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Médicos que dão consultas no meio da rua

Médicos que dão consultas no meio da rua

Os médicos internos de medicina geral e familiar da Lezíria do Tejo reuniram-se nos dias 30 e 31 de Outubro, na Escola Superior de Saúde de Santarém, para partilharem experiências, conhecimentos e frequentar palestras e workshops sobre as mais variadas temáticas. À margem do que se passava dentro do auditório, alguns dos médicos foram respondendo a perguntas de O MIRANTE. Quisemos saber, por exemplo, se um médico que está a tirar a especialidade tem dificuldade em constituir família.

Edição de 04.11.2015 | Sociedade
“O que posso dizer é que neste momento tenho a vida adiada até ao término da especialidade, que é este ano”, diz-nos Ana Luísa Bernardo, 29 anos, presidente da comissão organizadora do encontro de médicos. Já Rita Matias Ferreira, 45 anos, para justificar que um médico tem dificuldade em constituir família, lembra a brutalidade que é enveredar pelo curso de medicina: “Noutras profissões as pessoas tiram um curso e podem tirar mais uma especialização ou duas mas começam a trabalhar. Nós tiramos seis anos de curso, depois temos um ano de internato geral e depois temos mais quatro ou cinco ou seis anos de especialidade. É uma exigência brutal”. Quanto a Miguel Rato, 32 anos, casado com uma médica, também adiou a questão de ter filhos para mais tarde. “Temos uma grande ocupação emocional”, justifica.Um assunto polémico com o qual os médicos têm de lidar é o das transfusões de sangue em Testemunhas de Jeová, algo que estes rejeitam devido à sua interpretação da Bíblia. “Temos de aceitar todas as decisões do doente que, em última análise, é o dono do seu corpo”, lembra Ana Luísa. Eva Marona, 31 anos, também fala em respeitar sempre a opção do doente: “A única coisa que eu tenho de ter a certeza é que a opção do doente é uma opção informada e uma opção autónoma. Muitas vezes, nessas situações de grupos, de comunidades, as opções podem ser impostas. Enquanto médica tenho de garantir que a opção feita por aquele indivíduo é absolutamente consciente do que lhe vai acontecer e que é uma opção livre, ou seja, que ele não está com medo de ser segregado pela comunidade”. Miguel Rato lembra, de uma forma mais geral, que há doentes que não querem ser tratados. “E eu não os posso obrigar”, diz.À excepção de Eva Marona, os médicos internos ouvidos por O MIRANTE costumam ser constantemente abordados para passarem receitas a familiares, amigos ou vizinhos. Ana Luísa Bernardo conta que de vez em quando tem alguém à sua espera à porta de casa, enquanto Rita Matias Ferreira reconhece que a estão “sempre a cravar”. O exemplo mais elucidativo vem de Miguel Rato: “Mais do que pedir receitas é muito normal ter de dar consultas no meio da rua. É um trabalho que não acaba e isso às vezes é um bocadinho desgastante. Por exemplo, já dei umas cinco ou seis consultas seguidas num sítio onde costumava ir tomar café. As pessoas não têm noção do que fazem”.Dos quatro médicos ouvidos, dois são naturais de Santarém, Eva Marona e Miguel Rato. Ana Luísa Bernardo é natural das Caldas da Rainha e Rita Matias Ferreira é natural de Lisboa. Ambas trabalham em Santarém, na Unidade de Saúde Familiar do Planalto, e ambas foram desafiadas a darem a sua opinião sobre a região. “É uma região muito bonita, boa para viver. Gosto de tudo: da comida, das tradições, das pessoas”, conta Ana Luísa, que não fica indiferente ao rio Tejo e à paisagem: “Sendo das Caldas da Rainha, o mar diz-me mais alguma coisa que o rio, mas trabalhando na USF Planalto e podendo observar aquela paisagem da lezíria, e o rio a correr lá em baixo, é claro que é uma paisagem que já se tornou minha e que já me diz muito”.Rita Matias Ferreira, residente em Santarém, referiu-se especificamente à cidade: “É uma cidade pequena mas onde se pode viver com grande qualidade de vida. É uma cidade óptima para criar filhos. Tem escolas e boas estruturas para os nossos filhos frequentarem. É próxima de Lisboa. A nível cultural é que não tem tido tantas iniciativas mas está a melhorar. Viver e trabalhar cá é um privilégio”.Médicos afirmam a sua vocação mas criticam o sistema Aproveitando o I Encontro de Médicos Internos de Medicina Geral e Familiar, O MIRANTE falou com alguns clínicos sobre questões que preocupam a classe e a população em geral, como a falta de médicos, a chegada de médicos estrangeiros ou a decisão entre ficar em Portugal ou sair, a exemplo de muitos.Ana Luísa Bernardo admite que existe falta de médicos mas de uma especialidade em particular: “Existe, de facto, falta de médicos, mas de família. Neste momento sente-se muito porque muitos se reformaram e muitos emigraram devido às condições de trabalho que temos actualmente. Por outro lado, estão muitos médicos a formarem-se e penso que mais cedo ou mais tarde o problema se vai resolver”. A falta de médicos sente-se mais no interior do país mas, segundo Rita Matias Ferreira, não é preciso ir-se muito longe: “Não é preciso irmos muito para o interior. Faltam médicos no centro de saúde onde eu trabalho, faltam médicos em Almeirim, faltam médicos de família em muitos centros de saúde”, revela. Eva Marona, por exemplo, considera importantes os apoios financeiros dados pelas câmaras municipais para a fixação de médicos no interior mas afirma que muito mais podia ser feito: “Por exemplo, darem benefícios às pessoas em termos de casas, em termos de estudos dos filhos”.Miguel Rato é um dos muitos médicos que não se sente realizado em Portugal. Diz que as condições se têm vindo a degradar: “É importante que se tenha a noção que nós ganhamos muito menos do que a opinião pública pensa. Mas mais preocupante que isso são as condições do dia-a-dia, com sistemas informáticos obsoletos, com regras e directrizes pouco adequadas. Há muita insatisfação e as pessoas acabam por ir para o estrangeiro ou para instituições privadas que, na maior parte das vezes, estão localizadas nos grandes centros”. Ir para o estrangeiro é, assim, um cenário que já lhe passou pela cabeça: “Não é de todo um desejo mas neste momento sinto-me frustrado por me ver tratado como um mero funcionário fabril. Caminhamos muito nessa direcção e há outras realidades a nível europeu onde não é assim”.Um tema polémico na actualidade da saúde é o dos muitos médicos estrangeiros a trabalhar em Portugal. Ana Luísa Bernardo considera que foi e ainda é uma necessidade: “Mas é irónico contratarmos médicos estrangeiros e deixarmos sair tantos médicos que acabaram a formação”. Quanto a Rita Matias Ferreira, diz que é uma pena tendo em conta que em Portugal “há muita gente válida e com vontade de ser médico”. “Por uma restrição muito grande de vagas, aqui há uns anos, nas faculdades de medicina, os portugueses que gostariam de ter tido acesso à faculdade não tiveram, e agora deparamo-nos com este problema da falta de médicos e da contratação de estrangeiros. Houve um péssimo planeamento a nível nacional”, considera.Miguel Rato diz que a vinda de médicos estrangeiros é um pau de dois bicos: “Há bons médicos a virem de fora, tão bons ou melhores que os formados cá, e depois há outras realidades menos boas. O que é frustrante é que pessoas sem a especialidade de medicina geral e familiar, que não tiveram de passar pelo processo que eu e outros internos temos de passar, estão neste momento a fazer o mesmo trabalho que nós, a ganhar muito mais”, revela. O médico diz, no entanto, que a entrada de estrangeiros é algo que deve ser encarado como uma solução de curto prazo.
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