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Conotação política de Os Águias de Alpiarça leva ao afastamento dos sócios

Conotação política de Os Águias de Alpiarça leva ao afastamento dos sócios

Luísa Gargalo é a primeira mulher a assumir a presidência do maior clube desportivo do concelho

Luísa Gargalo iniciou a sua ligação ao Águias de Alpiarça com 15 anos quando começou a praticar ginástica. Continuou ligada ao clube e chegou a ser treinadora. É técnica de desporto da Câmara de Alpiarça há mais de 30 anos e há cerca de um ano foi convidada para liderar a lista às eleições da maior colectividade do concelho. Diz que esta é a altura ideal para devolver ao clube aquilo que ele lhe deu ao longo da vida. Na semana em que o concelho de Alpiarça comemora o seu 102º aniversário, Luísa Gargalo gostava que o município explorasse melhor o potencial da Barragem dos Patudos. A equipa de triatlo do clube foi distinguida com o Prémio Personalidade do Ano 2013 atribuído por O MIRANTE.

Edição de 30.03.2016 | Entrevista
O que a levou a aceitar este desafio de presidir ao maior clube de Alpiarça? Toda a minha vida estive ligada a este clube. Foi aqui que comecei a praticar desporto, depois fui treinadora de ginástica e até conheci o meu marido através deste clube. Foi por causa da minha actividade desportiva que me licenciei em desporto. Pensei que esta era a forma e a altura ideal para devolver ao clube aquilo que o clube me deu ao longo da minha vida e da minha formação. Por iniciativa própria talvez não avançasse com nenhuma candidatura mas quando surgiu o convite achei que fazia sentido e aceitei.É a primeira mulher presidente do Águias. Sente diferença de tratamento por ser mulher? Não sei avaliar se o tratamento é diferente ou não mas sinto algum carinho na forma como todos me tratam, incluindo os sócios.Uma mulher encara os problemas de maneira diferente? As mulheres têm uma sensibilidade diferente para abordar os problemas e as situações. Na nossa direcção temos quatro mulheres, o que não é muito habitual. Acho que a nossa parceria com os homens que integram a direcção tem corrido bem. A actual direcção do clube é muito jovem, o que é positivo. Sou a mais velha. Os jovens conseguem transmitir alguma tranquilidade e o apoio necessário para levarmos o barco a bom porto.São uma equipa unida? Somos uma direcção muito unida e isso é fundamental para as coisas correrem bem. Conseguimos estar sempre de acordo e isso faz com que o clube respire melhor. É muito importante falarmos todos a mesma linguagem. Estão todos a par de todos os assuntos do clube.Que balanço faz do primeiro ano de actividade na presidência do clube? Começamos a trabalhar em Maio do ano passado e decidimos logo criar algumas dinâmicas. Outras já estavam instituídas. Tivemos que reequilibrar as contas do clube porque entramos num momento difícil. Fomos obrigados a fazer alguns cortes e ajustes para conseguir reequilibrar as contas.Que dinâmicas criadas foram essas? Organizamos festas e iniciativas desportivas com muita regularidade. O objectivo é angariar dinheiro que nos permita equilibrar a tesouraria e apoiar as diversas modalidades. O clube tem um elevado património que exige mensalmente um encargo grande. Temos que pagar ordenados e suportar despesas, o que não é fácil para um clube de um concelho pequeno. Estamos a desenvolver algumas iniciativas para angariar mais sócios.Que tipo de iniciativas estão a desenvolver para angariar novos sócios? Implementamos recentemente o programa a que demos o nome de “Águias+”, que pretende criar parcerias com o comércio e outras entidades para oferecer benefícios aos sócios. Já temos algumas casas que estão a aderir ao nosso programa. Brevemente vamos lançar panfletos com as vantagens que as pessoas podem usufruir pelo facto de serem sócios do clube.Os Águias tem vindo a ser conotado com partidos políticos. Em que medida isso afecta o clube? As pessoas têm que saber separar as águas. Aqui todos devemos ser neutros até porque trabalhamos é para o clube e para os associados. Quem conota os dirigentes com partidos políticos são aqueles que promovem isso. Isso ajuda ao afastamento dos sócios e daí ter havido alguns momentos conturbados no clube. As pessoas têm que saber trabalhar independentemente dos partidos políticos. É o que temos feito.“Aproximar mais os sócios e envolvê-los nas actividades do clube”O que tem sido mais difícil neste primeiro ano de mandato? A minha grande ambição, aquilo que mais gostava, era conseguir aproximar mais os sócios da colectividade e envolvê-los nas actividades do clube.A que se deve esse afastamento? A vida das pessoas mudou muito nas últimas décadas, andam assoberbadas de trabalho, andam todas numa grande correria. Não há tempo para nada, nem para se dedicarem a outras actividades. No entanto, gostava que os sócios se ligassem mais ao clube.Quando chegou à presidência o clube tinha um elevado passivo. Já conseguiu amortizar a dívida? As dívidas eram muitas, cerca de 40 mil euros. Num clube com esta dimensão e envergadura não considero que seja uma dívida muito grande mas temo-la abatido aos poucos todos os meses. No entanto, temos sempre alguma dificuldade de tesouraria.Que tipo de dificuldades? Mensalmente, gastamos cerca de 400 euros em electricidade, 200 euros em água, dois mil euros em vencimentos e não temos quotas de sócios que consigam suportar estes valores. Por isso temos que encontrar outras formas de injectar algum dinheiro no clube. Não podemos estar só à espera do subsídio da câmara municipal. Temos que encontrar alternativas para fazer dinheiro até porque é difícil arranjar patrocínios.Porque é que houve dificuldade em encontrar sócios disponíveis para concorrerem aos órgãos sociais? As pessoas estão muito desligadas do associativismo e estão mais individualistas. Uma colectividade dá trabalho e as pessoas não estão disponíveis. A dimensão deste clube já merecia ter alguém a tempo inteiro só para fazer a gestão. O clube tem dois funcionários mas não são gestores. Se me reformasse amanhã vinha para aqui a tempo inteiro porque adoro este clube. Mas é preciso uma gestão profissional.“Miguel Jourdan é o grande responsável do sucesso do triatlo em Alpiarça”A que se deve a grande aposta do Águias no triatlo? O grande responsável do sucesso deste projecto deve-se sobretudo ao Miguel Jourdan [já falecido], que foi professor de natação nas piscinas e na escola de Alpiarça. Ele conseguiu mobilizar muitos jovens para o triatlo do Águias. Descobriu alguns jovens que tinham potencial. O Miguel Jourdan tinha a capacidade de aglutinar e incutir nos jovens a vontade e paixão pelo triatlo. Ele é o grande obreiro deste projecto de sucesso.Quais são os objectivos do clube para este ano? O principal objectivo é continuarmos a aposta na formação nas várias modalidades. Desejamos que as equipas de futebol vinguem nos seus campeonatos. Continuamos com uma equipa feminina forte no triatlo. A equipa masculina está a ser reconstruída depois de ter ficado desfalcada com a saída de alguns atletas. Estamos a começar a trabalhar novamente em força na formação do triatlo mas temos um problema em Alpiarça, porque a piscina municipal é pequena para treinar esta modalidade.Onde fazem os treinos de natação? Os mais pequenos treinam na piscina em Alpiarça porque para eles é suficiente. Os mais velhos têm que treinar no Complexo Aquático de Santarém, onde pagamos uma mensalidade. Enquanto não houver uma solução em Alpiarça temos que continuar a ir para Santarém. É um esforço que temos que fazer.Treinar na Barragem dos Patudos seria uma solução? No Verão é muito bom treinar em águas abertas uma vez que a maior parte da competição é em águas abertas. No entanto, neste momento também não podemos utilizar a barragem e tivemos que encontrar uma alternativa para os atletas mais velhos. Aproveitamos esta situação para fazer captação de atletas em Santarém.Esta é uma modalidade muito exigente? O facto de se ter que treinar os três segmentos exige do jovem uma grande dedicação à modalidade mas também há um factor imprescindível que é o apoio incondicional das famílias dos atletas. Muitas vezes são as famílias que têm que levar o atleta e o equipamento. Os pais são uma peça fundamental porque se não estiverem predispostos a apoiar os filhos não é fácil. Porque só o clube por si não consegue.“Barragem dos Patudos tem um enorme potencial que deve ser explorado”Alpiarça celebra o seu 102º aniversário no dia 2 de Abril. Que presente gostava que o concelho recebesse? Além de que fosse construída uma piscina maior, adorava que a Barragem dos Patudos voltasse a ter o seu caudal de água puro. É um espaço que tem um potencial enorme para ser explorado e onde se deve apostar no futuro. Toda aquela zona envolvente é muito bonita e tem todo o potencial para atrair milhares de visitantes. Podem criar-se espaços aprazíveis de lazer. Potencial não lhe falta.Alpiarça sempre foi um concelho muito politizado. Porquê? Por toda a sua vivência antes do 25 de Abril, o facto de ter sido aqui uma sede da PIDE [Polícia Internacional e de Defesa do Estado] que acabou por ser um foco de revolta e luta da população. E essa revolta passou de geração em geração.A técnica de desporto que tem um filho campeão de triatloLuísa Gargalo nasceu em Alpiarça há 56 anos. A sua ligação ao Clube “Os Águias” de Alpiarça começou por volta dos seus 15 anos quando começou a praticar ginástica. Permaneceu sempre no clube até que se tornou treinadora e foi lá que conheceu o marido. Técnica de Desporto na Câmara Municipal de Alpiarça, há mais de 30 anos, a sua vida sempre esteve ligada ao desporto. E ainda está.É mãe do atleta de triatlo, Miguel Arraiolos, que tem conquistado vários títulos nacionais e internacionais na modalidade. Confessa que vibra e sofre com as vitórias e derrotas do seu filho, de 27 anos, e lamenta que em Portugal não se dê tanto destaque a outras modalidades que não seja o futebol. “Existem muitos atletas a desenvolver um grande trabalho, que exige um grande esforço de todos, e não se dá o valor que é merecido”, critica. Luísa Gargalo tem ainda outra filha, Nádia Arraiolos, com 24 anos, que é militar.Viveu sempre em Alpiarça excepto dos três aos 14 anos de idade, altura em que foi viver com os pais para Riachos. Dos tempos de juventude recorda os bailes, as festas e as competições desportivas. Continua a fazer exercício físico, embora admita que nos últimos tempos tem andado um bocadinho preguiçosa. Aceitou o desafio para presidir à direcção do “Águias” de Alpiarça, a maior colectividade e a mais representativa do concelho. É a primeira mulher a assumir estas funções.Cerca de um milhar de atletas frequentam o clube que dispõe de várias secções, como atletismo, ciclismo, cicloturismo, mototurismo, futebol, ginástica, vespas (motos), karaté, pesca, triatlo e natação. “O concelho de Alpiarça tem cerca de três mil famílias, logo quase todas as famílias têm pelo menos uma pessoa a frequentar o Águias. É a maior colectividade do concelho e aquela que consegue oferecer à comunidade um vasto conjunto de actividades desportivas”, afirma.Luísa Gargalo explica que foi o ciclismo que deu mais notoriedade ao clube mas que actualmente a colectividade é bastante reconhecida pelo triatlo, que inclui mais de três dezenas de atletas. No entanto, a natação é a modalidade que agrega mais pessoas, apesar de não serem federadas. No futebol, 140 atletas jogam em sete equipas que disputam os campeonatos distritais. Actualmente o clube tem 1427 sócios mas a grande maioria não paga as quotas, o que complica as contas do clube.
Conotação política de Os Águias de Alpiarça leva ao afastamento dos sócios

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