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O incansável guardião do Tejo
Ambientalista. Arlindo tem sido o rosto na defesa do rio Tejo

O incansável guardião do Tejo

Arlindo Consolado Marques denuncia a poluição no rio desde 2014. O guarda prisional conhece o Tejo desde que nasceu e não desiste do combate contra a “espuma da morte”. Os seus vídeos e fotografias nas redes sociais têm ajudado a dar visibilidade a um problema que continua na ordem do dia.

Edição de 02.03.2017 | Entrevista

Foi nas redes sociais que Arlindo Consolado Marques começou a denunciar uma realidade que teme poder acabar com o rio Tejo enquanto ecossistema: a poluição. O ambientalista nasceu em Ortiga, freguesia do concelho de Mação, há 51 anos, vive no Entroncamento, é guarda-prisional em Torres Novas e guarda-rios à beira Tejo, de Vila Velha de Rodão a Lisboa, sempre com a ajuda dos pescadores que o alertam para os focos de poluição.
Já percorreu muitos quilómetros até Espanha e por isso garante que “da ribeira do Açafal para cima a água é limpa”. Arlindo, neto de pescador, cresceu à beira do Tejo. “Conheço a água, bebia dela, andava nos barcos”, lembra. Hoje gasta dinheiro em combustível e equipamentos, como drones e câmaras de filmar para fazer vídeos e fotografias, que revelam o que considera “crime” embora as análises que chegam à APA (Agência Portuguesa do Ambiente) estejam dentro dos parâmetros legais.
Arlindo sabe que a culpa é muito portuguesa e tem vários nomes, basta ver os relatórios da APA. Um deles é a Celtejo, fábrica de celulose em Vila Velha de Rodão - “sem uma ETAR adequada, a caldeira de recuperação não aguenta o volume de produção e assim faz descargas no rio”.
Se preciso for, às quatro da madrugada Arlindo anda de barco no Tejo a recolher imagens. Para isso até comprou um caiaque e as suas denúncias já lhe causaram problemas e puseram a sua integridade física em risco: a sua e a de um dos três filhos. Dessa vez por causa da Fabrióleo, no concelho de Torres Novas, a quem tem sido imputada a poluição da ribeira da Boa Água que desagua no rio Almonda, que por sua vez desagua no Tejo. O caso está em tribunal.
Desde 2014, ano em que ocorreu uma enorme mortandade de peixe, que a cor do Tejo mudou. Umas vezes verde, outras castanho ferrugem, com espuma branca e densa a boiar designada por Arlindo por “espuma da morte”. São raras as vezes que a água se apresenta translúcida. Arlindo Consolado Marques tornou-se num dos principais contestatários contra a poluição no rio Tejo muito por causa de um pescador que tinha viveiros de lagostins a jusante dos tubos da Celtejo e que certo dia deu com os bichos todos mortos, acusando a fábrica em frente às câmaras da RTP.
A empresa contestou, assegurando cumprir todas as normas ambientais, e ameaçou judicialmente o pescador. A carta enviada pela empresa “foi puro terrorismo psicológico” refere Arlindo, que dessa forma apelou às redes sociais conseguindo captar a atenção do país. Até que em Fevereiro de 2016 filmou o foco poluidor que compara a “um cogumelo da bomba atómica” com pedaços de madeira e cheiro a químicos, saindo dos tubos da Celtejo, contrariando as declarações do presidente da Câmara Municipal de Vila Velha de Rodão que atribuía culpas a Espanha.

Peixe é um bem cada vez mais raro

Os pescadores corroboram as preocupações de Arlindo Marques. Vivem do rio e sabem que os peixes estão a morrer. Francisco Pinto é um deles. Residente em Ortiga, pescador há cerca de 40 anos, agora já não lança as redes ao Tejo. Apesar da “inferior qualidade” do pescado, a escolha passa pelo Alqueva, Montargil, Maranhão, Pracana ou Castelo de Bode.
No Tejo “peixes autóctones daqui a nada não há, só adultos, a criação conforme nasce vai morrendo”, lamenta a O MIRANTE. Segundo o pescador, cujos sogros são proprietários de um restaurante que divulga os sabores do rio, sobrevivem no Tejo “as espécies invasoras” como os alburnos. “Bogas, peixe-rei e barbos pequenos não há, carpas e lampreias muito poucas” garante, indicando que o consumidor “tem receio” em comprar peixe, apesar da falta de “comunicação oficial” confirmando (ou desmentindo) perigo para a saúde pública. Francisco Pinto teme pela sobrevivência da lampreia. Por causa do ciclo de sete anos desconhece se as descargas poluentes mataram a criação. “Só daqui a quatro anos é que saberemos se a desova conseguiu sobreviver”, explica.

Protesto em Vila Velha de Ródão

Arlindo foi presidente da entretanto dissolvida associação SOS Tejo. Agora é secretário do ProTejo, um movimento que envolve várias associações como a Quercus, a Zero (Associação Sistema Terrestre Sustentável) ou o MIA (Movimento Ibérico Antinuclear), e promete continuar “a luta” esperando que o povo saia à rua em contestação.
Organizada pelo ProTejo, dia 4 de Março, realiza-se, em Vila Velha de Rodão, uma manifestação contra a poluição, com concentração junto ao cais. “Já foram notificados todos os presidentes de câmara dos municípios ribeirinhos para sensibilizarem as pessoas para esta causa do Tejo. Quem não for, é conivente!”, considera Arlindo Marques.

O incansável guardião do Tejo

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