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Sequestro libertador

Vivemos num mundo em que tudo parece estar bem mas que pequenos episódios quotidianos nos trazem uma realidade patologicamente preocupante.

Edição de 02.11.2016 | Opinião

Quando uma Opinião à quinta-feira é publicada em O MIRANTE é conveniente que, pelo menos, a “inspiração” de outro tema já ande pela cabeça. Há semanas de fartura e alguns escritos potencialmente oportunos e interessantes até se perdem e outras em que o tema falta.
Há pouco no refeitório do edifício da universidade onde trabalho ouvi parte de uma história no mínimo curiosa. Esta juventude, às vezes, deixa-me perplexo. Apesar de não ser nada interessado em conversas alheias era uma hora calma e a proximidade das mesas tornou a coisa incontornável. O diálogo ocorreu entre uma rapariga, talvez com uns trinta anos, e uma outra, provavelmente uns anos mais velha, que parecia ter o papel de boa conselheira. O que me “ligou” à conversa foi claramente a expressão dita pela mais jovem em tom bastante alto e convicto: “foi o sequestro que me libertou”. Um amor impossível (?) terá levado essa rapariga a um episódio rocambolesco, aparentemente questionável, mas claramente apontado como salvador. Pelo que ouvi, essa rapariga mais jovem foi fechada num quarto para evitar males maiores com o tal amor.
Provavelmente um escritor na minha cadeira estaria agora mesmo muito agradecido aos deuses por um excelente argumento para uma magnífica história. Por aqui uma pergunta me chega: o que pode levar uma jovem a aceitar uma situação destas como normal e até mesmo salvadora?
No meu contacto de há anos com a faixa etária universitária tenho, na generalidade, uma opinião positiva dos nossos jovens. Não são melhores nem piores que o resto. Todavia há frequentes episódios e atitudes que me deixam profundamente dececionado e preocupado. É que esta gente que frequenta estes corredores são uma minoria privilegiada que rapidamente vai chegar ao poder, seja ele qual for. Olhando para aqui sabemos, sem erro, qual vai ser o futuro. Sabemos quem vai dirigir o país ou uma empresa. Como resultado de algumas conversas com os meus alunos ao longo dos anos tenho a convicção que eles não têm noção do privilégio em estarem aqui e muito menos da sua responsabilidade. Donde virá a riqueza do país se não for dos recursos humanos qualificados, é a pergunta que muitas vezes lhes deixo.
A esta rapariga obviamente nada disse mas apeteceu-me perguntar-lhe se vale a pena viver num mundo onde tudo vale? Será que os meios justificam sempre o fim? Como é possível alguém aceitar ficar fechada num quarto sem hipótese de poder decidir? Sobretudo considerando que estamos perante uma pessoa que terá formação e normalmente cultura acima da média. Vivemos num mundo em que tudo parece estar bem mas que pequenos episódios quotidianos nos trazem uma realidade patologicamente preocupante.
Carlos Cupeto
Universidade de Évora

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