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A generala dos tachos que não suporta ver campinos mal fardados em dias de festa
Délia Café

A generala dos tachos que não suporta ver campinos mal fardados em dias de festa

Délia Café trabalha na Junta de Freguesia de Benavente e é cozinheira por paixão. “Cozinhar é o mais privado e arriscado acto. No alimento coloca-se ternura ou ódio. Na panela verte-se tempero ou veneno. Cozinhar não é um serviço, é um modo de amar os outros”. A frase, escrita pelo escritor moçambicano Mia Couto, inspirou-se em mulheres como Délia Café, “generala” da cozinha na festa da Picaria, em Benavente.

Edição de 17.11.2016 | Aniversário

É considerada a “generala” da cozinha no almoço anual da Picaria nas festas de Benavente, sua terra natal. Chama-se Délia Café e cresceu na freguesia de Barrosa, onde hoje mora com o rapaz que conheceu aos 14 anos. Um campino, claro. É apaixonada pela festa brava e por tudo o que diz respeito ao trabalho dos campinos. Considera-se perfeccionista e diz-se “refilona” por ter o coração ao pé da boca mas tem também um lado tímido, ligado à sua maior virtude: a generosidade.
Não recebe um cêntimo para organizar o almoço para 400 pessoas, que acontece no sábado da festa da Picaria, que coincide com a Festa da Sardinha Assada. Há 27 anos que ajuda e há seis que é a comandante dos tachos. Entre os campinos, a palavra de Délia é lei. Deixou de montar a cavalo, porque acha que ficou “forte” depois de ter tido a sua segunda filha. “Acho que não ficaria elegante em cima do cavalo”, desabafa.
Délia Café, quarta classe em criança, nono ano terminado já mulher e mãe, é inteligente, atenta, de opinião própria e garra ribatejana. É a mulher que todos querem ter como amiga e com quem ninguém deseja falhar. Não tem papas na língua: “Se vejo um campino mal fardado no desfile, refilo logo. Aliás, não admito isso”, sublinha, feroz e doce. Tudo isto é possível nesta mulher que se diz aventureira e sonha viajar – adorava conhecer o Brasil. Só conheço Espanha”, lamenta. Ir viver para outro lado está fora de questão. “Não iria aguentar as saudades dos toiros e dos cavalos”, diz.
Délia não é cozinheira de profissão – trabalhou numa fábrica e agora é auxiliar na Junta de Freguesdia de Benavente. Mas é cozinheira de coração. Deu os primeiros passos na arte de transformar os alimentos em iguarias na Casa Agrícola Fernando Palha, onde o marido trabalhou. “Faziam-se muitas festas, almoços e jantares e a cozinheira, a D. Florinda, ensinou-me muito. Foi lá, na Quinta da Foz, que aprendeu a fazer a famosa Sopa da Foz: “É quase igual à Sopa da Pedra, mas junta-se couve lombarda”, revela.
Preparam 70 kg de carne e descascam 200 kg de batata para a festa
Para alimentar as 400 pessoas que almoçam no sábado da festa da Picaria em Benavente, Délia junta “uma meia dúzia” de ajudantes e começa na quinta-feira a organizar e a definir tarefas. Às onze e meia de sábado o almoço tem de estar pronto. A ementa é fixa – e deliciosa – “É sempre Jardineira e Sopa de Peixe. O que equivale a preparar 70 quilos de carne de vaca, descascar 200 quilos de batata, cortar outros 30 de feijão verde, entre outros vegetais que fazem parte da receita”, explica.
Na cozinha, é sempre “uma barulheira”, com a alegria a comandar. “Vamos trabalhando e contando anedotas. As mulheres mais velhas “picam” as mais novas. “Contam histórias dos maridos e coisas assim”, revela Délia de riso solto.
Cozinhar é algo que faz sempre com prazer. “Todos os fins-de-semana tenho a casa cheia de gente. Gostam muito da minha feijoada e do galo com grão que eu faço”, conta. Também é sempre convidada para ajudar na festa de Vila Franca de Xira: “Faço o jantar do dia da corrida nocturna e os pequenos-almoços de quatro dias”, explica. E muitas vezes é ela quem oferece, da sua quinta, a carne para as refeições. Não ganha um cêntimo, recordamos. “Cozinho por amor à festa brava”, diz, com convicção.
Délia Café mora com o marido e as duas filhas em Barrosa, numa quinta onde não faltam porcos, galinhas ou patos. “Nesta altura tenho ainda dois bezerros que tenho de alimentar a biberão”, revela. Para isso, acorda todos os dias às seis da manhã. Trata dos animais, prepara o franel do marido. “Sou muito feliz com a vida que tenho”.
Conheceu o marido, Mário Café quando tinha 14 anos. “Eu dançava no rancho, ele ofereceu-me uma rosa. Foi amor à primeira vista”. Apesar de, na dança, Mário Café ser “pé-de-chumbo”, é considerado um dos melhores campinos do Ribatejo. Trabalha actualmente na ganadaria do recentemente falecido David Ribeiro Telles e é o orgulho de Délia: “Sou mais vaidosa com ele do que comigo”, admite.
Também é ciumenta. “Na festa de Azambuja, vi uma rapariga montada com ele no cavalo e fui logo direita a ela e desmontei-a”, conta. Mário Café que assiste à conversa, limita-se a rir porque conhece bem a mulher. Ela resume a receita para um bom casamento. “O sucesso de uma relação é o respeito e nós respeitamos muito o espaço um do outro”, remata.

A generala dos tachos que não suporta ver campinos mal fardados em dias de festa

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