28º Aniversário | 18-11-2015 11:46

“O respeitinho é muito bonito mas a subserviência é muito negativa”

Fale-me da sua vida profissional e da forma como lá chegou? A minha profissão é empregado bancário e ingressei nos quadros de Caixa de Crédito Agrícola, de Samora Correia, onde fiz o meu percurso profissional. Em 1998 fui convidado pelo então presidente da câmara para integrar o projecto autárquico da CDU e concorrer às eleições autárquicas que se realizaram em 1997. Fui eleito, integrei o executivo da Câmara Municipal de Benavente, fazendo depois parte de sucessivas listas, e fui sendo eleito como vereador até 2013, ano em que encabecei a lista da CDU que veio a merecer a confiança por parte da população de Benavente. Fui eleito presidente da câmara, lugar que desempenho agora com muito agrado e com muita dedicação, fazendo o melhor que é possível em prol do desenvolvimento do nosso município e do bem-estar da nossa gente.A família ajuda e é parte importante da estratégia profissional? A minha família é importantíssima neste percurso, nomeadamente agora enquanto presidente de câmara. Mas mesmo como vereador já era assim, os eleitos não têm uma vida com um horário definido e há dedicação praticamente exclusiva e obviamente que a família muitas vezes fica para um segundo plano. Só com grande compreensão e grande capacidade de ajuda é possível manter a harmonia familiar e ao mesmo tempo desempenhar funções que são tão exigentes.Como classifica os recursos humanos disponíveis no mercado? Bom, eu creio que é sabido que temos 40 anos de democracia, mas são 40 anos após um período obscuro da nossa vida política e social, em que muitos não tinham acesso a formação superior e ainda hoje vivemos essas dificuldades. Creio que hoje o país estará melhor preparado, mas que ainda há um caminho importante a prosseguir nomeadamente no que diz respeito a algumas profissões onde se nota a ausência de bons profissionais. Nos últimos anos terão sido descuradas profissões que são importantes. Precisamos, por exemplo, de bons serralheiros, de bons soldadores, de bons pedreiros, entre outros.Está preparado para tudo na sua vida profissional? Preparado para tudo não. Hoje a vida profissional é feita na base de necessidades e é cada vez mais competitiva, onde os direitos dos trabalhadores são postos em causa e onde muitas vezes se exige muito e se dá pouco. Necessariamente, tanto eu como qualquer outra pessoa que tenha brio profissional gostará de desempenhar bem as suas funções. A dignidade no trabalho deve ser algo que não devemos perder de vista na organização da nossa sociedade que, infelizmente, tem caminhado no sentido de desvalorizar essa dignidade. Portanto não podemos dizer que estamos preparados para tudo na vida profissional. O mundo é cada vez mais competitivo, mas não pode valer tudo.Comente a situação actual do país onde vive e da sua região em particular. O país vive ainda uma situação muito difícil e as políticas de austeridade prosseguidas tiveram um efeito social terrível também em consequência do agravamento do desemprego. O desemprego que é necessário perceber e caracterizar convenientemente, é de longa duração e eu direi que isso leva à exclusão social de uma fatia considerável da nossa população. Essa é uma dificuldade muito grande que estamos a viver e com sérios reflexos sociais. A nossa região e o nosso município sentiram esses problemas num momento importante da nossa vida política, e espero que possamos inverter este rumo. Penso que devemos encarar este próximo futuro com confiança, mesmo sabendo que nos esperam ainda muitas dificuldades, que a situação económica, financeira e social do país é muito grave mas eu creio que a esperança se constrói com a disponibilidade de todos e é algo que não podemos perder de vista. Encaro o futuro com optimismo e esperança, a esperança que podemos ter dos empresários, das Mulheres e dos Homens do nosso país.O respeitinho é muito bonito? O respeitinho é muito bonito mas a subserviência é muito negativa. Creio que devemos respeitar todos, mas sem deixar de afirmar a nossa personalidade.A beleza é fundamental? A beleza é fundamental e obviamente que o ser humano valoriza a beleza, enquanto factor estético. Mas acho que também devemos valorizar a beleza interior de cada um de nós, porque é em função de valores que podemos e devemos construir um mundo melhor para todos.O ensino do fandango devia ser obrigatório nas escolas ribatejanas? É importante que as nossas tradições se possam preservar no tempo e o fandango é claramente uma dança, uma expressão cultural que nos caracteriza. Creio que todos devemos fazer um esforço para que efectivamente o fandango possa persistir. Contamos para isso com as nossas associações e os grupos folclóricos muito têm feito para preservar algo que está identificado como nosso e que nos caracteriza muito bem pela força que transmite.Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer? Creio que é uma regra que devemos respeitar. Eu próprio se não cumprir o descanso que é necessário, tenho muita dificuldade em poder desenvolver a actividade no dia-a-dia e creio que é uma regra correcta: deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer e dá também boa disposição. O que tem de fazer um homem para ser um verdadeiro homem? Ter humildade, ser digno de confiança, numa palavra: ter carácter. Quantas vezes muda de canal por noite quando está a ver televisão? Por norma fidelizo-me a um programa quando tenho oportunidade de ver televisão, naturalmente vejo as notícias do país e alguns debates, sejam eles políticos ou sobre qualquer situação social. Obviamente também sou muito dado às questões do desporto, nomeadamente do futebol e do meu Benfica.Quem lhe contava histórias quando era criança? Quem me contava as histórias quando era criança, sempre que possível, era a minha mãe. Fazem falta mais mulheres na política? Creio que os últimos anos foram importantes na actividade que a mulher desenvolve na nossa sociedade e, como em tudo o resto, também na política as mulheres devem ter uma presença forte e activa. Creio que ainda existe um défice e não é com as quotas que o resolvemos. Acho que devemos todos assumir naturalmente que as mulheres têm um papel importante na nossa sociedade ao mesmo nível que os homens.Quais as qualidades que mais aprecia numa pessoa? As qualidades que mais aprecio numa pessoa são aquelas nas quais me revejo, ou seja, a sinceridade e acima de tudo a humildade. A humildade é uma das características que mais valorizo e que procuro também na minha personalidade ter bem presente.Gostaria de viver numa cidade sem semáforos nem sinais de trânsito? Julgo que não. Para vivermos em boa harmonia é necessário estabelecer regras.Qual a promessa que fez a si próprio mais vezes no início de cada ano e que vai continuar a fazer, porque ainda não conseguiu cumpri-la? Às vezes é difícil conseguir concretizar algo que pensamos em Janeiro e achamos que podemos concretizar, mas as regras mudam a meio e já não conseguimos. Existe depois a esperança de poder concretizar no ano seguinte se a vida e o país ficarem mais de feição. Qual o seu maior defeito? O meu maior defeito, que também pode ser considerado uma virtude, é a teimosia aliada a alguma persistência. Como é um dia bem passado? Um dia bem passado é com a minha família em perfeita harmonia, o que muitas vezes não acontece, portanto esse é para mim um dia bem passado.Alguma vez escreveu um poema? Não, nunca escrevi um poema.Há alguma coisa pela qual ainda valha a pena lutar até à morte se necessário for? Creio que sim, que ainda vale a pena lutar por muitas causas, vale a pena lutar por uma sociedade mais justa, sem que isto se possa constituir um “lugar-comum”. Penso que viemos a este mundo exactamente para nos relacionarmos uns com os outros e por vezes não é fácil, dada a personalidade de cada um. Mas creio que vale a pena lutar até onde for necessário para podermos construir uma sociedade onde todos possamos estar melhor e vivermos com harmonia e acima de tudo onde nos possamos entender uns aos outros. Tem alguma superstição? Não tenho nenhuma superstição.O que significa a expressão “gozar a vida”? Gozar a vida poderá muito bem ser estarmos com quem gostamos e estarmos felizes, aproveitando os momentos em harmonia. Realizar muitos dos nossos sonhos será também uma boa forma de gozarmos a vida em pleno.Alguma vez deu sangue? Sim, já dei. Ultimamente não tenho dado mas já dei e normalmente fi-lo nas iniciativas para o efeito promovidas pela Escola Duarte Lopes, em Benavente.Alguma vez pediu o livro de reclamações? Nunca pedi o livro de reclamações. Não que algumas vezes não me tenha sentido insatisfeito com esta ou aquela situação, mas normalmente procuro esclarecer e tratar com as pessoas ou entidades o que acho que está mal ou não esteve correcto ou justo.A justiça é igual para todos? Infelizmente creio que, apesar de termos um bom sistema judicial em Portugal, existem também algumas debilidades que são sentidas e bem sabemos que a nossa justiça não é igual para todos. Porque quem tem mais poder económico tem mais possibilidades de se defender, já para não mencionar que, algumas vezes, a justiça é utilizada de uma forma que não é correcta. Ainda assim, revejo-me no nosso sistema judicial.Qual o seu prato preferido de bacalhau? Gosto particularmente de bacalhau à lagareiro.Subscrevia uma proposta para termos outro hino nacional? Acho que não é propriamente aquilo que deve constituir a nossa preocupação. O nosso hino é algo com que nos identificamos naturalmente, mas não creio que seja matéria relevante.Este mundo está perdido? Não creio que esteja perdido, embora possamos dizer que é um mundo cada vez mais desigual. É um mundo onde persistem valores que não são, seguramente, aqueles que a esmagadora maioria das pessoas defende, onde muitas vezes a ganância e o poder económico se sobrepõem àquilo que deveria ser o interesse da humanidade, para que beneficiem meia dúzia de indivíduos.Tem médico de família? Tenho médico de família que visito poucas vezes, mas que deveria visitar mais.O que gostava de fazer e não faz para não cair no ridículo? Por vezes, em momentos de maior pressão, apetecia-me expandir, mas é necessário manter a postura.O que sente quando vê pessoas a pagar promessas de joelhos em Fátima? Respeito.Sente-se livre? Sim, sinto-me livre, digo o que penso, valorizo as opiniões de outros mas espero igualmente que respeitem as minhas. Sei sempre que a minha liberdade acaba quando começa a liberdade do outro. E é isso que muitos têm que aprender. Quantos verdadeiros amigos acha que tem? Tenho alguns bons amigos verdadeiros, estou certo disso. É verdade que tenho muitos conhecidos, com quem simpatizo, mas amigos verdadeiros é outra coisa. Mas sim, tenho alguns.

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