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Foi há 40 anos que as barricadas de Rio Maior dividiram o país ao meio

Foi há 40 anos que as barricadas de Rio Maior dividiram o país ao meio

Milhares de agricultores concentraram-se na então vila para travar a Reforma Agrária e a ameaça comunista

Na fronteira entre as grandes propriedades do Sul e o minifúndio do Norte, Rio Maior foi sendo, desde o ataque às sedes dos partidos de esquerda e até às barricadas de 24 de Novembro, palco de episódios como a queima de jornais ou o da simbólica moca.

Edição de 25.11.2015 | Sociedade
O corte das vias de ligação entre Norte e Sul do país foi o culminar de uma concentração de mais de 50.000 agricultores em Rio Maior, fez 40 anos no dia 24 de Novembro, num plenário instigado pelos avanços da Reforma Agrária.Preso alguns meses antes quando tentava defender a propriedade da família no Alentejo - a Herdade Sousa da Sé, a primeira a ser ocupada pelas Forças Armadas no “Verão Quente” de 1975 -, José Andrade foi um dos agricultores que, na tarde de 24 de Novembro, participou na “grande concentração” de Rio Maior.“Rio Maior foi uma consequência de outras reuniões com muita expressão”, de resistência ao avanço da Reforma Agrária e da ocupação de terras, como a que, a 6 de Novembro, culminou com dois mortos e vários feridos numa das ruas centrais de Santarém, recordou José Andrade, antigo vereador da Câmara de Santarém, em declarações à Lusa.A concentração, que se prolongou até à manhã de 25 de Novembro, com o corte de estradas e linhas férreas (para impedir movimentações militares), teve apoio político, da igreja católica e de muitos “revoltados”, sobretudo “retornados”, que se juntaram aos agricultores, disse José Andrade, que chegou a liderar, no final de 1990, a Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), nascida nesse dia.Acabado de ser eleito secretário-geral da CAP, José Manuel Casqueiro (já falecido) rumou a Lisboa com três outros agricultores e um caderno reivindicativo para negociar com o Conselho da Revolução. “Tínhamos um caderno com 13 pontos e anunciámos aqui que ou era tudo resolvido ou íamos cortar as estradas. Uma das reivindicações era que parassem as ocupações selvagens”, recordou Nazaré Gomes, produtor de Rio Maior que esteve com José Manuel Casqueiro nas negociações com Pezarat Correia e Vasco Lourenço até à madrugada de 25 de Novembro.“Memórias tristes e lamentáveis”Militante do PCP em Rio Maior, João Damiano Ramos ficou parado num dos acessos à vila quando, ao fim do dia 24 de Novembro, regressava com a mulher de uma consulta em Santarém. No rádio ia ouvindo as notícias sobre as movimentações militares das tropas pára-quedistas em Tancos e um aviso de alguém que circulava em sentido contrário - “ali, quem for comunista morre” - fê-lo inverter a marcha.Abasteceu o carro e rumou às Caldas da Rainha. Deixou a mulher em casa de familiares e foi ao quartel relatar ao comandante os episódios de perseguição que os militantes de esquerda sofriam desde o ataque às sedes do PCP e da Frente Socialista Popular em 13 de Julho desse ano em Rio Maior, contou à Lusa.João Narciso Verde da Costa, também militante do PCP, partilha as “memórias tristes e lamentáveis” dessa época, quando Rio Maior “sofre de um retrocesso que a História não pode apagar”, depois de, durante os anos da ditadura do Estado Novo, ter mostrado “firmeza” no apoio à oposição.Ambos asseguram que os motivos invocados para o ataque à sede do partido - a tentativa de tomada do Grémio da Lavoura e a existência de armas - não correspondem à verdade. “As reuniões do partido naquela altura eram para sensibilizar as pessoas para os problemas do país. As forças da direita transformaram isso numa luta”, assegura João Damiano, reforçando João Costa que os “impulsos” decorridos do chamado “Verão Quente” geraram a ideia de que “os comunistas queriam tomar o poder, ser donos disto a qualquer custo”.Na fronteira entre as grandes propriedades do Sul e o minifúndio do Norte, Rio Maior foi sendo, desde o ataque às sedes dos partidos de esquerda e até às barricadas de 24 de Novembro, palco de episódios como a queima de jornais ou o da simbólica moca.“No dia seguinte [ao 13 de Julho] os jornais apelidavam as pessoas de Rio Maior de tudo”, recorda Adelino Bernardes, agricultor, relatando como durante vários dias, no largo junto à câmara, onde na altura passava o trânsito da estrada nacional 1, as carrinhas foram sendo paradas e os jornais queimados, impedindo que passassem para norte.Foi por esses dias que Abílio Cruz, que tinha um torno numa pequena oficina, começou a tornear paus “para as pessoas se defenderem”, dando origem ao símbolo das “barricadas” de Rio Maior, a moca, que hoje é vendida como recordação em casas de artesanato e cafés, relatou Nazaré Gomes à Lusa.
Foi há 40 anos que as barricadas de Rio Maior dividiram o país ao meio

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