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Rio Tejo está doente porque há muita conversa mas pouca acção

Rio Tejo está doente porque há muita conversa mas pouca acção

Conferência defendeu a criação de um movimento nacional pró-navegabilidade

Primeira conferência da navegabilidade no Tejo juntou peritos e entusiastas do rio em Vila Franca de Xira. O rio está doente e apesar de se falar muito na necessidade de salvá-lo faltam decisões políticas nesse sentido.

Edição de 25.11.2015 | Sociedade
O rio Tejo está doente porque há mais conversa do que acção real para o tratar. Criar um movimento nacional em defesa da sua navegabilidade, desenvolver uma associação que promova o potencial turístico do rio e desenvolver um plano “sério e integrado” que defina uma estratégia concreta para salvar o rio e o coloque de novo no topo da agenda política são as principais conclusões da primeira conferência da navegabilidade no Tejo.A concretização destes objectivos é algo “inadiável”, defendeu Carlos Salgado, presidente da Tagus Vivan, associação que, em parceria com o município de Vila Franca de Xira, promoveu na Fábrica das Palavras a primeira de três conferências preparatórias para o terceiro congresso do Tejo, previsto para Outubro de 2016.Carlos Salgado lançou o desafio aos poderes políticos: criar um canal navegável desde a foz à fronteira portuguesa. “Mas admito que uma obra como esta teria custos consideráveis e carece de um estudo sério que permita avaliar a sua relação custo-benefício”, notou, apesar de considerar que “tecnicamente não é impossível”. O responsável lamenta que noutros pontos da Europa a prioridade esteja a ser dada ao transporte fluvial e que em Portugal a opção base passe pela rodovia. E lamentou que muitas zonas do rio estejam fortemente assoreadas, como o troço entre a foz e Valada, entre Vila Nova da Barquinha e Constância e nas zonas das albufeiras de Belver, Fratel e Tejo Internacional.A falta de rampas públicas de acesso ao rio também mereceu críticas dos participantes. Os poucos exemplos positivos estão no concelho de Vila Franca de Xira, na Póvoa de Santa Iria e em Alhandra. “Quem quiser largar um barco na água em Lisboa só pode fazê-lo aqui, a maioria das rampas é privada ou de instituições que não as abrem ao público. Em Alhandra há um excelente exemplo”, lamentou Antero dos Santos, dirigente da Federação Portuguesa de Vela.Além do fundo estar “dramaticamente assoreado”, o rio tem sido vítima de poluição crescente, estrangulamento de caudais por parte de Espanha e tem perdido a um ritmo “alarmante” a fauna e flora das suas marachas, devido à pressão da agricultura e desconhecimento dos próprios agricultores. Também alguma fauna existente, como algumas espécies de peixes, está a desaparecer, alertaram os responsáveis. “A sociedade civil não pode demitir-se deste problema e ao longo dos anos os poderes políticos foram fechando os olhos ao ataque que foi sendo feito aos recursos do rio. É preciso que seja rapidamente posto em prática um plano estratégico sério”, defendeu Carlos Salgado.A directora da Administração Regional Hidrográfica (ARH), Gabriela Moniz, defendeu na sua intervenção que o Tejo é “muito relevante” para a economia nacional e das zonas ribeirinhas e entendeu ser necessário “valorizá-lo”. A técnica chegou mesmo a considerar que o Tejo é hoje “um rio de areia” e que está assoreado “consideravelmente”, sendo necessária uma rápida fixação de margens, limpeza de fundos e actualização da cartografia existente, que data dos anos 60.“Turismo vai ser o petróleo deste país”Carlos Salgado defendeu que o turismo, em particular o turismo de natureza e fluvial, será “o futuro petróleo deste país” e que as regiões ribeirinhas terão de se adaptar e preparar para esse futuro. “Precisamos do rio, há um hangar de oportunidades no Tejo que estão a ser desperdiçadas. É importante avançar já com a constituição de uma associação marítimo-turística do Tejo”, defendeu o responsável da Tagus Vivan.Outra das medidas urgentes é começar a dragar o rio para lhe devolver a navegabilidade. “Assoreamento sempre houve, mas antigamente havia dragagens regulares no Tejo. Hoje há duas coisas que desapareceram: os golfinhos e as dragagens, e isso é que está a fazer a diferença para pior”, lamentou Paulo Andrade, secretário-geral da Marinha do Tejo e presidente da Associação Náutica da Marina do Parque das Nações. “A construção de pontes aniquilou o transporte fluvial”, lamentou.Tudo o que se mete na água está “ilegal”Para Paulo Andrade, secretário-geral da Marinha do Tejo, a legislação sobre as embarcações de recreio e turismo náutico é demasiado punitiva, vasta e carece de revisão urgente. “Só o resumo da legislação tem 416 páginas. Hoje em dia tudo o que se mete na água está ilegal. Isto não ajuda nada a cativar as pessoas para usarem o rio”, criticou.Falar do rio mas chegar de carroOs vários especialistas e convidados falaram da necessidade de voltar a usar o Tejo para transportar mercadorias e pessoas, até como alternativa às auto-estradas. Mas nenhum chegou à nova biblioteca de Vila Franca de Xira de barco, apesar de haver um cais ali a poucos metros de distância. Paulo Andrade, secretário-geral da Marinha do Tejo, foi o único que admitiu publicamente que “pensou ir de barco” a Vila Franca de Xira, mas que por causa do nevoeiro cerrado mudou de ideias. “Há várias conferências onde os políticos se juntam para falar do Tejo e das virtudes da navegabilidade e depois vai toda a gente de carro. Nem tão pouco as margens têm cais ou condições para atracar as embarcações de quem opte por chegar pelo rio. Vila Franca de Xira é um bom exemplo”, lamentou.
Rio Tejo está doente porque há muita conversa mas pouca acção

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