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Laura
Há muitas escolas que ostentam instalações com um luxo despropositado mas o essencial, as pessoas, pessoal docente e não docente, é esquecido há muitos anos.
Edição de 30.11.2016 | Opinião

A minha sobrinha Laura tem 11 anos. Até aqui andou numa escola privada e este ano, no 2º ciclo, anda na escola pública. Trago o tema a esta coluna porque é importante e geral a muitas das nossas escolas por este Tejo fora. Como sabemos, na generalidade, sobretudo nas cidades, o modo de vida levou a que as famílias se tenham afastado da educação das crianças. Os pais saem cedo para trabalhar e regressam tarde e cansados, mesmo que não tenham feito grande coisa (como sabemos o nosso país é pouco produtivo). A escola assume ainda mais importância na formação das crianças.
Um dos temas muito recorrentes é o número de alunos por turma. Sempre se discute e estuda esta questão. Qualquer um de nós compreende que se as turmas forem muito grandes o ensino e acompanhamento dos alunos por parte do professor não pode ser o mesmo que na situação inversa. Obviamente que nada disto interessa aos sindicatos, que apenas contabilizam o número de empregos que garantem a mais se o número de alunos por turma diminuir. Os estudos sobre o assunto sucedem-se e normalmente concluem – até parece magia – que não existe uma relação entre o desempenho do aluno e o número de alunos por turma. Ponham-se dentro de uma sala de aula e logo veem a validade destes estudos.
Também se pode evitar perder tempo e gastar dinheiro em estudos para concluir que os professores constituem uma das classes profissionais mais desmotivadas. As razões são muitas e também conhecidas: a profissão de professor, outrora estável, valorizada e estimada, hoje evidencia o contrário. Nada na escola é estável e isto cria descontentamento e insegurança. Investiu-se imenso nas paredes. Há muitas escolas que ostentam instalações com um luxo despropositado mas o essencial, as pessoas, pessoal docente e não docente, é esquecido há muitos anos. E uma coisa também é certa: sem pessoas motivadas não há bons resultados, mesmo que as turmas sejam pequenas e as escolas sejam excelentes. Obviamente, as causas não estão todas do lado de lá. A classe tem igualmente grandes responsabilidades, a começar pelo conformismo e a acabar no absentismo. Todas as semanas um ou mais professores da Laura faltam. Nesse tempo, tudo pode acontecer além de o programa ficar por cumprir. O que faz a escola? O que pode e deve fazer a escola? E, já agora, como respondem os professores a este problema do absentismo?
A escola tem pouco pessoal auxiliar e no bar, apesar da muita retórica mediática, continua-se a vender essencialmente açúcar. No primeiro dia de aulas, um amigo e colega da Laura foi assaltado dentro da própria escola. São frequentes os roubos e assaltos dentro da escola. Também é frequente o bullying (coação) entre alunos, do tipo “se não me pagas o lanche, bato-te; se fizeres queixa ao professor, bato-te…”
Tudo isto se passa num dos concelhos mais ricos do país, onde todos os dias o governo local gasta milhares de euros em eventos da treta, tipo pistas de patinagem de gelo que nada têm a ver connosco.
Carlos Cupeto – Universidade de Évora

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