiar em Portugal tem que mandar para a Ucrânia um convite com termo de responsabilidade (incluindo despesas de alojamento, alimentação, cuidados médicos e despesas de repatriamento), com assinatura reconhecida notarialmente; fotocópia autenticada notarialmente do Título de Residência; comprovativo do alojamento que pode ser fotocópia autenticada do contrato de arrendamento da casa; comprovativo de rendimentos do responsável em Portugal, nomeadamente cópia autenticada do IRS.O familiar a residir na Ucrânia que queira vir a Portugal tem que entregar aqueles documentos e mais uma data de outros, devidamente traduzidos do ucraniano para português e reconhecidos notarialmente. Comprovativo de parentesco; comprovativo da ocupação, nomeadamente declarações de trabalho ou estudo; seguro de saúde no valor de 30.000 euros; original e cópia de todas as páginas do documento de identidade (passaporte interno equivalente ao nosso Cartão de Cidadão); todos os originais e cópias de todas as páginas dos documentos de viagem válidos e duas fotografias tipo passe.Para além das mil e uma voltas que há que dar para tratar de tudo e da despesa que nunca é menor de trezentos euros, ainda é preciso apresentar os bilhetes de viagem de ida e volta que, dependendo da altura do ano e da companhia aérea, ou do autocarro, nunca ficam por menos de 500 euros. E ir pessoalmente a Kiev seja qual for a distância a que esteja, para entregar a papelada e para levantar o visto...se ele for concedido. Apesar de ter tido a alegria de mostrar aos filhos o país onde trabalha e dos qual gosta muito, Lyudmyla nunca conseguiu que os pais viessem a Portugal. Só a ideia de irem pedir vistos desmotiva-os completamente.
Familiares de imigrantes ucranianos não vêm a Portugal porque vistos custam uma fortuna

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