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“Só temos que ter sorte na saúde; o resto é por nossa conta”

“Só temos que ter sorte na saúde; o resto é por nossa conta”

Armando da Cruz, 55 anos, empresário, Abrantes
Edição de 30.12.2013 | Três Dimensões
Fui viver para a Holanda com apenas sete anos. Vivi lá 28 anos até decidir voltar a Portugal. Nasci na Glória, no concelho de Estremoz, Évora. Os meus pais foram trabalhar para Lisboa e fiz a primeira classe em Azeitão. Nessa altura, o meu pai arranjou trabalho na Holanda e, um ano mais tarde, veio-nos cá buscar. Fiz a segunda classe na escola Anne Frank, na cidade de Gouda. Eu e o meu irmão mais velho éramos os únicos emigrantes. A Holanda é um país muito hospitaleiro no que diz respeito ao acolhimento ao emigrante. Tive uma educação bilingue.Era uma criança rebelde e gostava de pôr a sala de aula a rir. Fui várias vezes expulso e os meus pais foram chamados várias vezes à escola por causa do comportamento do Armando. Em criança dizia que gostava de ser arquitecto mas, como jogava à bola, queria comprar as sapatilhas e roupas iguais aos dos meus amigos holandeses. Fui trabalhar com 14 anos. Levantava-me às quatro e meia da manhã para ir distribuir jornais no meu bairro e depois ia para a escola secundária. Com 17 anos fui trabalhar para um talho a lavar terrinas. Comecei a ver como é que a carne entrava no talho e o circuito que fazia até chegar à charcutaria. Lembro-me de ver o talhante, de bata branca como os médicos, a desossar a carne e de pensar que era aquilo que queria fazer na vida. Na Holanda aposta-se na formação especializada e deixei o liceu e fui estudar para Roterdão para uma escola de carnes. Tirei o curso em seis anos e aprendi desde a compra de gado vivo a olho a tudo sobre a raça suína ou bovina, recursos humanos ou gestão. Gostava de abrir uma escola de carnes em Santarém. Ganhei vários prémios a enfeitar vitrinas de carnes e apareci em revistas. Aos 19 anos já era chefe de um talho que tinha 14 empregados. Em 1995, o Ministério da Agricultura holandês convidou uma delegação empresarial portuguesa, entre os quais Alexandre Soares dos Santos, para ir visitar matadouros na Holanda e fui convidado para lhes fazer a visita guiada. Acabei por ser convidado para ser director-geral de um dos maiores matadouros, onde estive três anos, até receber outro convite irrecusável para director comercial. Já casado, licenciei-me em Marketing.Fundei a Cruzimpex em Abrantes há 22 anos. Importamos e exportamos carnes um pouco para todo o mundo. Poucas pessoas conhecem a Cruzimpex em Abrantes mas tenho a certeza que o nome de Abrantes é conhecido em todo o mundo graças à Cruzimpex. O meu filho mais velho tinha alguns problemas de saúde, quando um dia um investidor árabe me fez uma observação que não gostei, resolvi que estava na hora de regressar. Escolhi Abrantes por uma questão estratégica. Também temos um escritório em Madrid e detemos cinquenta por cento de uma firma na Polónia. Apaixonei-me à primeira vista pela minha esposa, Maria Luísa. Sou uma pessoa que se deixa levar pelas emoções. Estamos casados há 33 anos. Conheci-a num baptizado, onde ela era a madrinha e eu o padrinho. Lembro-me de olhar para ela e pensar que era a tal. E foi. Temos dois filhos. O Ricardo está a trabalhar num matadouro na Holanda e pensa em seguir as pisadas do pai e a Raquel está a concluir o mestrado em Design de Moda. Sei falar sete línguas diferentes: português, holandês, inglês, espanhol, italiano, francês e alemão. Também penso aprender russo. Tudo o que tenho devo-o ao meu trabalho. Passo muitas horas ao telefone e, graças ao meu trabalho, já viajei pelos cinco continentes do mundo. Adoro Nova Iorque, nos Estados Unidos, porque se formos trabalhadores ninguém nos põe entraves e pela negativa o Japão, pois apesar de ser um país rico e muito higiénico, as pessoas têm um semblante triste.Só temos que ter sorte com a saúde. O resto temos que ser nós a fazer. Apanhei um susto há cerca de seis anos, fruto de uma vida sedentária aliada a uma intensa actividade profissional e porque, com carne fresca, há sempre problemas a resolver. Estive dois meses em repouso obrigatório. No escritório, sou o mais brincalhão embora haja o maior respeito pelo trabalho. Devo ser talvez o único empresário em Portugal que, no Verão, vem de calções para o escritório (risos). Gosto de ir à caça aos coelhos. Faz-me muito bem à cabeça. Sou sócio do Sporting, gosto de ver bola e de ir ao estádio de Alvalade quando posso. Participei em campeonatos amadores de moto-quatro e pratico todo-o-terreno. Gosto muito de conviver com os amigos. Não cozinho muito mas gosto de ensinar como se cozinha a carne. Gosto de acordar bem-disposto e saber que tenho coisas para fazer. Penso que nunca vou largar isto totalmente. Daqui por oito anos, penso comprar uma autocaravana e ir, por esse mundo fora, mostrar à minha esposa os sítios por onde já passei. Elsa Ribeiro Gonçalves
“Só temos que ter sorte na saúde; o resto é por nossa conta”

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