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O experimentalismo hospitalar

Edição de 12.08.2015 | Opinião
O tema dos novos modelos de gestão e de organização dos hospitais está definitivamente na ordem do dia. De forma mais ou menos azaranzada, mas está. E para durar, parece.É um tema de grande exposição mediática tratado com a mesma inabilidade com que tem sido tratada, por exemplo, a reforma da rede hospitalar: Hospitais SPA, Hospitais SA, Hospitais EPE, Centros Hospitalares, Unidades Locais de Saúde e, agora, Grupos Hospitalares. A riqueza da língua portuguesa e a imaginação financeira de alguns têm permitido toda esta diversidade e experimentação permanente. Não obstante a pertinência, o tema tem sido pouco discutido e ainda menos aprofundado. Carece, aliás, de demonstração técnica e de um projeto consistente para que seja amplamente analisado e publicamente apreciado.No caso das cidades de Abrantes, Tomar e Torres Novas, assiste-se, precisamente, ao experimentalismo na organização das suas Unidades Hospitalares que formam o Centro Hospitalar do Médio Tejo (CHMT). A situação de calamidade em que se encontra, hoje, o CHMT deveria proibir decisões precipitadas e obrigar a tutela a assumir a responsabilidade que sempre descurou.Os obstáculos criados pela incapacidade dos sucessivos responsáveis do Ministério da Saúde e pelos seus múltiplos erros têm dificultado uma gestão equilibrada deste Centro Hospitalar, assim como têm sido um entrave ao trabalho dos profissionais de saúde em condições adequadas. No contexto atual de extrema dificuldade financeira, organizativa e de falta de recursos humanos, o CHMT tornou-se ingovernável e a sua correta gestão uma missão impossível para qualquer Conselho de Administração. Manter esta situação sem uma intervenção responsável e vigorosa do Ministério da Saúde será, a meu ver, consentir uma catástrofe de graves consequências.Recentemente, tem sido veiculada uma solução “milagrosa” que propõe a junção dos três hospitais do CHMT ao Hospital de Santarém. Surgiria, assim, o Grupo Hospitalar da Lezíria/ Ribatejo como o remédio para resolver os graves problemas em saúde que se vivem nesta região. Parece inacreditável a ligeireza e a irresponsabilidade técnica com que esta nova fórmula está a ser tratada: sem que se vislumbre o menor fundamento técnico, sem a existência de qualquer estudo credível e sem - mais uma vez - a sensatez de uma consulta aos profissionais de saúde envolvidos e capazes de contribuir com a sua experiência e conhecimento.O modelo de organização atual do CHMT está esgotado. É uma evidência para todos. Mas também parece ser uma evidência que o caminho não poderá voltar a passar por um modelo experimental, não estudado e desconhecido. O experimentalismo irrefletido não pode ter lugar na área da Saúde. Já se materializou no CHMT e as suas consequências estão à vista.Não consigo descortinar a mais-valia de um processo tão inabilmente conduzido e tecnicamente impreparado. Estou certo de que surgirão estudos muito convenientes para validar soluções políticas previamente delineadas. Porém, infelizmente, voltarão a ser prejudicados os profissionais de saúde e, sobretudo, os doentes.O CHMT vive com problemas de base com impacto negativo na qualidade dos cuidados de saúde e na sua gestão financeira: a dispersão das unidades hospitalares, a escassez de recursos humanos, o desajustamento no financiamento por despreocupação do Ministério da Saúde. Enquanto tais problemas não forem seriamente revolvidos, não permitirão o desenvolvimento sustentável de ganhos em saúde nem a estabilidade dos profissionais de saúde. Em suma, o adequado funcionamento das Unidades Hospitalares da região. Mas a esta grave situação, há ainda quem queira acrescentar maior dispersão, maiores dificuldades na gestão de recursos humanos e, ainda, maior catástrofe financeira.Não é a mudança que nos inquieta ou perturba. Sabemos que é necessária uma reforma profunda. A leviandade de decisões irresponsáveis e a impunidade de quem as tem tomado é que nos preocupa a todos. É tempo de o Ministério da Saúde resolver uma das piores situações hospitalares do País.Carlos Cortes** Presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos / Diretor do Serviço de Patologia Clínica do CHMT(Texto escrito conforme as normas do novo Acordo Ortográfico)

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