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Se há suspeitas que amansam toiros autoridades devem investigar

Se há suspeitas que amansam toiros autoridades devem investigar

Rafael Vilhais, empresário tauromáquico e representante da ganadaria Conde Cabral

Rafael Vilhais é o apoderado de Diego Ventura e representante da ganadaria Conde Cabral. Nasceu em Samora Correia, onde foi criado na vida do campo. Desde cedo que mostrou olho para o negócio, passando por uma empresa de venda de máquinas agrícolas até se estabelecer como empresário tauromáquico. Organiza, entre outras, a corrida de toiros das festas de Samora Correia, a sua terra, que gostava de ver mais publicitada e aproveitada.

Edição de 12.08.2015 | Sociedade
Ainda se consegue viver da tauromaquia em Portugal? Não sei, mas envolve muito dinheiro e gente. Todos os espectáculos, sobretudo corridas, que são bons, as pessoas aderem e esgotam. Veja-se o Campo Pequeno e Alcochete. Aí ganha-se dinheiro. Mas as pessoas não entendem o envolvimento que isto tem e a economia que gera. Veja-se as festas de Samora Correia: beneficiam os restaurantes, os hotéis, o homem que vende as rações, o que vende as cercas, tudo isso gera dinheiro. A tourada é um espectáculo de duas horas que envolve anos de preparação e cria empregos. Sobretudo mantém uma tradição. Se um dia isto acabar acaba o toiro bravo.Foi do gosto pela tauromaquia que se fez empresário? Pertenci às organizações das festas de Samora Correia, mas antes já gostava de toiros. Foi o prazer em ajudar a organizar que me tornou em empresário. É algo que faz parte desta cultura em que eu nasci, é uma paixão. Essa é a única forma de perceber a luta de vida entre homem e toiro, que só é criado para isso. Depois foi juntar a isto a apetência empresarial, não só com a ideia de enriquecer, mas muito com prazer. Tenho essa sorte de fazer o que gosto e ganhar dinheiro.Foi eleito o melhor apoderado. Sabe-lhe bem ser reconhecido nessa função? Sim, tenho orgulho no que faço com seriedade e honestidade. Gosto de ajudar. Tenho o Diego Ventura, o Francisco Palha e o Tomás Pinto que represento, mas sou amigo deles, tenho carinho por eles. Um apoderado tem de ser a pessoa que trata dos interesses monetários do toureiro, mas acima de tudo tem de pensar no futuro do toureiro, ter paixão pela sua forma de tourear, aconselhá-lo e, sobretudo, ser amigo.Este ano volta a organizar a corrida em Samora. Dá-lhe especial prazer por ser a sua terra? Sobretudo porque é a homenagem ao Sérgio Perilhão, que foi das pessoas que mais fez pela festa tauromáquica, pelas tradições do campo. Dá um prazer especial, é um bichinho que tenho pelo amor que tenho a Samora.Como é que se prepara um toiro para uma corrida? Além da selecção, que demora anos, é uma questão de sensibilidade, conseguir fazer um toiro com regularidade, que saiba dar espectáculo. Depois é a criação, ter espaço, alimentá-lo convenientemente e, nos últimos anos, tem de ter uma ração especial, com milho, fava, aveia e soja. Os toureiros hoje em dia preferem toiros como antigamente ou mais mansos? Depende. O toiro deve ser bravo com nobreza, para transmitir perigo ao público, mas que permita dar espectáculo, que deixe o cavaleiro brilhar, sem nunca perder a noção de que há perigo. Às vezes um toiro cobarde é ainda mais perigoso.Existem acusações de que há quem ande a amansar os toiros… Pode haver um pouco isso. Por vezes quer-se apurar tanto que o toiro sai mal. O difícil é manter um toiro regular e não amestrado, não ir atrás do que os toureiros querem, não procurar tanta nobreza que às vezes dá em mansidão. Quando se fala em doping para os toiros devia provar-se. Quando há essa desconfiança, o director veterinário devia agir de imediato e pedir análises. Nenhum toureiro tem prazer de tourear um toiro diminuído, porque se está a prejudicar a ele mesmo e a matar a sua galinha dos ovos de ouro. Mas se houver dúvidas, que se provem, recolhendo sangue no momento. As autoridades que tratem disso porque há meios.A crise afectou muito a tauromaquia? Sim. Já houve crises noutros tempos, mas não sei se conseguimos galgar os barrancos porque tenho muito má impressão dos políticos…Nunca pensou meter-se na política, sendo uma figura conhecida na terra? Fui convidado mas não tenho apetência para isso. Há políticos honestos, são raros, mas gostava que houvesse políticos mais conscientes. Conheci o antigo presidente da Câmara de Benavente e conheço o actual e sempre tive o apoio deles. O actual tem noção do concelho que aqui existe, ele nasceu no mundo rural como eu e sabe o que é preciso, muitas vezes no apoio moral, no dar a cara.Uma das críticas que é feita a esta vereação é que para Samora crescer devia haver uma maior aposta, sobretudo no turismo. Partilha desta opinião? Partilho! Falta aproveitar as zonas ribeirinhas para fixar as pessoas, que é o grande problema. Samora não era um dormitório mas hoje tem muita gente de fora ou que trabalha fora. Temos boa restauração, locais atractivos, espaço para estacionar, mas o grande problema é a vida depois do trabalho. Não há para onde ir, tirando as festas. O problema é expandir o nome para chamar mais pessoas.Falou na zona ribeirinha. O Tejo, Sorraia e Almansor deveriam ser polos potenciadores? Claramente. Devia ser uma zona de aposta forte. Em Samora as autoridades deveriam ser mais vigilantes, porque é uma zona onde há tráfico de estupefacientes e outras coisas. As autoridades deviam ter mais presença, de dia e de noite. Se as pessoas não se sentem à vontade numa zona não vão. Há muito trabalho a fazer.Samora Correia devia potenciar a tauromaquia para cativar mais gente, sobretudo turistas? Recebi uma encomenda de franceses que querem vir a Alcochete ver uma tourada. Não se faz ideia da quantidade de estrangeiros que pedem para vir ver estes espectáculos, mesmo os que estão de férias no Algarve. Tem um potencial de crescimento enorme. Uma temporada, com corridas, festas e outras iniciativas, nunca movimenta menos de 500 mil euros por dia, se olharmos para o exemplo de Alcochete. Samora devia aproveitar este exemplo. A câmara pode ajudar mais, apesar das dificuldades monetárias, tal como a junta.Um dos factores que pode dar crescimento é o Aeroporto. Como encara essa possibilidade? Sou contra e até seria beneficiado em negócios se cá tivesse o aeroporto. Temos de preservar a mancha verde do concelho. Prefiro a solução Portela e Montijo. Temos de pesar os prós e contras por causa dos postos de trabalho que poderiam ser criados, mas a minha posição é esta. A câmara fez bem em não o considerar no PDM.A rivalidade histórica entre Samora e Benavente ainda faz sentido? É muito antiga. Hoje em dia está mais diluída. Samora beneficiava mais se fosse concelho. Tem capacidade para isso e sou totalmente a favor disso. Acho que devia ser concelho. Por causa do tecido económico, pela localização geográfica, pela quantidade de pessoas que aqui vive. Até temos um presidente de câmara que é de Samora (risos). O que é que o presidente da câmara pode fazer de diferente? Vender a imagem do concelho para fora, para receber visitas, sobretudo internacionais. É preciso acarinhar este bem que temos, que tem de ser desbravado e que tem um potencial enorme para crescer em termos económicos. Estamos a 30 minutos de Lisboa, é um privilégio. Acredito até que haja quem queira fazer mais pelo turismo, mas não sabe como fazer e nisso a câmara podia actuar. A promoção de produtos como o vinho e o arroz é fulcral.Um homem de bem com a vidaAos 53 anos, Rafael Vilhais considera-se um homem de bem com a vida. Nasceu no campo, em Samora Correia, e vive em Santo Estêvão. O empresário tauromáquico, além de apoderado de várias toureiros, entre eles Diego Ventura, herdou dos pais o gosto pela vida do campo. E é juntando o útil ao agradável que trabalha com toiros, desde cedo, na Casa Conde Cabral, na Herdade de Pancas. Reconhecido na sua actividade - já recebeu o prémio de melhor apoderado - nunca deixa de olhar para a sua terra e de ter opinião sobre o que está bem e mal. O prazer de participar na organização das festas da cidade - já foi membro da direcção da ARCAS - é quase igual ao que retira do seu hobby: cozinhar, sobretudo aquilo que caça. Considera-se um amigo da terra e sempre que pode leva o nome de Samora Correia para todo o lado.
Se há suspeitas que amansam toiros autoridades devem investigar

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