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“Tenho o culto da exigência e espero sempre o melhor dos que me rodeiam”

“Tenho o culto da exigência e espero sempre o melhor dos que me rodeiam”

Fernando Rosa, 54 anos, presidente do Centro de Apoio Social do Bom Sucesso e Arcena (CASBA). Nasceu no concelho de Mértola mas vive em Alverca desde os sete anos. Confessa nunca ter sido um bom aluno na escola e começou a trabalhar aos 12 anos para ajudar a família. O associativismo é uma das suas paixões. Diz que Alverca é ingrata para com Luís Filipe Vieira, com quem privou na direcção do Futebol Clube de Alverca. É uma pessoa exigente que espera sempre o melhor dos que o rodeiam. É um consumidor diário de jornais em papel e diz que as associações não devem passar a vida agarradas aos subsídios.

Edição de 25.05.2016 | Três Dimensões

Já tive uma maior paixão pelo meio urbano. Hoje em dia cativa-me menos. Vivo no centro de Alverca mas tenho um grande carinho por esta zona norte da freguesia, Bom Sucesso e Arcena, é aqui que estão as instalações do CASBA e também famílias com quem convivo. Nasci em Mértola mas vim para Alverca aos sete anos quando o meu pai veio para a fábrica dos nitratos (actual ADP) à procura de outra oportunidade de vida. Este concelho nos anos 70 e 80 teve um impulso muito grande na indústria. Às vezes penso em regressar à calma do Alentejo.
Nunca fui grande estudante e comecei cedo a ajudar a família. Com 12 anos fui trabalhar numa drogaria no centro de Alverca, junto à praça de táxis, que ainda existe. Foi a minha primeira experiência de vida. A minha infância foi de rua, não tínhamos os meios que os jovens hoje têm ao dispor, sobretudo no que toca à tecnologia. As minhas brincadeiras eram jogar à bola. Naquele tempo havia mais sossego, a vida era mais calma, tinhamos todos mais confiança e todos se conheciam. Os jovens hoje nasceram noutra geração. Os meios tecnológicos vieram dificultar a relação entre eles. Sentimos isso aqui com jovens de 14 e 15 anos, que entram e saem com os aparelhos nas mãos e parece que nem convivem uns com os outros.
As causas locais sempre me despertaram curiosidade e interesse. Sou bastante crítico no que toca ao associativismo, acredito sempre que se pode fazer mais, não podemos só falar. Gosto muito de me colocar à prova. Sou dirigente não remunerado mas sou funcionário do CASBA, sou director de serviços. O associativismo de há 20 anos não é o mesmo de hoje. O mundo mudou, há maior responsabilidade e menos tempo para as pessoas dedicarem às associações. Temos de estar disponíveis para a comunidade onde estamos inseridos. Mas o voluntariado continua a ser necessário porque não pode ser sempre o poder central e o poder local a resolver todos os problemas da comunidade. Esta é uma partilha de conhecimento e vontade. Por dia dedico à associação uma média de dez horas. Não sou capaz de passar a vida a olhar para a televisão.
Sou um consumidor diário de jornais em papel. Também tenho uma paixão pelo desporto, essencialmente pelo futebol. Sou do Sporting e cheguei a passar pelos órgãos sociais do Futebol Clube de Alverca. Fiz parte da direcção do FCA quando o Luís Filipe Vieira era presidente. Já lá estava quando ele chegou, saiu para o Benfica e fiquei mais três anos. Há uma grande ingratidão da cidade para com o Luís Filipe Vieira e convivo mal com isso. Ele sempre quis o melhor para o Alverca. Não partilho de alguma opinião que se diz na cidade em relação à sua pessoa. Não mantenho uma relação de proximidade com ele mas tenho uma grande consideração pela dinâmica que incutiu no clube e os investimentos que fez. Foram importantes para o Alverca e a terra. Podemos não concordar com alguma situação, mas temos que perceber o que era o FCA antes dele chegar e o património que hoje o FCA hoje tem, independentemente de todas as situações que possam ter acontecido.
Tenho dificuldade em desligar do trabalho. Tenho o culto da exigência. Procuro sempre a perfeição e venho a esta casa todos os fins-de-semana. Às vezes quero exigir aos outros o que acho que é razoável. Não atingir determinados objectivos para mim é inconcebível. Se tudo neste país tivesse esse culto da exigência seríamos um país muito melhor. Devíamos ser mais exigentes e organizados. Mas isso exige determinados valores, regras e princípios que as pessoas não querem ter. Continuamos a premiar no país os mais desorganizados. Premeia-se quase sempre, por exemplo na área social, a desorganização, o não fazer bem, o deixa andar. É com isso é que não posso. Que o CASBA e outros melhores que nós não sejam por vezes premiados em desfavor de outras associações que lhes reconheço que são desorganizados. O coitadinho ganha e isso está mal.
Não me sinto velho mas quero ter tempo para acabar alguns projectos. Como o novo projecto que vamos abraçar e que vai ser importante para a comunidade. Será um investimento na casa dos 2 milhões de euros. É a construção de um centro de dia com centro de noite e clínica de saúde, no Bom Sucesso. Em princípio será todo feito sem recurso a fundos comunitários e apenas com meios próprios da associação. Isso reflecte a situação financeira do CASBA. Vamos investir mas sem nunca colocar em causa a nossa história, a estabilidade e o quadro de funcionários, gente que dá o melhor por esta casa. Não é uma ambição desmedida, não há deslumbramento, estamos a pensar no futuro do CASBA. Empregamos 60 pessoas e o CASBA tem hoje nos seniores 50 utentes, cantina social que serve 90 refeições diárias à comunidade, um banco alimentar para 50 pessoas e 330 crianças em permanência nas nossas instalações.
Não podemos ficar eternamente agarrados ao subsídio. Temos de ir à procura de receitas próprias de sustentação. Gerir com dinheiro que há-de vir ou está a escassear é perigoso. E o Estado por si vai ter de tomar opções e decisões no futuro, por isso vejo com alguma apreensão com o que possa acontecer em breve. A experiência da vida ensinou-me a ser verdadeiro e honesto com as pessoas. Mas agradar a todos não é fácil. As pessoas prezam muito a estabilidade. Não prometemos aquilo que não podemos dar. O que prometemos cumprimos. Cumprir a palavra dada para mim é sagrado.

“Tenho o culto da exigência e espero sempre o melhor dos que me rodeiam”

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