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Lenços com histórias em exposição em Alcanena

Lenços com histórias em exposição em Alcanena

Mostra organizada pelo Rancho Folclórico da Gouxaria está na Biblioteca Municipal até 31 de Agosto
Edição de 29.07.2015 | Sociedade
Estórias e vivências populares das mulheres da zona de Alcanena estão simbolicamente retratadas na exposição “Cem lenços com cem anos num concelho centenário”, inaugurada no sábado, 18 de Julho, na Biblioteca Municipal Doutor Carlos Nunes Ferreira em Alcanena e que pode ser vista até 31 de Agosto.Trata-se de uma mostra inédita de 140 lenços de cabeça, muitos deles com mais de cem anos, que integram o espólio de cerca de cinco centenas de exemplares do Rancho Folclórico da Gouxaria. Dos lenços de retrós, aos de ruas, de tapete, luto e seda, passando pelo pano, cachené e armur são variados os lenços doados por alcanenenses ou adquiridos pelo próprio rancho às pessoas da terra, sobretudo na zona sul do concelho, ao longo dos 30 anos de existência do grupo etnográfico.A falecida pintora Maria Lucília Moita, natural de Alcanena, foi uma das pessoas que muito contribuiu para o enriquecimento do espólio do grupo. Na Gouxaria, os mais velhos têm ainda na memória a imagem da jovem bem posta e altiva passeando a cavalo pelas ruas da aldeia sempre com vistosos e elegantes lenços. A maior parte dos lenços da “menina Bedi”, como todos lhe chamavam carinhosamente até ao fim dos seus dias, foram também doados ao Rancho Folclórico da Gouxaria.Figuras emblemáticas da terra, como a Maria “Repolho” - que cedeu também ao grupo muitos utensílios de trabalho e peças de vestuário e ensinou-lhes dezenas de cantigas e danças populares -, a tia Umbelina Calado, a Maria da Maternidade (que teve nove filhos) e a tia Lucília Gomes estão na lista das muitas pessoas que contribuíram para o trabalho de recolha e conservação do acervo efectuado pelo grupo.Daniel Café, presidente do Rancho Folclórico da Gouxaria, lembra-se como se fosse hoje do dia em que o grupo actuou em Casais Robustos, freguesia de Moitas Venda, há mais de 28 anos, e em que ele ficou vidrado no lenço de uma senhora octogenária que os via dançar. Depois da actuação, Daniel tentou convencer a espectadora a doar a peça ao grupo, acabando por lhe oferecer um lenço novo em troca do antigo que tantos anos a acompanhou nas jornadas de trabalho. O nome da proprietária do lenço, esse, já se esfumou da sua memória, tal como a identidade da jovem que recebeu como presente do noivo, que passava temporadas no Alentejo a comprar lotes de pele, um elegante lenço branco de seda bordado para usar no dia do casamento. “Provavelmente estas peças ter-se-iam perdido porque muitas vezes os filhos e netos desconhecem o valor patrimonial que estes lenços podem ter”, sublinha o presidente do grupo.Uma forma de salvaguardar o património e manter viva uma tradição, que se perdeu com o tempo. A elegância e a vaidade que as mulheres de hoje procuram nos sapatos e nas malas, as mulheres de antigamente encontravam nos lenços e nos xailes que carregavam ao longo de toda a vida e que eram a sua forma de afirmação. As cores sóbrias e tendencialmente mais escuras eram as mais apreciadas pelas mulheres na região de Alcanena. Até se casarem, as meninas envergavam lenços em tons de branco, laranja e amarelo, mas depois do casamento optavam automaticamente por tons mais escuros, culminando no incontornável lenço todo preto ou com adornos em roxo com o simbolismo do luto.“Cem lenços com cem anos num concelho centenário” podem ser vistos de segunda a sexta-feira das 10h00 às 19h00.
Lenços com histórias em exposição em Alcanena

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