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Arbitragem de saias

Arbitragem de saias

Jovens árbitras contaram a O MIRANTE o que ouvem durante os jogos de futebol

A vida de árbitro de futebol não é fácil. E quando se trata de jovens e do sexo feminino as coisas podem tornar-se mais complicadas. Os piropos machistas são constantes, o respeito dos atletas tende a diminuir e a falta de balneários próprios e de equipamentos adequados são sinais de que o futebol ainda é encarado como um desporto predominantemente masculino. Ana Rita, Carolina, Ana e Inês, quatro jovens do Ribatejo norte, contam o que as faz correr e o que as levou a enveredar por essa actividade.

Edição de 06.04.2016 | Desporto
“És muita boa!”. “Quero o teu facebook”. “Vamos beber um copo?”. “O que eu fazia contigo...”. Estes são alguns dos piropos ouvidos habitualmente por Ana Rita Marques, 16 anos, de Tomar, Carolina Vieira, 17 anos, de Ourém, Ana Pereira, 17 anos, de Ourém, e Inês Marques, 20 anos, de Tomar, todas árbitras de futebol que pertencem ao Núcleo de Árbitros do Ribatejo Norte. As jovens contam a O MIRANTE, depois de uma palestra que deram no Núcleo de Árbitros do Ribatejo Norte, na noite de sexta-feira, 1 de Abril, que decidiram ir para o mundo da arbitragem por influência da família e de amigos. Ana Pereira explica que foi o pai, que também foi arbitro, que a incentivou a entrar nesse mundo ainda marcadamente masculino. “No início não aceitei, mas passado um ano o meu pai lá me convenceu”, explica. Já o pai das irmãs Inês e Ana Rita Marques não aprecia muito o facto de as suas meninas andarem no mundo do futebol, porque já foi dirigente de um clube e acha que estes ambientes não são para mulheres. “Não gosta de estar na bancada e ver as filhas dentro do campo a ouvir certas bocas, é complicado para ele”, explica Inês. A primeira vez que Ana Rita Marques entrou num campo, foi como fiscal de linha, num jogo de juvenis na Chamusca. O pai estava presente e durante todo o jogo “esteve um velhote atrás de mim que ia dizendo: ‘esta árbitra tem um grande rabinho. É muito gira. Não me importava nada de dar umas voltinhas com ela’”. Ana Rita não ligou e não pensou em desistir logo no primeiro jogo. Essas ideias só lhe vêm à cabeça “quando o jogo corre mal”. Já Carolina Vieira diz que ouviu “coisas tão feias” que nem se atreve a reproduzi-las a O MIRANTE. Desmaio em campoAna Pereira tem mais um ano de arbitragem que as colegas, entrou em 2013. Quando ouve algum piropo vindo de um jogador normalmente não perdoa e puxa logo pelo “amarelito”, conta. “O primeiro amarelo que mostrei foi por causa de bocas. O jogador disse-me: ‘deves ter a mania que és boa’”. Se os piropos vierem da bancada não liga até porque não pode fazer nada, nem lhe passa pela cabeça responder. A situação mais caricata que lhe aconteceu foi “ter-se sentido mal e desmaiar durante um jogo em Tomar”. O que valeu é que estava um árbitro na bancada que a substituiu.Também Inês Marques já expulsou um jogador por bocas. “Foi um miúdo de 10 anos que me chamou vaca e fez-me peito enquanto me insultava. Acho que aprendeu uma lição porque passadas duas semanas veio pedir-me desculpa”, conta a jovem a O MIRANTE. O melhor que têm tirado da arbitragem tem sido “a forma física e os momentos de convívio”. O pior tem sido “a falta de balneários femininos”, explica Ana Rita. Normalmente nunca vai uma equipa de arbitragem totalmente feminina e então têm que estar à espera que os árbitros tomem banho para depois poderem ficar à vontade. As jovens também se queixam dos equipamentos fornecidos pela associação. “Normalmente são sempre XXL e como temos o corpo mais fininho, quando nos equipamos parecemos uns balões. Também não gostamos de fazer os relatórios, mas o pior deste mundo do futebol é mesmo ter que acordar cedo”, contam com uma gargalhada.Os namorados de Ana Rita e Carolina também são árbitros. As meninas garantem a O MIRANTE que as conversas entre eles são mais românticas, nunca sobre arbitragem. As discussões também são poucas e nunca terminaram com amostragem de cartões vermelhos.
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