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“Pensava que tinha nascido para ser freira mas acabei por ser agente funerária”
Isilda Grilo

“Pensava que tinha nascido para ser freira mas acabei por ser agente funerária”

Isilda Grilo tem uma agência no Tramagal há cerca de quatro anos. Nasceu num convento, na Chamusca, mas nunca teve vocação para freira. Começou a namorar cedo e casou ao 17 anos. Trabalhou no campo e na empresa de construção civil do marido. Quando a crise apertou nas obras, agarrou a oportunidade de ter uma agência funerária no Tramagal. Diz que gosta do trabalho, da terra para onde se mudou e das suas gentes.

Edição de 17.11.2016 | Aniversário

O primeiro funeral que Isilda Grilo fez quando começou a trabalhar como agente funerária, foi o de um tio. Conta que as lágrimas lhe escorriam pela cara abaixo mas que venceu o desgosto com a determinação de uma profissional do ramo. Fez questão de lavá-lo, vesti-lo, e tratar de tudo para que nada faltasse naquela despedida.
Agora, quatro anos depois de ter começado a trabalhar na funerária que tem o seu nome, diz que ainda se emociona em alguns funerais mas que isso não a faz pensar em mudar de profissão.
Isilda Grilo sempre achou que não seria capaz de lidar com mortos mas as voltas da vida pregaram-lhe uma partida. O primeiro morto que viu foi o seu pai que morreu um ano antes de ela ter a agência. Ele tinha 57 anos e foi um momento muito marcante na sua vida.
“Quando o meu pai morreu senti uma grande revolta durante muito tempo. Achava que ele tinha morrido cedo demais e que isso era injusto. Às vezes ia para o cemitério às nove, dez da noite, sentava-me na campa do meu pai e conversava com ele. Seis meses depois da sua morte tive que pedir ajuda médica porque não estava a conseguir lidar com o problema”, desabafa. Felizmente ultrapassou a situação.
À frente da Funerária Isilda Grilo desde 2012 afirma que tudo é uma questão de hábito. No entanto, há sempre situações mais difíceis, como o funeral que teve de fazer de um bebé que nasceu morto. “Naqueles momentos não há nada que possamos dizer que conforte os pais”, diz.
Uma das primeiras coisas que fez quando começou a trabalhar como agente funerária foi deitar-se num caixão. Gostou de saber que é confortável.
Apesar de trabalhar numa profissão que lida de perto com a dor, tenta viver a vida com optimismo e, de um modo geral, acredita que há muitas outras pessoas que tentam fazer o mesmo apesar de todas as dificuldades do dia-a-dia e de ninguém saber quando pode chegar a sua hora.
Uma vez uma senhora parou à porta da agência funerária e disse-lhe, na brincadeira, que tinha ido ver se lá estava algum aviso a anunciar o seu falecimento. “Eu ri-me e brincámos com aquilo mas umas horas depois ligaram-me a pedir para ir buscar o corpo da senhora porque ela tinha falecido”, lembra.
Diz que o caso da senhora não é único.“Uma vez uma amiga encontrou-me e disse-me que queria que eu lhe fizesse o funeral e que quando esse dia chegasse queria que eu cuidasse dela. Sobretudo queria que lhe pintasse as unhas, coisa que nunca tinha feito, que lhe arranjasse o cabelo e que lhe fizesse a depilação. Queria ir toda arranjada”, conta.
Quando enveredou pela actividade frequentou diversas acções de formação para aprender o máximo possível. Diz que há pormenores que podem fazer toda a diferença, inclusivamente a forma como ela própria se apresenta nos funerais. “Num dos meus primeiros funerais não reparei que tinha as unhas pintadas de vermelho. Passei o tempo todo a tentar esconder as mãos com os punhos da camisa”, confessa.

“Prefiro o trabalho pesado”
Isilda Grilo costuma dizer, a brincar, que nasceu para ser freira porque nasceu num antigo convento perto da ponte da Chamusca mas só por isso uma vez que a vocação nunca despontou. “Na verdade, não dava para freira porque aos 14 anos já namorava em casa”, conta entre risos. Curiosamente não estudou além da quarta classe uma vez que o seu pai achava que as raparigas iam estudar para arranjarem namorado. “A teoria dele não estava certa porque eu não estudei e casei logo aos 17 anos e fui mãe muito nova”.
Aos 11 anos foi aprender a costurar e aos 13 anos já trabalhava no campo. “Subia às árvores para fazer podas, cavava e tratava das vinhas”, conta. Depois de casada continuou a trabalhar no campo mas numa altura em que havia falta de pessoal na empresa de construção civil do marido, na Chamusca, mudou para as obras e diz que fazia tudo. “Até carregar sacas de cimento às costas”, conta.
Quando a crise atingiu a construção civil surgiu-lhe a oportunidade de ter a funerária e arriscou. “Não me arrependo da decisão. Mudámos para o Tramagal mas fomos bem acolhidos nesta terra. Há pouco tempo estive doente e tive imensas pessoas a levarem-me miminhos a casa. Gosto muito de aqui viver”, afirma.
O marido ajuda-a sempre que pode nos funerais e Isilda Grilo diz que trabalhar com o marido nunca foi uma desvantagem. Conseguem separar as coisas e em casa só falam de trabalho quando é mesmo preciso. Têm três filhas. Uma trabalha na empresa do marido, a outra trabalha na filial da funerária, em Constância, e a mais nova ainda estuda.

“Pensava que tinha nascido para ser freira mas acabei por ser agente funerária”

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