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“A minha infância e adolescência em Vila Franca foram mágicas”

“A minha infância e adolescência em Vila Franca foram mágicas”

António Carraça, ex-futebolista profissional, começou carreira no Vilafranquense

Foi futebolista profissional, treinador, presidente do Sindicato dos Jogadores e director geral do futebol profissional do Benfica, mas foi na terra natal que tudo começou. António Carraça guarda as melhores memórias de uma infância e adolescência felizes em Vila Franca de Xira, quando desafiava toiros e tomava banho no Tejo. Continua a fazer questão de tomar o pulso à cidade, regozija-se com investimentos como a Fábrica das Palavras, mas lamenta a falta de um cinema.

Edição de 11.11.2015 | Entrevista
Que ligação mantém com Vila Franca de Xira? Não me esqueço das minhas origens, da minha terra, do meu União Desportiva Vilafranquense (UDV). É com prazer que digo que sou o sócio cento e pouco. Foi muito importante para o meu carácter ter desenvolvido actividade desportiva naquele clube. Naquele tempo havia mais dificuldades, mas era com prazer que treinávamos num pelado cheio de pedras e era uma parte muito importante do meu dia e que fazia com que eu me sentisse realizado. Transmitiu-me valores para a minha vida profissional, pessoal, académica e social.Tem acompanhado a carreira do UDV? Ainda neste último jogo da taça fui com o meu filho de 9 anos e ele fez questão de levar um cachecol do clube, precisamente porque sabe qual a ligação que tenho ao clube e à cidade. Vamos lá regularmente a casa da minha mãe e foi um pormenor interessante ele querer ir ver o jogo e até dizia que íamos ganhar 3-0. Além disso, quem gere o clube teve e amabilidade de criar um torneio com o meu nome, o que me deixa muito feliz e honrado.Agrada-lhe o projecto que está a encabeçar o clube e a direcção que está a tomar? Quem está à frente da SAD tem um projecto definido e com condições de crescimento, tendo em conta o que são as limitações dos clubes nestes centros pequenos. No jogo com o Sporting a equipa teve um apoio fantástico e durante os jogos de campeonato julgo ser igual.O clube foi importante na definição da sua carreira? O meu objectivo de vida era ser médico cirurgião e ainda apanhei o serviço cívico e andei pelo Hospital de Vila Franca de Xira. Nunca pensei ser jogador de futebol e acabei por ser por contingências do jogo, porque aos 16 anos comecei a jogar na primeira equipa do Vilafranquense. Isso fez-me evoluir e depois estar, aos 17 anos, na selecção nacional, sendo o único internacional do Vilafranquense até agora. As oportunidades foram surgindo e acabei por ser jogador profissional durante 15 anos e foi o UDV que me deu a possibilidade de evoluir. Que memórias guarda e que marcas perduram do tempo em que viveu em Vila Franca? A minha infância e adolescência em Vila Franca foram mágicas. A sociedade era mais tranquila e segura. Andei na Escola do Adro que é agora um parque de automóveis e ia e vinha a pé sem preocupações. Vivi muitos anos no cais de Vila Franca, na casa da minha avó. Passava horas a jogar futebol. Era de uma família de classe média, éramos três filhos, sempre nos deram o que precisávamos, mas não havia abundância. Lembro-me que, para jogar à bola e não dar cabo dos ténis, ia à gaveta do meu pai e levava dois pares de meias para jogar sem ténis. É claro que a minha mãe viu que as meias desapareciam e levei um ralhete. Comecei a jogar com os ténis e outras vezes descalço para aquilo durar mais tempo.Gostava de brincar com os toiros no Colete Encarnado e na Feira de Outubro ou não era muito afoito? Gosto muito de touradas e o meu filho também. Eu ia lá para o meio. Quando tinha uns 15 anos, uma vez juntámos um grupo para pegar um toiro em pontas. Formámos, com toda a família a ver, fiquei como segundo ponta de bola, pegámos e quando se deu a contagem para largar nunca ouvi o três. Fiquei sozinho no corno, fui sacudido e caí em frente à porta de casa. Olho para o lado e vejo o animal a arrancar para mim. Alguém me puxou para dentro e ainda ouvi o barulho do toiro a passar. Foi o maior susto da minha vida e ainda ouvi dos meus pais. Passado um mês estava a pegar no Barrete Verde, mas a minha carreira como forcado foi efémera. Tomava banho no Tejo? Tomava pois, mas às escondidas dos meus pais. Aprendi a nadar lá, ia lá à pesca, tirava camarões, enguias, pargos, era uma coisa impressionante o rio.Olha hoje para a sua cidade natal e o que vê? Vejo com grande tristeza que Vila Franca não tem um cinema. Ia todos os domingos ao cinema. O centro comercial onde, recentemente, havia o cinema está entaipado. Mas quando passo na rua do antigo cinema visualizo como era comprar o bilhete, a sala, todo o ritual de ir ao cinema.Já visitou a Fábrica das Palavras? O que achou? Passo lá muitas vezes, porque a minha mãe mora aí à frente. O cais está diferente, a casa que era da minha avó já foi abaixo. Mas esse investimento é sem dúvida uma excelente promoção da cidade, além de que dá opções às pessoas, o que é fundamental.Vila Franca hoje em dia ainda o faz sonhar? Faz, porque ao entrar naquela terra vêm-me à memória todos os momentos felizes que ali tive. E é o que tento proporcionar aos meus filhos, que ainda lá vão frequentemente, e até à minha neta Beatriz que tem cinco anos.“Custa-me ver o Alverca no distrital”Custa-lhe ver o FC Alverca nos distritais de futebol, depois de ter passado pela 1ª Liga? Sem dúvida que custa. O Alverca, a partir de determinada altura, foi um clube que teve dinâmica e visão que permitisse atingir a primeira liga. Teve meios físicos, humanos e pessoas que investiram no clube com visão e crença para marcar a diferença e fazer de um clube regional um emblema que chegasse à primeira divisão. Ver um clube destes chegar aos distritais é desanimador.A saída de Luís Filipe Vieira do clube foi determinante para esse fim? Foi. Ainda o apanhei como presidente e eu jogador e na altura verificou-se logo a capacidade que ele tinha. A saída dele foi claramente o início do final do projecto, o que fez com que chegasse ao estado em que actualmente se encontra.O concelho tem condições para suportar uma equipa de futebol profissional? Numa lógica cada vez mais profissional, tenho muitas dúvidas de que isso possa acontecer. Tem de haver investimento de meios, de pessoas que possam ter projecto e plano de acção para levar um clube, de forma profissional e sustentada, a uma primeira liga. Para isso, é necessária capacidade financeira e não vejo nenhum clube na região que possa agregar essas condições para um projecto dessa envergadura.Como vê o impacto que teve a saída de Jorge Jesus do Benfica para o Sporting e a prestação que está a ter? Era perfeitamente normal e natural que o ciclo de Jorge Jesus no Benfica terminasse. Esse ciclo deveria ter sido mais curto do que foi…E a entrada de um ribatejano, Rui Vitória, para o comando do Benfica. Trabalhou com ele nos escalões de formação… A entrada do Rui no Benfica é natural. Conheço-o bem, fui eu que, enquanto dirigente da formação do Benfica, o sensibilizei para sair do União e assumir os juniores do Benfica, porque vi alguns jogos do UDV enquanto ele era o treinador e gostei do perfil da equipa. Foram dois anos extremamente interessantes em que estivemos quase a ser campeões contra uma fantástica equipa do Sporting. O Rui cumpriu integralmente com os objectivos e era natural que assumisse outro tipo de projecto, que evoluísse. Auguro-lhe um futuro risonho. Está a lançar jovens como lhe foi pedido. É um treinador de grande qualidade e vai atingir níveis elevados.O que faz neste momento profissionalmente? Depois de sair do Benfica desenvolvi projectos nos Emirados Árabes Unidos, em Espanha, estive quase a fechar um novo projecto na área da gestão desportiva, mas não aconteceu. Colaboro no jornal Record, desenvolvo acções de formação na Singular Ways, mas espero voltar a um projecto no futebol que me permita implementar a minha experiência e conhecimento.PerfilAntónio Carraça nasceu em Vila Franca de Xira há 57 anos. Foi lá que se fez homem no meio das tradições ribatejanas do toureio e da gastronomia, mas foi também lá que despontou para uma carreira no futebol que, primeiro como jogador, o levou a representar o Vilafranquense, Vitória de Guimarães, Vitória de Setúbal, Belenenses e Alverca, entre outros. Ao fim de 15 anos pendurou as chuteiras e foi treinar clubes como Atlético, Elvas e União de Montemor. Enveredou depois pelo dirigismo desportivo e desde presidente do Sindicato de Jogadores de Futebol a membro do painel de especialistas da UEFA até Director-Geral do Futebol Profissional do Benfica, a sua carreira é vasta e ainda não parou. Pai de três filhos e avô de uma neta, aceitou fazer uma viagem pelas memórias que tem da terra que o viu nascer.
“A minha infância e adolescência em Vila Franca foram mágicas”

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