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Jovem de Abrantes ganha a vida a contar histórias das suas viagens

Jovem de Abrantes ganha a vida a contar histórias das suas viagens

Carlos Bernardo desistiu do curso de Engenharia Civil e arranjou forma de juntar o útil ao agradável garantindo rendimentos sem ter uma profissão com horários fixos e rotinas aborrecidas. A sua vida, basicamente, é viajar e contar histórias das suas viagens. A fórmula, para já, tem sido um êxito.

Edição de 02.02.2017 | Sociedade

Carlos Bernardo, 32 anos, começou a aventura de escrever um blog no Verão de 2013 quando decidiu fazer uma viagem de bicicleta de mochila às costas entre Abrantes e Vila Real de Santo António, no Algarve. Hoje, o seu blog “O Meu Escritório é lá Fora!” é visitado por mais de um milhão de pessoas por ano e já conquistou vários prémios nacionais e até internacionais. O último que venceu foi de Blog de Viagens Mais Popular, na Feira de Turismo de Madrid.
O primeiro escritório de Carlos Bernardo foi na horta na casa dos seus avós em Rossio ao Sul do Tejo, Abrantes, onde diz ter tido “uma infância muito feliz”. O seu tempo era dividido entre passeios de bicicleta junto ao Tejo ou junto ao pinhal, entre longas maratonas de futsal no ringue do Rossio, entre subidas às árvores ou tardes passadas na sede do Clube Desportivo “Os Patos”, clube do qual, é director desde os seus 15 anos de idade.
Quando tinha 18 anos, altura de escolher o seu destino, não sabia o que queria. “Gostava de muita coisa, mas não gostava muito de nada. Escolhi Engenharia Civil como poderia ter escolhido outra coisa qualquer. Ainda hoje não consigo dizer bem o porquê”, conta. Com o desenrolar do curso, percebeu que aquilo não iria ser o seu futuro. Não tinha o mínimo prazer em ser engenheiro civil, e, na fase final do curso, tomou a mais importante e mais difícil decisão da sua vida: fugir dali. Explica que o seu maior medo “é ser infeliz”, por isso não poderia continuar a enganar-se a si próprio.
“Os meus pais sempre me apoiaram nas decisões, mas como é óbvio ficaram preocupados. Eu no lugar deles também ficaria. Mas, felizmente, correu tudo bem”, conta. E acabar o curso um dia destes? “Está completamente fora de questão”, responde.

Um terço do tempo a viajar e dois terços no escritório
A ideia do blog, em 2013, surgiu apenas como forma de escrever a história de uma viagem de bicicleta ao Algarve e poder mostrá-la um dia aos seus netos. Em nenhum momento, naquela viagem, pensou que um dia poderia ser profissional de “O Meu Escritório é lá Fora!” e do impacto e dimensão que viria a ter o blog.
Hoje reparte o tempo entre as várias tarefas. “Posso dizer que passo cerca de um terço do ano em viagem e dois terços no escritório”, conta. Como é o único funcionário, semanalmente organiza as suas tarefas diárias, entre produção de conteúdos, publicações, parte comercial e planeamento de viagens. “Sempre que posso, gosto de dar uma volta de bicicleta, encontrar-me com os meus amigos à sexta-feira no café lá da terra e jantar fora com a minha namorada Liliana”, confessa.
O Meu Escritório é lá Fora! já foi nomeado e distinguido em vários prémios, entre eles o de “7º Melhor Blog de Viagens do Mundo” - en.bab.la 2016; “Melhor Blog de Viagens Nacional” - Sapo Lifestyle; “Inspiração para viagem de Lua de Mel” - Zankyou, entre outros. Mas os que mais marcaram o autor foram o prémio de Blog de Viagens Mais Popular 2017, pela FITUR - Feira de Turismo de Madrid (a terceira maior feira de turismo do Mundo) e Galardão Turismo da Rádio Antena Livre.
Carlos Bernardo sente-se um ribatejano e adora a região. “Acho que o Ribatejo tem um potencial imenso, muitas e interessantes histórias para contar. É uma região de tradições. Infelizmente, e sinceramente não percebo porquê, a marca Ribatejo cada vez está mais esquecida e vem sendo aglutinada por outras regiões”, constata.
E como se ganha a vida com um blog? “Sobretudo a escrever histórias sobre lugares. Muitas vezes comparo-me a um pintor, que alguém contrata para fazer um retrato sobre um local. A mim contratam-me para escrever sobre a minha experiência. Depois tenho a vantagem de ter um galeria (o blog) com cerca de 1 milhão de visitantes por ano onde posso expor os meus quadros”, diz Carlos.
Mas também existe publicidade e Carlos escreve artigos para outras publicações. Este ano vai iniciar-se como guia de viagens, a levar pequenos grupos a lugares que gosta muito, em colaboração com uma agência especializada em viagens de autor e, muito provavelmente, irá lançar um livro d’O Meu Escritório é lá Fora!.

“Abrantes é a cidade que mais gosto”

Carlos acredita que, turisticamente falando, Abrantes tem um potencial imenso. Muito por culpa da sua localização e da sua diversidade paisagística e cultural. “De Norte a Sul do concelho, passamos por paisagens e culturas completamente distintas. Sinceramente, acho que as pessoas de Abrantes, entre as quais me incluo, deviam melhorar a sua auto-estima em relação ao lugar onde vivem, que precisa de ser valorizado e reconhecido por quem lá vive. Acho, que este não é só um problema de Abrantes, mas de Portugal de uma maneira geral”.

Duas estórias em discurso directo

Perto de Elvas, assim meio sem querer, meti-me numa zona de pastagem de gado e tive um encontro de caras com uma vaca brava. Eu na minha bicicleta e uma vaca com 400kg a “correr” na minha direcção. Como deve calcular, ia quase desmaiando só de estar presente naquele “filme”. Felizmente foi só um “quase atropelamento” (ficámos a centímetros de um embate). E no final do “filme” quase que tive de sair escoltado da zona de pastagem por um ganadeiro, para garantir que saía de lá inteiro.
Perto do Alandroal, fiz cerca de 50km sem um único café ou restaurante. Estavam mais de 40 graus e claro que fiquei sem água rapidamente. Já quase a morrer de sede e sem saber bem onde estava, parecia que estava a atravessar o deserto, encontro uma bomba de gasolina, pensei “tou salvo!”. Mas não, estava fechada para hora de almoço, bem típico do interior. Ia morrendo quando vi aquilo fechado. Por sorte, a família dona da bomba estava a almoçar no interior e viram-me meio desesperado, não só me ofereceram água, como me convidaram para almoçar.

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