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O último sapateiro de Alvega já não faz botas mas ainda toca na banda
Etelvino Narciso

O último sapateiro de Alvega já não faz botas mas ainda toca na banda

Filho e neto de sapateiros, Etelvino Narciso não tem continuadores para essa arte na terra onde sempre viveu e trabalhou.

Edição de 19.01.2017 | Entrevista

Resta apenas uma oficina de sapateiro em Alvega, uma das poucas que ainda sobrevivem no concelho de Abrantes. Etelvino Pires Narciso nunca teve aprendiz na casa fundada pelo avô em 1898, aberta ao público há 119 anos. “Este ofício já não compensa. Não há quem queira aprender e isto um dia acaba”, afiança em jeito de lamento a O MIRANTE.
Possui um pequeno espaço, com uma mesa ao centro, atulhada de utensílios que em tempos ajudaram o sapateiro, agora com 80 anos, a criar calçado. E um banco de pernas curtas para melhor compor a peça no regaço do avental de couro. Hoje só trabalha em pequenos consertos, cola uns sapatos, põe umas capas ou umas solas. Desde que se reformou nunca mais fez um par de botas. “Os materiais são diferentes de antigamente. Já não se consegue trabalhar bem”. São matérias-primas indicadas para colagem e cosedura à máquina que sugerem outros padrões, diferentes da perfeição de outrora, sustenta.
Ao fundo, a parede está ocupada pela máquina polidora que auxiliava as mãos experientes no acabamento de botas (incluindo mexicanas) e botins, sapatos e sandálias. “Fiz muito calçado novo para homem e mulher”, afiança. Dava forma ao molde à medida do freguês que encomendava a obra sem muita opção de cores ou modelos. “Para trabalhar ou para calçar ao domingo”, relembra, enquanto olha as formas com muitas décadas de uso. A oficina, além de comportar o fabrico artesanal, noutros tempos também funcionou como sapataria, onde, durante 25 anos, vendeu “sapatos de fábrica”.
As várias prateleiras laterais estão ocupadas com sacos, palmilhas, sapatos usados, frascos com pregos de vários tamanhos e protectores, alguns com etiquetas amareladas que exibem indicações escritas à mão, caixas de graxa, cadernos para apontar serviços, contas e fregueses, perdidos entre muitos outros instrumentos utilizados numa arte que atravessa tempos difíceis.

Família de sapateiros sem continuadores da arte
As indústrias do calçado, e um melhor nível de vida, afastaram os clientes dos sapateiros tradicionais. O avô, sapateiro, tinha três filhos e três netos, todos sapateiros. Etelvino tem dois, um rapaz e uma rapariga, nenhum se interessou pela profissão. “Nesse tempo havia muito trabalho. Hoje há pouco, devido ao calçado das fábricas e ao calçado chinês”, aponta.
Etelvino Pires Narciso é um homem forte, cabelos ralos, bonacheirão. Tem as mãos calejadas, dedos grossos habituados às unhas encardidas pela graxa que aplicava com parcimónia e escova para dar brilho ao calçado. E desde criança que conhece bem o seu cheiro bem como do cabedal. “Trabalhava também com calfe, cromos, forros, borrachas e pneu. Não era fácil! Todo o calçado era cosido à mão”, garante. Embora na oficina repouse uma máquina de coser Singer “das antigas”.
Aprendeu o ofício aos 12 anos com o pai, que herdou a oficina, trabalhou com ele e depois sozinho. Sempre gostou da profissão com a qual governou a vida. “O meu pai e os meus tios tinham uma sociedade que acabaram por dissolver. Eu fiquei em Alvega, os meus primos abriram oficinas na Cova da Piedade e em Almada”, conta.
Num canto da oficina jazem sapatos que os donos esqueceram. Etelvino ainda avivou a memória de alguns clientes mas a proposta foi “atirá-los para o lixo”. A maioria dos fregueses são da terra, mas outros de fora, que o conhecem há décadas, ainda procuram os seus serviços. Calotes abundam. “Todos os anos! Ultimamente, mesmo dos poucos biscates que fiz não recebi o dinheiro todo”, afirma, contabilizando a dívida em muitos “contos de reis” em vez de euros.
Mas este sapateiro toca outros instrumentos além da grosa e das turquesas. “Sou músico na Banda Filarmónica de Alvega desde 1947”, diz. Toca clarinete e também tocou noutras bandas da região. “Se em Julho ainda integrar a banda”, celebra 70 anos naquela instituição.

O último sapateiro de Alvega já não faz botas mas ainda toca na banda

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