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Anabela Freitas foi a Israel promover a Sinagoga para a qual a autarquia pouco contribui

Anabela Freitas foi a Israel promover a Sinagoga para a qual a autarquia pouco contribui

Templo judaico de Tomar está aberto devido à boa vontade de uma voluntária

Teresa Vasco toma conta da Sinagoga e não recebe qualquer contributo por dar seguimento à paixão do marido por aquele património. A presidente da câmara foi em viagem a Israel promover o monumento para o qual o município não tem orçamento nem para a limpeza.

Edição de 18.11.2015 | Sociedade
A presidente da Câmara Municipal de Tomar, Anabela Freitas (PS), deslocou-se, em Outubro, a Telavive (Israel) para promover a Sinagoga de Tomar num evento que contou com a presença de representantes de “lugares fortemente marcados pela herança judaica”. A autarca explicou à Agência Lusa que, durante a sua comunicação no congresso, foi mostrado um vídeo promocional de Tomar, “salientando que a Sinagoga da cidade é o segundo monumento mais visitado logo a seguir ao Convento de Cristo, que é Património da Humanidade”, destacou. No entanto, o que Anabela Freitas não referiu durante a sua participação no congresso em Israel é que a Sinagoga de Tomar só está aberta graças à boa vontade da voluntária Teresa Vasco, que decidiu dar continuidade ao trabalho do seu marido, Luís Vasco, falecido há três anos. A câmara paga apenas a água e electricidade.Foram Luís e Teresa Vasco que reabriram a Sinagoga de Tomar ao público, depois de a terem arranjado há cerca de 30 anos. Farto de ver turistas a bater com o nariz na porta do antigo templo, juntou um grupo de vizinhos e conseguiu que o presidente da câmara municipal da altura, Amândio Murta (PS), lhe entregasse umas chaves do edifício. “Isto só tinha as paredes”, recordou em entrevista a O MIRANTE em 2009. A partir daí passou a abrir a porta aos visitantes. Mais tarde, Luís Vasco foi admitido pela autarquia para desempenhar aquelas funções. Mesmo depois de se ter reformado continuou a ser o zelador, guia e director do museu até morrer. Agora é a viúva, Teresa Vasco, 70 anos, quem dá continuidade à paixão do marido. “Ele sempre me disse que um dia que morresse gostava que eu continuasse a tomar conta da Sinagoga e eu faço-o com muito gosto. Esta foi sempre a nossa primeira casa, passávamos mais tempo aqui os dois do que na nossa casa”, explica.Quando o marido morreu, Teresa Vasco foi falar com o presidente do município que lhe disse para continuar na Sinagoga. E Teresa continua, sempre como voluntária. Recebe apenas a reforma de viuvez. “Quero continuar como voluntária e não preciso nada da câmara municipal. Quero continuar a abrir a Sinagoga todos os dias até ter saúde”, afirma. O templo judaico está aberto todos os dias. Recentemente teve uma funcionária da câmara a ajudá-la mas desde Setembro que está novamente sozinha. É Teresa quem faz as visitas aos turistas e dá as explicações. Para as despesas que tem com a Sinagoga, nomeadamente a limpeza, utiliza as doações que os turistas deixam na caixinha colocada na sua mesa.A Sinagoga de Tomar é a mais antiga de Portugal e por ali passam milhares de turistas por ano. Em 2014 foram mais de 37.600 e este ano já ultrapassou esse número. Aparecem muitos grupos de Israel e outros países estrangeiros, nomeadamente Estados Unidos da América. De Portugal também as escolas visitam muito o templo. “No Verão cheguei a ter 400 turistas por dia”, conta. Teresa Vasco tem “medo” que, quando morrer ou ficar incapacitada, a Sinagoga feche portas. “Penso muitas vezes nisso. Gostava que a câmara municipal pusesse aqui uma pessoa a tempo inteiro quando eu não puder, para que a Sinagoga não encerre as portas”, afirma.No orçamento da Câmara de Tomar para o próximo ano estão previstas obras de reabilitação na Sinagoga que vai incluir a colocação de uma infra-estrutura metálica para construir o local dos banhos rituais para purificação. Todas as sinagogas têm o local dos banhos e a de Tomar vai ter quando avançarem as obras prometidas.Sinagoga de Tomar é a mais antiga de PortugalA história do Museu Luso Hebraico Abraão Zacuto, criado por Despacho Governamental em 27/7/1939 e que ali deveria ter sido instalado, ainda está por contar. O site da Câmara de Tomar refere que o museu teve como “primeiro e único director João dos Santos Simões, que acompanhou Garcês Teixeira no estudo do templo”. Por uma questão de justiça deveria mencionar também o nome de Luís Vasco, o homem que, perante a inércia das entidades a quem cabia instalar e zelar pelo museu, chamou a si essa tarefa tendo sido, até à sua morte, para além de director, zelador, guia e promotor.A sinagoga foi mandada construir pelo infante D. Henrique a meio do século XV. Poucos anos depois, em 1496, com a conversão forçada dos judeus ao cristianismo decretada por D. Manuel I, deixou de funcionar como templo. Ao longo dos séculos teve diversas utilizações. Foi cadeia, ermida católica e palheiro. Em 1923 o edifício foi comprado por Samuel Schwarz, um judeu polaco residente em Portugal, que o ofereceu ao Estado em 1939, sob a condição de ali ser instalado um museu luso-hebraico.Feitas as devidas reparações o edifício ficou à disposição da câmara de Tomar em 1943 para ali ser instalado o museu. É bem provável que o primeiro director de que fala o site da autarquia tenha iniciado esse trabalho uma vez que do raro património existente faz parte um conjunto de lápides provenientes de vários locais do país, entre as quais se destacam a lápide funerária proveniente de Faro alusiva ao falecimento de Rab loseph de Tomar, em 1315 e a lápide de 1308, que assinalou a fundação da segunda Sinagoga de Lisboa. Mas no início dos anos oitenta do século passado o Museu estava fechado há muitos anos.A Sinagoga de Tomar é considerada o único templo judaico proto-renascença existente actualmente em Portugal. A sala destinada ao culto é quadrada com piso inferior ao da rua. Está dividida em três naves. O tecto, em abóbada de tijolo de arestas vivas, é suportado por quatro elegantes colunas. Para efeitos acústicos, encontram-se colocadas, embutidas na parede dos cantos, oito bilhas de barro viradas ao contrário, que comunicam com a sala através de orifícios. A porta virada para nascente, em arco quebrado, lanceolado do lado de fora, era a porta principal do templo. A entrada faz-se hoje por uma modesta porta de vão rectangular, voltada para norte.
Anabela Freitas foi a Israel promover a Sinagoga para a qual a autarquia pouco contribui

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