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A felicidade também se encontra nas pedras da calçada
Cintia Melo

A felicidade também se encontra nas pedras da calçada

Cintia Melo tem 51 anos e é calceteira em Vila Franca de Xira. Cintia Melo tem orgulho no trabalho que faz todos os dias ao serviço da Câmara de Vila Franca de Xira e fica triste sempre que ouve alguém defender o fim da calçada portuguesa, um dos patrimónios mais identitários do país e da região. É uma mulher respeitada num mundo habitualmente dominado pelos homens.

Edição de 17.11.2016 | Aniversário

O mundo precisa de mais mulheres simples, que não estejam só preocupadas com a imagem e as etiquetas. Quem o diz é Cintia da Conceição Matos de Melo, 51 anos, calceteira da Câmara de Vila Franca de Xira.
Esta é a história de uma mulher simples e sem vergonhas daquilo que os outros que a rodeiam possam pensar. Não só escolheu abraçar uma profissão praticamente em vias de extinção como é uma mulher numa área de trabalho masculina.
Cintia Melo não tem as unhas arranjadas nem a cara tratada com cosméticos topo de gama porque o seu trabalho não é num escritório mas sim a mexer com pedra, terra e cimento, fazendo e mantendo as calçadas onde toda a gente caminha. Faça chuva ou faça sol. É um trabalho duro mas gratificante, assegura. Não há passeio no concelho vilafranquense que não tenha tido a mão de Cintia. E isso orgulha-a, porque ao contrário do que se possa pensar é uma tarefa que envolve criatividade, engenho, paixão e alma.
A calceteira é uma pessoa discreta, de sorriso honesto e fácil. Nasceu em Moçambique mas quando a guerra começou a intensificar-se a mãe enviou-a para casa de uns tios em Portugal, na zona de Cascais, quando tinha 10 anos. Com o fim da guerra a mãe também regressou a Portugal e foi-lhe atribuída uma casa em Vialonga, para onde Cintia se mudou posteriormente para nunca mais de lá sair.
Sempre estudou e nunca havia trabalhado, até que no final dos anos 80 surgiu uma oportunidade para fazer um curso de calceteiro na Câmara de Lisboa, juntamente com outras cinco mulheres. “Fui por brincadeira, só para ver no que dava mas acabei por me apaixonar por esta arte, adoro desenhar e construir. Tudo neste trabalho me fascina. Entretanto desistiram todas e só resto eu”, refere.
Naquele tempo, tal como hoje, trabalho é coisa que não falta para os calceteiros. O problema é que ninguém quer sujar as mãos naquela tarefa. “As empresas iam à câmara procurar calceteiros e nós lá íamos. Fui trabalhar para uma empresa em São Pedro de Sintra chamada CME mas quando faliu tivemos de ir para o desemprego”, lamenta. Foi um período negro na vida desta mulher: o marido morreu com um enfarte e Cintia viu-se num emprego precário com cinco filhos para criar.
Um dia desabafou com uma conhecida de Vialonga que conhecia a anterior presidente da câmara, Maria da Luz Rosinha, e foi esta que a convidou para trabalhar no município. “Eu estava numa situação muito difícil, sem marido e a sair de casa às 06h00 e a regressar às 20h00. Não conseguia estar com os meus filhos e a anterior presidente deu-me essa oportunidade. Nunca me esqueci dela. Já cá estou há 18 anos e gosto muito do que faço”, conta a O MIRANTE.

“As escolas não se preocupam em ensinar esta profissão”
Actualmente é a única calceteira que existe no município. Quando está de férias ou falta ao serviço não há ninguém para a substituir. E há sempre solicitações a chegar das juntas de freguesia para que sejam reparadas calçadas.
“Durante dois anos nem servente tinha. Era eu que fazia tudo mas agora já tenho um ajudante e o trabalho anda mais depressa. Tenho pena de não ter jovens aqui a quem ensinar o ofício”, desabafa.
Quando começou a trabalhar os homens torciam o nariz por ter de lidar directamente com uma mulher mas ao longo do tempo esse sentimento foi desaparecendo. Hoje, garante Cintia Melo, já recebem as suas ordens com naturalidade.
“É muito mau tentar acabar com a calçada portuguesa, isto é uma coisa histórica, faz parte da nossa identidade. Cada vez se usam mais lajetas ou outros materiais, tudo pela lei do mais fácil e isso é muito triste. Há trabalhos lindos de calçada portuguesa”, lembra. “Gostava de ver os netos ou um dos filhos a seguir a profissão”, acrescenta.
Aos fins-de-semana é quando se arranja melhor, arruma a casa e cuida dos filhos. Durante a semana também cuida dos netos”, dois, com mais um a chegar. Tem imensos sonhos mas os principais é ser feliz e que a vida corra bem. Diz que as mulheres hoje em dia estão no mesmo patamar dos homens e que não há quase nada que os distinga. “Só mesmo a força para se ter de executar alguns trabalhos”, nota.
Afirma que as mulheres são mais arrumadinhas e certinhas nos trabalhos que desenvolvem e mais perfeccionistas. Depois reflecte sobre a vida. “Sou calceteira e sou feliz o ano todo, junto das pessoas que adoro e do trabalho que faço”, conclui Cintia Melo, antes de voltar a pegar no carrinho de mão que tem o seu material de trabalho: martelo, maço, pá, vassoura, picareta, regador, água, cimento e, claro, pedra.

A felicidade também se encontra nas pedras da calçada

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