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25/06/2017
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“Aqui ninguém pode ficar sem assistência por falta de médico”
João Pita Soares, coordenador da Unidade de Saúde Familiar Almeida Garrett de Santarém.
Edição de 12.01.2017 | Entrevista

A Unidade de Saúde Familiar (USF) Almeida Garrett, em Santarém, com sede no bairro de S. Bento, serve 13.400 utentes e dispõe, além da sede, de seis pólos assistenciais em Várzea, Póvoa da Isenta, Almoster, Moçarria, Póvoa de Santarém e Vale de Santarém. Nesta unidade os profissionais trabalham por objectivos, são compensados por trabalharem mais mas também são avaliados em função de metas que têm de ser atingidas. Ao contrário dos centros de saúde, nas USF ninguém fica sem ser atendido mesmo que falte o seu médico. Um modelo que beneficia o utente e que o coordenador desta unidade, o médico João Pita Soares, diz ser o melhor. A USF Almeida Garrett recebeu recentemente a certificação de qualidade com nível bom, o que vem atestar a qualidade dos serviços prestados ao cidadão.

A USF obteve a acreditação com nível bom de qualidade, na prática o que é que os utentes beneficiam com isto? Esta acreditação tem como objectivo colocar o utente no centro do sistema. Toda a organização, toda a forma de actuar dos profissionais e a orgânica da unidade gira em torno do utente, que é o principal actor. Para o utente ter uma unidade acreditada tem a vantagem que é a garantia de qualidade, em que todos os profissionais agem de uma forma semelhante. Um diabético, por exemplo, será atendido da mesma forma por qualquer um dos médicos.
Esta acreditação gera uma boa imagem pública. Isso é importante para captar profissionais? Havendo um lugar aberto é natural que apareçam uns 50 profissionais a candidatarem-se. Desde que foi pública a acreditação já recebemos vários pedidos de médicos mas não temos lugar para eles. O quadro, de sete médicos, sete enfermeiros e seis administrativos, está completo. Na USF o número de profissionais está definido em função da população.
E os sete médicos chegam para as necessidades? Se tivéssemos mais um médico trabalharíamos mais folgadamente. Mas não é esse o princípio das USF, que foram implementadas para colmatar a falta de médicos. Neste modelo assumimos que vamos atender a população mesmo que falte um médico, por doença ou outro motivo, porque os outros profissionais têm de garantir o atendimento dos doentes. Aqui ninguém pode ficar sem assistência por falta de médico. Garantimos a intersubstituição e o utente é utente da USF e não do médico específico, embora se mantenha a ligação médico-doente.
Um utente de uma Unidade de Saúde Familiar está numa posição mais vantajosa que um de um centro de saúde. Para um doente de um centro de saúde que num dia não tem médico, porque faltou, só lhe resta ir-se embora sem ser atendido. Enquanto numa USF pode não ser atendido pelo seu médico habitual mas não se vai embora sem ser consultado.
Isto só prova que se os médicos forem incentivados e forem recompensados trabalham mais. Os médicos neste modelo B de USF são pagos por incentivos, que tem a ver com a dimensão da lista de utentes que temos e a sua idade. Depois há objectivos e os médicos são avaliados por metas e objectivos.
Se este é um modelo melhor não era mais interessante generalizá-lo e acabar-se com os vários sistemas? Sem dúvida. A política dos vários governos era tentar transformar os cuidados primários em Unidades de Saúde Familiar mas há sítios onde não é possível por falta de médicos ou motivação dos próprios profissionais. Há muita gente que não está disponível para esta guerra que é a criação de uma USF (por iniciativa voluntária dos profissionais), que obriga a uma exigência de trabalho e de métodos e quem está em fim de carreira não quer ter essa preocupação.
A existência de vários modelos cria injustiças… Esta unidade está no topo dos cuidados de saúde primários e olhamos para o lado e vemos uma unidade que trabalha bem também mas os profissionais não são compensados, cria-se uma injustiça. Para os utentes até se coloca em causa, em termos constitucionais, a igualdade. Um utente que tem a sorte de pertencer a uma USF tem uma qualidade de serviços muito superior a um utente que não tem médico de família e tem de ir de madrugada apanhar uma consulta.
Como é a relação da USF com o hospital distrital? Podia ser melhor e devia haver uma relação mais próxima entre o hospital e os cuidados primários mas essa é uma situação geral, não é só com a unidade de saúde familiar. Devia haver maior articulação embora esteja a melhorar bastante nos últimos anos.
Quais são os principais problemas dos utentes desta unidade? São sobretudo os relacionados com a diabetes e a hipertensão, a exemplo do que acontece em todo o país e nos países desenvolvidos, devido ao estilo de vida, ao sedentarismo, ao stress.
Esta USF já tem seis anos, qual é o balanço que faz até agora? Crescemos muito em termos de organização, de mentalidades, de abertura a novas formas de gestão. Esta unidade é das mais eficientes, pelo menos no Agrupamento da Lezíria, o que nos obriga a pensar constantemente numa boa gestão e utilização dos recursos, tendo sempre em conta o melhor para o doente.

A medicina geral e familiar é cada vez mais reconhecida

O facto de muitos cidadãos não terem médico de família deve-se a falta de recursos ou de organização? Principalmente por falta de recursos. É inquestionável que há locais com grande carência de médicos de família mas é evidente também que havendo modelos organizativos melhores essa falha vai-se colmatando.
Mas também há a ideia de que os médicos estão mal distribuídos. Isso é uma realidade que vai acabar. Estão em formação médicos que podem colmatar as faltas de profissionais em pouco tempo. O que há é a opção de escolha dos médicos e atendendo à qualidade dos médicos de família portugueses qualquer país da Europa recebe facilmente os nossos profissionais. A especialidade de medicina geral e familiar, actualmente, é altamente exigente, contrariamente à ideia que as pessoas tinham da medicina geral de antigamente.
Há mais médicos a preferirem esta especialidade? As vagas de clínica geral foram preenchidas primeiro do que, por exemplo, as de medicina interna ou pediatria.
O que levou a essa mudança? Ao reconhecimento da qualidade da medicina geral e familiar a nível nacional e internacional, que antes era vista como uma especialidade pobre da medicina. Hoje é de tanta procura como outra qualquer porque as pessoas também sabem que vão ser recompensados em termos profissionais e de imagem. A medicina portuguesa tem reconhecimento internacional, particularmente nesta especialidade.
A acumulação de funções públicas com privadas não cria nas pessoas a ideia de promiscuidade? Se os campos e os modos de actuação estiverem bem definidos e sejam claros, não é por aí que há problemas. Pessoalmente não os vejo.
A informatização veio beneficiar os cuidados de saúde ou desumanizaram a relação com o doente? Desde que esteja a funcionar é fundamental, em termos de recolha e disponibilização de informação e veio melhorar o trabalho médico. O problema é que muitas vezes não funciona bem e causa transtornos. O computador é fundamental mas não podemos só olhar para o monitor e esquecer o utente.
O médico hoje em dia ainda tem tempo para conversar com o doente? Tudo tem a ver com a organização das consultas. O médico tem de ter a preocupação de organizar e gerir as suas consultas e a conversa também. É fundamental a conversa com o doente para criar empatia e confiança, porque se houver a capacidade de o ouvir é meio caminho para a satisfação do doente.

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