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Bocage fugia para o Ribatejo para não ser preso

Bocage fugia para o Ribatejo para não ser preso

Círculo Cultural Scalabitano convidou Daniel Pires para falar do poeta que nasceu há 250 anos e tem o seu passado ligado ao Ribatejo. O poeta teve uma infância infeliz e morreu prematuramente devido ao sofrimento nas prisões e às injustiças de que foi alvo.

Edição de 24.02.2016 | Sociedade
Manuel Maria Barbosa du Bocage era um poeta que recusava os circuitos palacianos e nunca quis estar ligado ao novo riquismo existente no século XVIII, em Portugal, o que lhe trouxe muitos dissabores. Era habitual Bocage escrever poesia em que criticava os políticos e, por causa disso, era perseguido pela polícia. Nessas alturas tinha que fugir para não ser preso e era para o Ribatejo que vinha muitas vezes, vivendo na clandestinidade para não ser apanhado. Em Santarém tinha o seu amigo e protector José Salinas de Benevides que o ajudava sempre que o poeta se metia em apuros devido ao erotismo e à mordacidade dos seus poemas.No entanto, a ligação de Bocage ao Ribatejo estende-se para lá de Santarém. Uma das muitas amadas do poeta, que nasceu em Setúbal em 1765, Maria Margarida, nos poemas apelidada de Marília, para não ter a identidade desvendada, era filha do cirurgião português Manoel Constâncio, que vivia na Quinta do Valle da Louza, no Sardoal. Bocage era muito amigo de Pedro Manuel Constâncio, irmão de Margarida, e terá sido através dele que o poeta conheceu Margarida, tendo-se perdido de amores.Uma das muitas histórias que se contam é que Bocage ficou várias vezes hospedado na Quinta do Valle da Louza, escondendo-se num sótão da casa do médico cirurgião da Rainha D. Maria I, durante as suas fugas à polícia. Estas foram algumas das histórias partilhadas por Daniel Pires, presidente do Centro de Estudos Bocageanos, convidado da tertúlia promovida pelo Centro Cultural Scalabitano, que decorreu na noite de sexta-feira, 19 de Fevereiro, em Santarém. Daniel Pires explica a O MIRANTE que nas suas investigações sobre a vida de Bocage encontrou referências ao Sardoal e que também já ouviu falar no sótão da Quinta do Valle da Louza onde Bocage terá ficado escondido por várias temporadas.Apesar de não haver provas documentais, também se fala de outra amada de Bocage, Ana Gertrudes Marecos, de Santarém. “Não se conhece a família mas houve um biógrafo de Bocage que relatou que Ana Marecos lhe cedeu um poema que disse ser da autoria de Bocage e que ela era uma das suas muitas amadas”, conta a O MIRANTE no final da tertúlia. Daniel Pires, que se encontra a escrever um livro sobre Bocage, recorda que não existem informações sobre o poeta sadino até aos 20 anos de idade e que este começou a escrever poesia por volta dos 25 anos.“Bocage morreu cedo, aos 40 anos, e toda a sua poesia deu para encher sete volumes com a sua obra. Durante 15 anos escreveu ‘febrilmente’ para deixar tanta obra, sobretudo nos meses finais da sua vida. Entre Fevereiro e Dezembro de 1805, quando percebeu que ia morrer em breve, devido ao seu estado de saúde, escreveu sem parar. Nessa altura houve também um arrependimento dele e tentou fazer as pazes com alguns inimigos que teve durante toda a vida”, explica Daniel Pires.Daniel Pires sublinha que Bocage é autor de poesia erótica de grande valor mas que nunca escreveu poesia pornográfica como lhe é atribuído. “Logo após a morte de Bocage alguns editores quiseram ganhar dinheiro à sua custa e atribuíram alguma poesia pornográfica à autoria do poeta mas a pesquisa prova que isso não é verdade. Quiseram apenas aproveitar-se do nome de Bocage e ganhar dinheiro à sua custa quando já não estava cá para se defender”, garante. A tertúlia decorreu num hotel de Santarém, mobilizou cerca de quatro dezenas de pessoas e incluiu jantar. Dois elementos do grupo Veto Teatro Oficina declamaram poemas de Bocage, vestidos a rigor, durante as pausas do jantar.
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