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23/05/2017
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Chuva e outros riscos
Ainda vamos chegar ao momento de morrer de fome enquanto olhamos alegremente para uma galinha que se passeia à nossa frente sem saber o que lhe fazer.
Edição de 08.03.2017 | Opinião

Já escrevi sobre o tema mas o absurdo é tão grande que merece honras de título: o problema da chuva. Assumo ter pouco tempo, um bem que muito valorizo, para me sentar em frente à televisão. Todavia, às vezes é inevitável, como almoçar num espaço público com um ecrã à frente dos olhos. No final da semana passada choveu um pouco e nas terras altas nevou. O canal público, provavelmente em perseguição do serviço público, foi incansável no alerta do risco de chuva, neve e vento. Pateticamente, proclamava a chuva como um risco. No limite, as nossas crianças apreendem que a chuva é uma coisa má e perigosa. O ridículo destes tempos chegou a isto. Muito a propósito, um amigo comentou que ainda “vamos chegar ao momento de morrer de fome enquanto olhamos alegremente para uma galinha que se passeia à nossa frente sem saber o que lhe fazer.”
A meteorologia e a proteção civil, que ostentam nomes bem mais pomposos, fazem questão de nos dizer que “chover é perigoso”, quando chover no inverno é um bem muito necessário. Cambada de ignorantes que nos enganam e, ainda por cima, nos custam muito dinheiro. Ou seja um duplo custo. E ainda, muito provavelmente, um enorme terceiro custo, pois no dia em que forem necessários – isto é, em situações extremas, de chuva ou seca –, de pouco ou nada vão servir. É assim por cá e em todo o mundo, em países ricos e pobres. Na verdadeira necessidade, não há bonitas fardas e boas viaturas todo-o-terreno que nos valham.
O direto da RTP 1 das terras altas com neve “safou-se” porque não falaram com nenhum habitante local; se o tivessem feito, como muitas vezes acontece, seriam confrontados com a normalidade de nevar nas serras no inverno. Em paralelo com esta situação ridícula só mesmo a figura encasacada da “desgraçada” da repórter que parecia estar num dos polos.
O verdadeiro perigo é assistir a tais reportagens e embarcar nestas histórias. Felizmente, a solução é fácil e eficaz: desligar a televisão. O que não tem solução é impedir que o dinheiro dos nossos impostos seja aplicado neste “serviço público” de televisão. Confesso-vos que esta é a parte desta história que mais me custa porque é dinheiro mal gasto e que faz falta para tanta coisa essencial para muitos, na alimentação, saúde, educação e justiça. Na verdade, vivemos tempos muito estranhos com responsabilidade própria. A questão essencial que me persegue é esta – o que fazer para contribuir eficazmente para a mudança positiva deste desfasamento entre a verdade e o mundo em que vivemos?
Carlos Cupeto
Universidade de Évora

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