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“O essencial do 25 de Abril foi cumprido porque temos uma democracia”

“O essencial do 25 de Abril foi cumprido porque temos uma democracia”

Pacheco Pereira é o comissário científico da exposição sobre o 25 de Abril

Para Pacheco Pereira, comissário científico da exposição “O Nascimento de Uma Democracia 1974-1976” que está em Coruche até dia 1 de Maio, o principal objectivo do 25 de Abril foi cumprido.

Edição de 20.04.2016 | Sociedade
Como analisa o reclamar de um novo 25 de Abril por parte de alguns cidadãos? Se se considera que o principal objectivo do 25 de Abril era acabar com o regime de ditadura e dar origem a uma democracia, não tem sentido haver um segundo 25 de Abril. Por muito que a gente não goste de muitos aspectos da democracia que temos, existe uma democracia. Se se considerar que havia um programa social, económico, político, inscrito no 25 de Abril, e isso evidentemente remete para uma interpretação e a interpretação não é igual para todos, então nesse caso pode-se dizer que falta um segundo 25 de Abril. Mas é preciso ter cuidado com esse tipo de declarações. O essencial do 25 de Abril foi a democracia e nós temos a democracia. Mas fala-se muito no “regresso aos valores de Abril”? Aquilo que é essencial nos chamados valores de Abril é a democracia. Só quem viveu os 48 anos de ditadura sabe qual é a enorme diferença. Presumo que as pessoas mais novas não têm verdadeira noção dessa diferença. Eu que conheci tudo de mau que havia antes do 25 de Abril (repressão, PIDE, ataque às manifestações, actividade clandestina que era necessária para combater o regime) sei perfeitamente que mudou tudo. Valorizo muito essa mudança. Se se considera que o retorno aos valores de Abril é ter uma preocupação constante para que a democracia não se degrade, estou inteiramente de acordo.O discurso político nos aniversários do 25 de Abril ainda é marcado pela ideia da existência de democratas perfeitos e imperfeitos. Ainda continua a haver portugueses que se reconhecem no 24 de Abril, poucos felizmente. E mesmo entre os que se reconhecem no 25 de Abril, que são a grande maioria, há alguns que colocam o 25 de Abril contra o 25 de Novembro. Ainda permanece alguma herança e é natural que enquanto as pessoas que viveram estes tempos estiverem vivas isso seja um factor de divisão mas com o tempo normaliza-se tudo. Uma democracia implica também a necessidade de alguma moderação.Esta exposição tem estado em muitos lados e o senhor tem testemunhado as reacções de muitos cidadãos. O que mais o tem surpreendido? Há uma história desta exposição que vou contar,…um dos aspectos que mais gosto e me deu com esta exposição foi, uns meses depois da exposição estar pronta, ver uma fotografia dos elementos da Troika a passarem pela exposição, na Assembleia da República, a caminho de uma reunião. A preocupação dos funcionários da Assembleia era fazê-los passar rapidamente, tirá-los dali e a fotografia apanhou os elementos da Troika a olharem de lado para os cartazes. Essa para mim foi das fotografias mais notáveis que vi sobre esta exposição, porque remete para aquilo que ainda é a força do 25 de Abril em Portugal. É essa a parte da exposição que suscita mais curiosidade das pessoas? Sim, o cartaz intitulado “Rostos” suscita sempre grande curiosidade. Para muitas pessoas é o voltar ao seu próprio passado e ao mesmo tempo o reconhecimento da distância que têm em relação aos anos do 25 de Abril.Concerto de Vitorino na noite de 24 de Abril em CorucheUm dos pontos altos das comemorações do 25 de Abril em Coruche é o concerto do músico, compositor e cantor Vitorino, na noite de 24 de Abril, no pátio do Museu Municipal. As comemorações do 42º aniversário da revolução iniciaram-se a 9 de Abril, com a inauguração na Galeria do Mercado Municipal da exposição da Assembleia da República comissariada por Pacheco Pereira, intitulada “O Nascimento de uma Democracia 1974 – 1976”. A exposição pode ser visitada até ao dia 1 de Maio.Presidente da câmara quer cidadãos mais participativosO presidente da Câmara Municipal de Coruche, Francisco Oliveira (PS), quis que os seus munícipes tivessem oportunidade de ver a exposição “O Nascimento de Uma Democracia 1974-1976” sem terem que se deslocar a Lisboa ao Museu da Assembleia da República e considera que aquela é uma excelente forma de celebrar o 42º aniversário do derrube da ditadura. “A exposição mostra o que foi a propaganda política, as arruadas, os movimentos que surgiram, a forma como as pessoas viveram e enfrentaram a nova realidade e como se organizaram para construir a democracia em Portugal. Foi um momento importante da nossa história e é importante que seja sempre relembrado”.O autarca, que tinha 11 anos em 25 de Abril de 1974, diz que na altura percebeu apenas que se tratava de algo muito importante pelas reacções dos pais, família, vizinhos e amigos. “Foram momentos de euforia. As coisas eram vividas com muita intensidade nesse período pós-revolução. Havia muito entusiasmo e vontade de participar”, lembra o autarca que lamenta que nos tempos de hoje os cidadãos tenham uma atitude diferente. “Hoje há pouca participação na política activa e na vida cívica. As pessoas manifestam o seu descontentamento mas não participam na construção de soluções. Penso que isso acontece porque têm uma vida muito ocupada mas é essencial que os cidadãos sejam mais participativos”, defende.
“O essencial do 25 de Abril foi cumprido porque temos uma democracia”

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