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Aos doze anos já conduzia, na tropa tirou carta de pesados e é motorista da Rodoviária
Olga Henriques

Aos doze anos já conduzia, na tropa tirou carta de pesados e é motorista da Rodoviária

Olga Henriques, 41 anos, tem a felicidade de fazer aquilo que sempre adorou fazer. Há onze anos quando começou a conduzir os autocarros da Rodoviária do Tejo alguns passageiros olhavam para ela com estranheza porque não sabiam que aquela mulher quando esteve na tropa já guiava veículos com o triplo do tamanho. Agora, graças ao seu profissionalismo e simpatia, tem dezenas de amigos em todas as paragens.

Edição de 17.11.2016 | Aniversário

Olga Henriques, motorista de autocarro, é uma segunda mãe para as crianças que transporta na carreira da Rodoviária do Tejo, entre Entroncamento e Cafuz, o último lugar do concelho de Vila Nova da Barquinha. O filho de 12 anos é um dos que apanha o autocarro para ir para a escola. A motorista diz que a alegria que sente e a simpatia que tenta transmitir são antídoto para os males da vida, como a perda do marido, vítima de cancro, há cinco anos.
Com 41 anos, nascida no Entroncamento, e com uma infância passada em Limeiras, Barquinha, Olga Henriques foi militar durante dez anos na Escola Prática de Engenharia, em Tancos, onde tirou a carta de condução de pesados de passageiros. Foi a primeira mulher condutora nesta unidade do exército, tendo exercido as funções de condutora do comandante e feito muitos quilómetros ao volante de viaturas pesadas, algumas com dimensões superiores às que circulam nas estradas portuguesas. Chegou a conduzir viaturas pesadas com perto de 25 metros de comprimento.
Já com vinte anos de carta de pesados, nunca teve um acidente e diz que não se vê a fazer outra coisa que não seja conduzir autocarros. Entrou para a Rodoviária do Tejo em 2005 e na altura ainda havia passageiros que estranhavam ver uma mulher ao volante. A pouco e pouco soube conquistar a simpatia e o respeito de todos e tem sempre uma palavra para os passageiros que conhece melhor. Aos estudantes nunca se esquece de perguntar como correram as aulas.
Olga Henriques é também uma confidente e uma conselheira. Sabe compreender quem com ela desabafa, sabe guardar um segredo e encontra sempre uma palavra de incentivo para cada um. “Às vezes até há jovens que me pedem sugestões sobre a melhor forma de chegarem ao coração de quem gostam. De certa forma são todos “meus meninos” com as devidas distâncias porque eles também têm os seus pais. Gosto deles mas quando é preciso também lhes faço reparos”, refere.
Casou aos 25 anos e foi mãe aos 29. Há cinco anos o marido morreu de cancro. “Foi um grande abalo”, desabafa, recordando que não foi fácil ver-se de repente sozinha com um filho e com horários de trabalho para cumprir. A Rodoviária do Tejo foi sensível à sua situação e ajustou-lhe os horários. A motorista é vista na empresa como uma mulher combativa e que está sempre disponível para ajudar. Por vezes oferece-se para fazer outros serviços.
Confessa que a boa disposição que mostra não é forçada. A perda que teve foi difícil mas diz que perante as dificuldades as pessoas arranjam sempre forças e vão buscá-las “onde nem imaginavam que existiam”.
Olga Henriques teve uma infância feliz e que foi nessa altura que ganhou o gosto pelos carros e pela condução. O pai era mecânico e desde cedo se habituou a ver carros, realçando que está preparada para conduzir tudo o que tenha rodas. Por vezes sente saudades da tropa, onde diz que aprendeu muito em termos de disciplina, organização e cumprimento de horários, ensinamentos que lhe têm sido muito úteis. Olhando para o percurso militar, diz que foi muito feliz naquela altura mas que nem sempre tinha a noção disso.
Na aldeia onde viveu era a única rapariga que tinha carta de mota e por isso era muito solicitada pelas outras raparigas para as levar aos locais onde tinham combinado encontrar-se com os namorados. A motorista que em criança não gostava de Barbies e que aos 12 anos já conduzia o carro da mãe sente que nasceu para fazer aquilo que faz e é aquilo que quer fazer até ao fim da vida.

Aos doze anos já conduzia, na tropa tirou carta de pesados e é motorista da Rodoviária

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