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O Sardoal como pano de fundo do mais recente romance de Carlos Vale Ferraz

“A Estrada dos Silêncios” fala das invasões napoleónicas a propósito de uma expropriação
Edição de 29.07.2015 | Sociedade
Dez de Junho de 1988. Na Quinta de Monte Cimeiro, Sardoal, junto a uma velha oliveira, Francisco Afonso, proprietário que resistia a tiro à ocupação de parte das suas terras onde a árvore se encontrava, para a construção da auto-estrada que iria ligar Portugal à Europa, desdenhava do progresso. A sua interlocutora era a juíza Joana Secalha, do Tribunal de Abrantes. “Quero lá saber do futuro! O futuro é para os outros, para a senhora doutora, para os engenheiros, para os generais à frente das tropas...”. Cento e oitenta e um anos antes, debaixo de chuva torrencial, o capitão Alphonse Barre, oficial do exército Napoleónico, chegara ao mesmo local, ferido, amarrado ao dorso de um burro para não cair, escutando em fundo as pragas dos soldados que amaldiçoavam a sua má sorte. Foi em Novembro de 1807. A oliveira já lá estava. No dia 24 desse mês, o general Junot entrava em Abrantes “(...) em grande uniforme de coronel dos hussardos, o mais vistoso dos que possuía, a cavalo (...)”O décimo romance de Carlos Vaz Ferraz, pseudónimo literário do capitão de Abril, Carlos de Matos Gomes, confirma a mestria de um grande contador de histórias e de assuntos de História. O romance “A Estrada dos Silêncios” (Casa das Letras, Junho 2015) tem 350 páginas que sabem a pouco. Há um velho proprietário, culto até à raiz dos cabelos, que vive com a cigana Farah e um cão sem nome, que resiste a tiro à expropriação de parte dos seus terrenos. A juíza Joana Secalha tem nas suas mãos a decisão de confirmar a expropriação e mandar avançar as máquinas que irão construir a que pode muito bem ser aquela que designamos actualmente por A23. Em pano de fundo o romancista conta-nos a parte da História das invasões napoleónicas que cruzou a zona centro, o Ribatejo. Generais, soldados, sargentos, cabos, franceses e ingleses e milicianos portugueses. Personagens que deixaram descendência. Marcas que ainda marcam as populações de algumas cidades, vilas e aldeias. Joana e Francisco Afonso têm em comum sangue francês. Ele já o sabe há muito tempo, ela não.As personagens transformam-se em pessoas. O autor mete-nos aquela gente toda à nossa frente ou mete-nos a nós nos locais onde ela está. Vila de Rei, Penedo Furado, Abrantes, Cartaxo, Vale Paraíso.... São verdadeiras pessoas as que dizem o que dizem e ficou registado. Contraditórias como são as pessoas. Com interesses, segredos, silêncios...Gaspar Pina, o dono da estalagem do Sardoal que se diz descendente de Gil Vicente e que acalenta o sonho de abrir uma casa de alterne, Duarte Novo, o funcionário judicial, Carlos Matias o engenheiro que acredita no progresso mas que a certa altura se amedronta com maldições, Ricardo Meneses o revolucionário maoista organizador de orgias, colega de faculdade da juíza que surge do passado, despertando-lhe o desejo, tentando-a com cocaína e transmitindo-lhe recados de gente influente. O personagem Francisco Afonso diz a certa altura: “A justiça democrática e constitucional, senhora doutora, funciona como as modernas máquinas de regar: molha tudo à sua volta, ervas e árvores, homens distraídos e cães com sede...”. A justiça é feita por homens e mulheres. O processo de decisão não é simples e linear como nada é simples e linear nas nossas vidas. Joana Secalha sente dúvidas mas quando decide é atravessada por uma sensação de poder. “Reconheceu haver caído num cruzamento de interesses. E, mais uma vez, como nas orgias de Ricardo Meneses, gostou da sensação de se ver numa peanha, num altar, no centro dos desejos. Provocava-lhe uma excitante volúpia, de força, de poder, Os pretendentes andavam como cães à volta da cadela com o cio, a tentarem possuí-la. Neste caso, impor-lhe uma decisão sobre os terrenos de Francisco Afonso. Assumia o prazer do triunfo. Correu à casa de banho masturbar-se”.

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