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Dar alegria aos outros para conseguir vencer as tempestades da vida
Tina Jofre

Dar alegria aos outros para conseguir vencer as tempestades da vida

Tina Jofre - artista multifacetada de uma vila poema chamada Constância. Maria Cesaltina Ferreira, ou Tina Jofre o seu nome artístico, é uma personalidade bem conhecida em Constância pela sua ligação à música, à cultura e à vida associativa. Uma mulher com uma vida rica e multifacetada que enfrentou a viuvez compondo e cantando a sua tristeza.

Edição de 17.11.2016 | Aniversário

O dia 21 de Abril de 1999 fica marcado para sempre na vida de Maria Cesaltina Gomes Pereira Dias Ferreira. A nefasta notícia de que o seu marido, Rui Jofre, tinha morrido na sequência de um acidente com o helicóptero que pilotava no norte do país fez o seu mundo despenhar-se. Aos 51 anos perdia o companheiro de uma vida, o piloto que se perdera de amores por ela quando, ainda um jovem oficial da Base Aérea de Tancos, vira a jovem Cesaltina cantar e tocar acordeão na festa de Limeiras (Vila Nova da Barquinha). O homem que construiu o “castelo” dos seus sonhos para a sua “princesa” na Quinta da Capareira, à saída de Constância em direcção a Abrantes.
“O dia mais negro” da sua vida deixou-a de rastos, tal como às filhas do casal, Elsa e Sara. Ruía pelos sortilégios do acaso, pela força bruta de um vendaval, uma história de amor que Cesaltina viveu durante mais de 30 anos e que está bem documentada pelas fotografias e outros objectos espalhados pelo amplo salão da casa que agora habita sozinha. “Não consigo sequer pensar noutra companhia. Era uma pessoa excepcional, um homem insubstituível”, diz com emoção.
Foi à música que Cesaltina, mais conhecida no meio artístico como Tina Jofre, se agarrou para tentar superar a dor e enfrentar a viuvez. “Não sou mulher de desistir. Comecei a compor e a cantar a minha tristeza”. Tem várias letras dedicadas ao marido. Alguns amigos ajudaram-na também nesses tempos difíceis convidando-a a integrar o grupo de música popular Barquinha Saudosa, que este ano foi registado como associação e onde é figura de proa. “Hoje reconheço que foi a minha salvação. Nunca esquecerei esse acto de amizade”, diz.
Tina Jofre já actuou em Itália, Suíça, França, Brasil, São Tomé. Compõe, toca e canta. Tem carteira profissional, está filiada no Sindicato dos Músicos e registada como cantautora na Sociedade Portuguesa de Autores. Participa em muitos espectáculos solidários sem cobrar cachê. “Sempre que me pedem eu vou. Se Deus me deu voz foi para cantar”. E a sua veia artística não se esgota na música. A pintura, seja em tela, azulejo ou porcelana, é outra actividade que desenvolve e já participou em exposições em Portugal e no estrangeiro.

Os rios, Camões e a política
Maria Cesaltina nasceu em Constância no dia 1 de Agosto de 1947. É oriunda de uma família muito conhecida na vila e não se vê a viver noutra terra. As suas memórias de infância estão umbilicalmente ligadas à geografia local. O pai tinha um barco para transporte de mercadorias, também fazia as ligações entre as margens dos rios e era pescador. “Chegava a ter seis homens para o arrasto das redes na pesca do sável”, conta. E a pequena Cesaltina, nascida a poucos metros da foz do Zêzere, habituou-se desde cedo a conviver com os rios e as suas manhas. O pai até fez um barco só para ela – chamava-se “Joaninha” - e ela remava, pescava e até ia à caça com o pai.
“Adoro Constância e os rios”, diz. Essa paixão está aliás bem expressa nalgumas letras de sua autoria. O entusiasmo pela música vem também dessa infância feliz e colorida. Após o ensino primário foi aprender música com um acordeonista da zona e mais tarde estudou no Conservatório de Tomar. Foi também muito jovem que começou a cantar e a entrar em espectáculos de teatro e variedades, festas e bailaricos. Com o nascimento do Clube Estrela Verde, que ajudou a fundar pouco tempo após a revolução de 25 de Abril de 1974, envolveu-se na parte cultural e ajudou na organização de espectáculos vários.
Falar de Constância e de cultura sem falar de Camões é improvável. Cesaltina é uma admiradora do poeta e durante muitos anos colaborou assertivamente com a Associação Casa-Memória de Camões e com o Jardim-Horto Camoniano, projectos criados pela jornalista lisboeta Manuela Azevedo, de quem foi uma espécie de braço direito. Ao longo de quase 20 anos fez muitas visitas guiadas de escolas ao Jardim-Horto e envolveu-se noutras iniciativas. “Sempre sem qualquer remuneração, apenas por amor a Constância”, sublinha.
Pessoa multifacetada e muito conhecida na vila natal e nas redondezas, Cesaltina experimentou também a política. Em 1997 foi candidata à junta de freguesia pelo PSD. O resultado foi fraco e a história por aí se ficou. “Não quiseram, paciência...”. A música, a casa, as duas filhas e as duas netas chegam bem para lhe preencher os dias. “Cantarei até morrer e morrerei como as árvores, de pé”, assegura.

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