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Depressão: mitos e factos

Edição de 05.05.2016 | Especial Saúde

Ana Fialho*

Estima-se que cerca de 350 milhões de pessoas em todo o mundo sofram de depressão. A depressão é uma doença que infelizmente está ainda implicada em vários preconceitos e presunções resultantes de uma percepção desinformada recorrente (até no próprio paciente). A ideia de que a depressão é algo que depende da força de vontade da pessoa ou que é um problema que se resolve por si mesmo mais tarde ou mais cedo se a pessoa assim o desejar, é talvez um dos mitos mais bem consolidados na mente colectiva e que tem uma das suas raízes no facto de usarmos expressões como “sinto-me deprimido” para duas situações distintas que devem ser aqui esclarecidas: por um lado, aquela em que a pessoa sente sintomas passageiros ou temporários associados a “estar deprimido”- por exemplo, depois de um fracasso profissional a pessoa sente-se triste, ansiosa ou desiludida nesse dia, ou nos dias seguintes; por outro lado, aquela em que há de facto uma persistência de sintomas durante longos períodos de tempo que começam, por isso, a afectar a vida da pessoa nos seus mais variados aspectos.
É então importante salientar que “estar ou sentir-se deprimido” não é o mesmo que ser diagnosticado com uma depressão: esta última claro está, carecendo de uma gravidade maior por designar uma doença e não um estado de espírito ou uma variação no humor da pessoa. Para além disto, acrescendo à sobreposição linguística que se refere a dois estados distintos, deve notar-se que a depressão pode apresentar uma variedade larga de sintomas que diferem não só de pessoa para pessoa, mas até de uma altura para outra no mesmo paciente e, ainda, a frequente dificuldade deste último em precisar para si próprio ou para outros a razão exacta do seu mal estar ou aquilo que sente, levando assim a que a depressão se torne num conceito abstracto e difuso, encarado eufemisticamente ou mesmo negado, o que impossibilita aquilo que é de resto um diagnóstico cientificamente tão válido como o de outra especialidade qualquer.
Ter consciência dos limites no que diz respeito ao equilíbrio necessário para a saúde mental de cada um, ou seja, ter capacidade para distinguir aquilo que o perturba temporariamente, daquilo que se tornou num comportamento sistemático é então importante, visto que as consequências de uma depressão não tratada e/ou ignorada têm graves repercussões, sendo a mais grave o suicídio.
Quais são então os sintomas para os quais devemos estar alertados? A depressão tem normalmente manifestações tanto físicas como emocionais: nas primeiras encontramos sintomas tão variados como insónias, fadiga sem causa aparente, aumento ou diminuição do apetite e consequentemente de peso, sensação de peso sobre o peito e automutilação; entre o segundo tipo pode manifestar-se irritabilidade e sensibilidade acentuada em relação a coisas aparentemente insignificantes, fragilidade emocional acompanhada de choro frequente, ansiedade, perda de interesse por actividades anteriormente apreciadas e pensamentos persistentes sobre morte e/ou suicídio.
Anda assim, talvez mais importante do que reconhecer este ou aquele sintoma seja ter presente o facto de que a depressão não tem que surgir necessariamente após um evento ou experiência traumática, mas que pode manifestar-se sem qualquer causa detectável exterior à pessoa.
Aqui reside, de facto, uma das questões que mais conflito traz ao entendimento da doença, muito particularmente quando familiares ou amigos (ou até mesmo o paciente) são incapazes de atribuir a causa de certos comportamentos/sintomas a este ou aquele problema e por isso não o assumem como tal. Torna-se então fácil e comum ouvirmos comentários como: “ Eu já passei por dificuldades bem maiores na minha vida e não estou como ele”; “Se ele está naquela situação é porque com certeza não se esforça o suficiente para avançar ou não tem a força necessária para continuar com a vida e, no fundo, ultrapassar problemas que todos nós temos”.
Este tipo de ideias pré-concebidas sobre a depressão explicitam o equívoco anteriormente mencionado que sobrepõe duas situações francamente distintas ainda que ambas sejam descritas pela expressão “estou deprimido”. Comentários como este, normalmente referindo-se a pessoas deprimidas por longos períodos de tempo, baseiam-se na confusão entre um estado de espírito e um diagnóstico clínico da doença. Na verdade, não é de todo culpa da pessoa aquilo que está a sentir ou a experienciar e não depende da vontade ou força pessoais ultrapassar o problema. O assunto é posto noutros termos quando se demonstra que não é uma questão de ultrapassar, mas sim de tratar. De facto, a depressão tem solução, é tratável e pode ser controlada.
Na verdade, há muito que ainda não se sabe sobre as doenças mentais e sobre as suas causas (possivelmente genética), o que contribui ainda mais para a espécie de nuvem indistinta que aparece quando tentamos imaginar ou precisar exactamente o que é uma depressão, característica que de resto é comum às outras doenças mentais. No entanto, isto não quer dizer que não haja de facto algo no nosso corpo que provoque a doença: é de conhecimento geral o facto de certos químicos e hormonas serem vitais para o bom funcionamento do nosso corpo. Neste caso, talvez as mulheres tenham uma pequena vantagem no que diz respeito ao entendimento das consequências de pequenas alterações hormonais no bem estar de uma pessoa, como é no caso da variação de quantidades de substâncias químicas durante o período menstrual ou durante e após a gravidez. De facto muitas mulheres sofrem da chamada Síndrome pré menstrual (SPM), altura na qual experienciam sintomas quase idênticos aos de uma depressão ou mesmo depressão pós parto, uma das formas da doença.
Repare-se também que a depressão não discrimina faixas etárias, afectando pessoas de todas as idades, origens e diferentes situações de vida: desde crianças a idosos, qualquer pessoa pode sofrer um ou mais episódios durante a sua vida. Um dado muito pertinente é que segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) , a depressão é a segunda causa de morte global em pessoas entre 15 e 29 anos de idade, logo a seguir a acidentes rodoviários, sendo que nos países com rendimentos mais altos cerca de 17,6% dos jovens morrem devido a esta doença. Se juntarmos isto ao facto de 1 em cada 15 pessoas na Europa sofrerem de depressão e quase 4 em15 se forem tidas em conta todas as formas da doença, os números mostram-nos que este não é, por um lado, um problema que esteja necessariamente ligado a circunstâncias exteriores à pessoa, como condições de vida, níveis de rendimento e de sucesso profissional ou pessoal, o que aponta em muitos casos para uma origem intrínseca e inalienável da pessoa e, por outro lado, que não é de forma alguma um problema que deva ser esquecido, ignorado ou encarado com desprezo sedimentado na ideia de força de vontade, disciplina ou capacidade de controlo de cada um. Problemas graves que afectam não só pessoas mas comunidades, por exemplo as toxicodependências (abuso de álcool e drogas), fobias, ataques de pânico, isolamento ou problemas de peso são questões tanto actuais como persistentes: a obesidade e abuso de álcool e drogas por parte de jovens são dos problemas que mais se destacam nas sociedades ocidentais.
Quando convenientemente diagnosticada e reconhecida, a depressão não tem que ser um factor implicador e motivador de infelicidade, tristeza e insucesso na vida pessoal e profissional. Com o tratamento médico adequado, a recuperação do bem-estar e do sentimento de “normalidade” ou da capacidade para enfrentar os desafios do dia a dia no emprego ou com a família é possível. O primeiro passo é provavelmente o mais difícil por todas as razões acima mencionadas, quer sejam preconceitos daqueles que rodeiam o paciente, quer seja a própria natureza da doença que alimenta pensamentos negativos de culpa, fragilidade, impossibilidade de ver saídas ou soluções para os problemas, e por isso é tão importante pedir ajuda não só a alguém próximo que possa entender a situação, mas também e ainda mais importante a um médico que avaliará caso a caso, com os seus sintomas e particularidades inerentes, adequando a medicação e tipos de tratamento.
Alguém com um osso partido não esperaria sentado que ele voltasse ao lugar, mas dirigir-se-ia ao hospital para o porem no lugar sem pensar duas vezes, porquê então uma abordagem diferente à partida em relação à depressão? Este é na verdade um salto que damos quase instintivamente, convencendo-nos que um osso partido nada tem que ver com algo como a depressão, mas, na verdade, ambos são problemas médicos que requerem tempo e cuidados profissionais para que a saúde seja restituída ao paciente. Não há efectivamente diferença nenhuma para além da nossa própria resistência em acreditar ou, por outras palavras, reconhecer, a depressão como uma doença e não um estado de espírito.
Qualquer pessoa que tenha sido tratada por depressão testemunhará quanto à dor real (ainda que nem sempre física) e sofrimento inerentes à mesma. O desespero de alguém que vê a sua vida destruída por algo que muitas vezes não se anuncia claramente mas que vai moendo e fragilizando (quer seja decorrente de uma experiência traumática, quer não tenha razão aparente) não tem que ser uma sentença que a encurrala dentro de si própria e do seu sofrimento, ainda que assim pareça. Há uma segunda opção, um segundo caminho para lá daquilo que a leva a encarar a própria vida de uma maneira que nunca faria antes, quase distorcendo e manipulando imagens e palavras que estão dentro de si. É incrível a maneira como se altera a percepção de nós próprios, do outro e do mundo, durante e depois da depressão, e essa mudança está dependente apenas de uma coisa: tratamento adequado. A luta não é do doente por muito que o sentimento de culpa e impotência se infiltre no pensamento emprestando-lhe a sensação de sufoco. Força é precisa apenas a suficiente para distinguir a possibilidade de ajuda no meio do caos existente. A depressão não é uma escolha, mas é nossa escolha pormos os preconceitos e pudores de lado em prol do nosso próprio bem estar ou daqueles à nossa volta. Apesar da percepção generalizada e tantas vezes do próprio doente ser diferente, decidir procurar tratamento é na verdade tão fácil como é difícil viver em sofrimento desnecessário.
* Licenciada em literatura
moderna e escritora

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