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Acutilante Manuel Serra d’Aire

Edição de 11.11.2015 | E-mails do outro mundo
Alguns críticos dizem que Santarém começou a perder importância e projecção desde que ali morreu, em finais do século XV, o príncipe Afonso de Portugal, filho e único herdeiro do rei D. João II. É uma espécie de maldição que paira sobre a cidade, dizem os mais agoirentos, pois a cidade deixou de ser poiso habitual dos monarcas. Mais tarde, em finais do século XX, a cidade procurou voltar a ter reconhecimento internacional com a fracassada candidatura a património mundial e, já no século XXI, irrompeu do nevoeiro o homem providencial que iria resgatar a velha Scalabis das trevas do esquecimento: el-rei D. Francisco Moita Flores.Acontece que não houve grande evolução mas a cidade, pelos vistos, continua a ter nome lá fora. Pelo menos lá para os confins da Ásia. Só assim se explica que uns 70 jovens do Nepal se tenham lembrado do Politécnico de Santarém para estudar, com tanta universidade, escola e instituto por esse mundo fora. E não me venham dizer que os estudantes asiáticos escolheram Santarém por um qualquer acaso do destino, ou simplesmente porque adoram tourada ou pretendem aprender a dançar o fandango. Estou convencido que essa malta quis trocar a vizinhança dos Himalaias pela lezíria ribatejana porque soube da existência da Escola de Gestão de Santarém e que nesse estabelecimento de ensino superior a animação é garantida durante todo o ano, seja pelas festas promovidas pelos alunos seja pelas constantes trapalhadas, convulsões internas e desaguisados entre professores e directores. Situações que não se encontram num plano curricular normal e que garantem uma aprendizagem mais abrangente, conferindo uma maior preparação para enfrentar o mercado de trabalho. Portugal é um país de poetas, diz um dos muitos mitos urbanos que por aí circulam. Pois eu diria mais: Portugal é um país de escritores, que usam qualquer suporte para dar asas à imaginação e ao que lhes vai na alma, como se isso interessasse grande coisa à maralha. Basta constatar que continua a haver quem escreva nas paredes, prosseguindo um hábito que teve grande expansão após a revolução do 25 de Abril, e que as redes sociais e caixas de comentários dos jornais estão cheio de escritores, opinadores, comentadores e gente que, basicamente, não consegue estar sossegada sem mandar uns bitaites. E os lançamentos de livros, então, são em catadupa por tudo quanto é sítio, porque inspiração não falta a este povo. Eu diria mais: a publicação de romances, novelas, ensaios, contos e poemas é inversamente proporcional ao número de gente que ainda pega num livro, essa é que é essa!Ouvi dizer que Santarém e Benavente vão lançar campanhas contra os dejectos caninos e em Benavente estão previstas multas dolorosas para os prevaricadores, leia-se donos dos bichinhos que defecam na via pública. Eu aplaudiria de pé, após tanta sola borrada por merda canina, não fosse o caso de já não acreditar no Pai Natal há muito tempo. Muita dessa gente vem do tempo em que ainda se despejavam os penicos pelas janelas e se mandava o lixo para o Tejo. E tu sabes como os portugueses são agarrados às tradições. Deixar merda de cão nos passeios é uma forma de matarem saudades desses gloriosos tempos em que o saneamento básico era uma miragem e em que nunca se tinha ouvido falar de aterros sanitários. Por isso, meu caro, nalgumas ruas, praças e jardins o melhor mesmo é continuar a usar galochas e estar atento aos terrenos que se pisam.Um abraço cheio de esperança do Serafim das Neves

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