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“Há poucas mulheres em cargos de Poder porque o mundo ainda é dos homens”
Leonoreta Leitão

“Há poucas mulheres em cargos de Poder porque o mundo ainda é dos homens”

Leonoreta Leitão foi directora da Escola Técnica de Alcanena entre 1965 e 1968. Quando, no tempo da ditadura salazarista, foi directora do pólo da Escola Industrial de Torres Novas em Alcanena, Leonoreta Leitão causou alguns sobressaltos entre a comunidade machista e tradicional de então. Cinquenta anos depois muita coisa mudou mas para ela são os homens que continuam a mandar.

Edição de 17.11.2016 | Aniversário

Quando chegou a Alcanena, em Outubro de 1965, Leonoreta Leitão causou espanto nos moradores. Era difícil acreditar que a nova directora da Escola de Alcanena era uma mulher com apenas 36 anos. Portugal vivia em ditadura, o papel da mulher na sociedade ainda era maioritariamente o de dona de casa e apesar de já haver mulheres com ocupações profissionais isso acontecia principalmente nas cidades e Alcanena era uma vila do interior.
“Só o facto de eu entrar num café sozinha era motivo de conversa. Naquela altura, nas terras mais pequenas, era inconcebível uma mulher ir sozinha a um café. Uma vez houve uma festa e as pessoas estavam sentadas e estava a passar música. Estranhei porque não havia ninguém que dançasse. Tive que ser eu e outro professor a abrir o baile para que as pessoas começassem a dançar. Era um meio mais fechado”, recorda a primeira directora da secção de Alcanena da Escola Técnica de Torres Novas entre 1965 e 1968.
“Acho que as pessoas de Alcanena daquela altura me são gratas pelo facto de ter aceitado o convite para directora da secção. A abertura da secção fez com que os jovens daqui não tivessem que ir estudar para Torres Novas. Foi muito importante porque existiam muitas famílias sem capacidade financeira para ter os filhos a estudar noutras terras”, conta.
Esteve apenas três anos em Alcanena mas foi o suficiente para criar grandes amizades e ficar no coração de colegas e alunos. Ainda hoje visita Alcanena com frequência e a presidente da Câmara de Alcanena fez questão que a antiga directora apresentasse o seu livro “Era uma vez uma boina – Memórias de uma Professora do Estado Novo à Democracia” na cidade ribatejana. Também já foi condecorada com a medalha de mérito municipal de Alcanena.
“No meu livro tenho um capítulo dedicado aos anos que estive em Alcanena. Gostei muito do tempo que lá passei. Como escrevia um diário durante os anos que lá vivi tenho muita coisa registada daquele tempo”, explica.
Leonoreta Leitão tem 87 anos e também se fazia notar por andar sempre de boina, daí o nome do livro. Começou a usá-las na adolescência depois de ter estado doente, com tuberculose, entre os 15 e os 17 anos. Usava-as para se proteger e nunca mais deixou de as utilizar. Actualmente, tem 14 boinas de várias cores. “No dia do lançamento do livro, em Alcanena, estavam lá muitos antigos alunos e colegas. Sempre que alguém queria tirar uma fotografia comigo pedia-me para colocar a boina. A estrela que uso na boina deve-se a Che Guevara, homem que sempre admirei”, afirma.
Filha e neta de professores, Leonoreta licenciou-se em Filologia Clássica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1957. Tinha 19 anos quando decidiu seguir a carreira de professora. Deu aulas de Português e Francês até 1994, altura em que se reformou.
Em criança gostava de escrever sobretudo poesia, prazer que foi alimentando durante a vida adulta. Teve quatro namorados mas nunca casou nem teve filhos. Leonoreta Leitão considera que ainda existe um longo caminho a percorrer para que exista igualdade entre homens e mulheres.
Teve uma experiência política na Junta de Freguesia de São João de Brito, em Lisboa, ligada ao PCP, participou na campanha eleitoral de Maria de Lourdes Pintassilgo, que foi sua amiga e colega de escola, à presidência da República em 1986 e diz que ainda vai ter que ser percorrido muito caminho para as mulheres se imporem na política. “Continua a ser muito difícil haver mulheres nos lugares de Poder porque o mundo ainda é dos homens, embora actualmente já existam mulheres em lugares de topo mas continua a ser uma minoria”, reflecte.
Gosta de touradas e sempre que dá uma corrida na televisão assiste. A sua “aficion” já a levou com amigos a Cáceres [Espanha] para assistir a um tourada ao vivo. Considera, no entanto, que as crianças não devem ver touradas. “Admito que pode ser um espectáculo não recomendável para os mais novos”, afirma.

“Há poucas mulheres em cargos de Poder porque o mundo ainda é dos homens”

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