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O machismo está vivo e infelizmente vai demorar muito tempo até desaparecer
Rita Marques

O machismo está vivo e infelizmente vai demorar muito tempo até desaparecer

Rita Marques, jovem árbitra de Tomar vai acompanhar final da Taça de Portugal. Tem 16 anos, é de Tomar e é árbitra de futebol. Foi escolhida para acompanhar a equipa de arbitragem que vai dirigir a final da Taça de Portugal desta época. A sua experiência de vida, tanto no desporto como no seu dia-a-dia leva-a a concluir que o machismo está vivo e que ainda vai passar muito tempo até haver igualdade entre homens e mulheres.

Edição de 17.11.2016 | Aniversário

Os homens árbitros sabem bem o que é serem insultados, enxovalhados e até agredidos fisicamente. Ana Rita Marques, uma jovem estudante de Tomar que é árbitra de futebol, sabia disso quando decidiu ter a actividade que tem nas horas vagas mas não hesitou. Confessa que a última vez que sentiu as pernas a tremer nem sequer foi num jogo mas quando foi escolhida para acompanhar a equipa de arbitragem que vai dirigir a final da Taça de Portugal deste ano.
Estudante do 11º ano na área de Humanidades e ainda sem saber o curso que irá escolher quando for para a universidade, diz que se sente especial por ser mulher e considera que muitos homens ainda revelam características machistas, olhando para as mulheres como seres inferiores, embora já não tanto como antigamente.
Ana Rita Marques sente esse tipo de comportamento em alguns jogos de futebol em que integra a equipa de arbitragem. “És muita boa!”; “Quero o teu facebook”; “Vamos beber um copo?”; “O que eu fazia contigo...”, são algumas das expressões mais suaves, refere.
O pai de Ana Rita Marques não aprecia muito o facto de ela andar no mundo do futebol. Antigo dirigente de um clube acha que aquilo não é para mulheres. “O meu pai não gosta de estar na bancada e ver a filha dentro do campo a ouvir certas bocas, é complicado para ele”, explica.
A primeira vez que Ana Rita Marques entrou num campo foi como fiscal de linha num jogo de juvenis na Chamusca. O pai estava presente e durante todo o jogo teve atrás de si um velhote que ia dizendo coisas como: “Esta árbitra tem um grande rabinho. É muito gira. Não me importava nada de dar umas voltinhas com ela”. Ana Rita Marques não gosta mas não desmoraliza. Confessa que só fica desanimada e com vontade de desistir quando algum jogo lhe corre muito mal.
O pior tem sido “a falta de balneários femininos”, explica. Normalmente nunca vai uma equipa de arbitragem totalmente feminina e então têm que estar à espera que os árbitros tomem banho para depois poderem ficar à vontade. A jovem também se queixa dos equipamentos fornecidos pela associação. “Normalmente são sempre XXL e como temos o corpo mais fininho, quando nos equipamos parece que estamos dentro de uns balões”.
O namorado de Ana Rita Marques também é árbitro mas as conversas entre eles raramente são sobre arbitragem. “Preferimos falar de coisas românticas”, diz. As discussões são raras e nunca terminaram com amostragem de cartões, nem sequer amarelos.
Para a jovem árbitra “as mulheres são mais organizadas, mais profissionais e mais delicadas”. Segundo ela, a explicação para não haver mais mulheres no poder ou em cargos de chefia reside no facto de a sociedade ainda pensar que os homens têm mais capacidades para liderar. Ana Rita Marques diz que ainda falta muito tempo para existir uma verdadeira igualdade entre mulheres e homens, mesmo nos países ocidentais.
Quanto a mandar em casa, ao trabalho doméstico ou à educação dos filhos tem ideias próprias. “Quem deve mandar em casa devem ser os dois como acontece em casa dos meus pais.” E é também o exemplo dos pais que dá para a repartição das tarefas domésticas. “Muitas vezes é o meu pai que faz o jantar, mete a roupa a lavar e a secar. É por isso que eu digo que ele é o melhor pai do mundo”.
Quanto à educação dos filhos acha que há uma tentação muito grande dos pais serem mais protectores com as raparigas porque sabem que os homens muitas vezes são pouco delicados com as mulheres. Nos tempos livres Ana Rita Marques gosta de ouvir música, de estar com os amigos e, como não podia deixar de ser, de ver jogos de futebol.

O machismo está vivo e infelizmente vai demorar muito tempo até desaparecer

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