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Tertúlia de Jorge Júlio é um hino de amor à tauromaquia e às tradições

Tertúlia de Jorge Júlio é um hino de amor à tauromaquia e às tradições

Um entusiasmo juvenil por Coruche e pelas festas apesar dos noventa anos de idade

Do portão escancarado da antiga oficina de Jorge Júlio, no centro histórico de Coruche, vislumbram-se dezenas de cartazes de corridas de toiros, molduras com fotografias de cavaleiros e forcados, desenhos e pequenos artefactos ligados ao mundo taurino e rural.

Edição de 12.08.2015 | Especial Coruche
Quem passa em frente ao número 1 da Travessa do Salestiano, no centro histórico de Coruche, não consegue ficar indiferente aos inúmeros cartazes de corridas de toiros, molduras com fotografias de cavaleiros e forcados, desenhos e pequenos artefactos ligados ao mundo taurino e rural que se vislumbram nas paredes da antiga oficina de Jorge Júlio, através do portão escancarado.Jorge Júlio trabalhou durante mais de quatro décadas como mecânico de automóveis. Quando deixou de trabalhar transformou a oficina numa tertúlia. Ao princípio abria o espaço só de vez em quando, “para arejar” mas a crescente curiosidade dos transeuntes motivaram-no a abri-lo todos os dias. Fá-lo por gosto e não para ganhar dinheiro. Aliás, não aceita que ninguém lhe deixe “um tostão” e fica ofendido se algum visitante se for embora sem levar uma recordação. Já lhe roubaram um toiro em barro pelo qual tinha muita estimação, mas nem esse desgosto o faz fechar a porta.Aos 90 anos passa boa parte dos dias a tentar arrumar melhor o espólio. “As paredes estão cheias demais e já não devo conseguir pendurar mais nada”, reconhece com um sorriso tímido. Grande parte das fotografias de cavaleiros, bandarilheiros e forcados, alguns deles já falecidos, estão autografadas. Numa das paredes, não passa despercebido um cartaz muito antigo que anuncia uma corrida na Praça do Campo Pequeno, em Lisboa, em 1901. Engavetadas estão outras tantas centenas de fotografias e cartazes que perfazem um total de mais de dois mil exemplares. Na parede do fundo salta à vista uma imponente cabeça de toiro e do tecto pendem duas mantas ribatejanas.A paixão pela tauromaquia surgiu ainda em jovem e cedo começou a ir a corridas de touros a Espanha. Na Praça de Toiros de Coruche conta que tinha um lugar cativo à sombra. “Era nas bancadas mesmo em frente ao camarote do presidente da câmara”. É com tristeza que vê hoje as praças cada vez mais vazias. Os bilhetes estão caros e a vida hoje é diferente, bem sabe. Os movimentos anti-taurinos são outra coisa que o desgosta. “É pena não haver mais corridas em Coruche. Nesta terra estão os melhores cavaleiros, bandarilheiros e forcados do país”, anuncia. O mestre David, patriarca da família Ribeiro Telles e amigo próximo de Jorge Júlio, bem como os seus filhos e netos, estão representados muitos recantos da antiga oficina onde também não faltam imagens de outras figuras emblemáticas como os irmãos Badajoz, Diamantino Viseu, António Luís Lopes, Simão da Veiga ou Mário Coelho. “Só falta o senhor David Ribeiro Telles vir visitar a tertúlia porque os filhos dele já cá estiveram todos”, graceja.Em cima de uma mesa tem uma fotografia sua, a preto e branco, numa actuação do Rancho Folclórico do Sorraia. em 1944. Ao lado está um recorte de O MIRANTE que noticia o 109º aniversário do Clube Artístico Comercial Coruchense com uma fotografia sua em grande plano. É o sócio número 1 da associação, que em tempos dirigiu, e diz que passou bons momentos da sua vida na sede da mesma, na Rua de Santarém.De mecânico de bicicletas a mecânico de automóveisTremem-lhe um pouco as mãos e tem problemas de audição mas tem uma boa cabeça e é um grande conversador e contador de histórias. Jorge Júlio nasceu em Marinhais, concelho de Salvaterra de Magos, a 16 de Novembro de 1924. Era o mais novo de nove irmãos e ficou órfão de mãe quando tinha apenas quatro anos de idade. O pai morreu quando ele tinha 15 anos, pouco depois de a família se mudar para Coruche onde já viviam dois irmãos mais velhos. “Viver em miúdo sem mãe e sem pai custou-me muito”, confessa. Ficou a viver com o irmão António, que lhe ensinou o ofício de mecânico de bicicletas. O seu sonho era arranjar automóveis e só descansou quando conseguiu trabalho numa oficina que existia no centro histórico na vila, depois de dias a fio a pedinchar ao dono uma oportunidade. Aí trabalhou durante duas décadas, mas depois de casar decidiu abrir o seu próprio negócio na garagem de sua casa. Começou por vender uns carros e acabou por se tornar agente oficial de uma das principais marcas de automóveis. Conta que trabalhou muito, numa altura em que “o negócio rendia e dava para viver uma vida desafogada”. Guarda numa arrecadação muitas ferramentas de trabalho que já ninguém quer comprar mas que, segundo ele, “ainda valem uns bons contos de réis”. O imenso espólio de cartazes, imagens e artefactos taurinos, esse, quer deixá-lo em boas mãos. Diz que talvez faça uma doação à Câmara Municipal de Coruche.O dia em que deitou fogo ao cabelo de Amália RodriguesAs Festas em Honra de Nossa Senhora do Castelo são o momento alto do ano para Jorge Júlio e durante longos anos esteve activamente ligado à Irmandade da Santa a quem cabe organizar os festejos. O seu empenho era tal que em 1998 conseguiu levar a Coruche a emblemática fadista Amália Rodrigues.Antes do concerto, quando estava no camarote, Amália Rodrigues quis fumar e Jorge Júlio fez a gentileza de lhe estender prontamente um isqueiro a gasolina para acender o cigarro. Azar dos azares, a chama estava demasiado alta e chamuscou uma ponta do cabelo da artista, que se assustou a valer. “Ela começou aos gritos horrorizada a pensar que eu lhe tinha queimado o cabelo todo. A chama só queimou um bocadinho de cabelo à frente mas ela estava verdadeiramente em pânico”, conta a rir.A experiência no Grémio Coruchense e na Irmandade de Nossa Senhora do Castelo não foram as únicas experiências associativas de Jorge Júlio. Ao longo dos anos passou por grande parte das associações do concelho de Coruche, excepto as desportivas, e foi inclusive um dos fundadores do projecto de solidariedade social do Bairro dos Pobres. “Toda a gente me conhece e tenho grandes amizades. Sempre fui muito estimado por esta gente toda”, afirma com orgulho e com um brilho no olhar. 
Tertúlia de Jorge Júlio é um hino de amor à tauromaquia e às tradições

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