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24/06/2017
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Alice Vieira está a reconciliar-se com as origens ribatejanas
As raízes de Alice Vieira estão em Torres Novas mas a escritora e jornalista manteve durante anos uma relação difícil com a terra dos seus pais. O filho regressou ao concelho para reerguer o negócio de família e pelo caminho conseguiu que a mãe se apaixonasse pela aldeia que um dia a apavorou.
Edição de 08.03.2017 | Sociedade

Aos 73 anos, a escritora e jornalista Alice Vieira é a mais velha autora do grupo de editoras Leya a visitar escolas para interagir com os alunos. Foi a própria quem o revelou a uma plateia de alunos do 5º ano da Escola Básica dos 1º, 2º e 3º ciclos do Bom Sucesso, em Alverca do Ribatejo. Tinham vindo de propósito de manhã - só tinham aulas à tarde - para fazerem perguntas a Alice Vieira.
A escritora, que lançou a sua carreira com o livro infantil “Rosa, Minha Irmã Rosa”, uma história que contava aos seus filhos, respondeu a tudo, com a honestidade límpida, e por vezes crua, que é a sua imagem de marca. Os adolescentes quiseram saber em que é que se inspirava para criar os enredos dos seus livros - “no quotidiano” - e de onde vinha a imaginação.
Alice Vieira disse a sua verdade: “Não tenho imaginação nenhuma, a pior coisa que me podem fazer é pedirem-me para inventar uma história de um momento para o outro”. Ainda assim, já escreveu perto de 90 livros - para crianças, jovens e adultos - , romances e livros de crónicas, sem nunca deixar a profissão que ama de lado: “Deixaria de ser escritora mas jornalista nunca”. Actualmente, escreve para o Jornal de Mafra e para a revista dos Missionários Combonianos.
O MIRANTE fez-lhe algumas perguntas à margem da sua visita a esta escola em Alverca do Ribatejo.
A relação com Torres Novas foi sempre difícil? Tive uma relação muito má e efémera com a minha mãe e nunca gostei muito de ir às Lapas [aldeia em Torres Novas]. Nasci em Lisboa e não gostava de estar na casa da aldeia, sentia-me mal e mesmo depois de crescer sempre a associei à minha mãe.
Já fez as pazes com a aldeia dos seus pais? Sim. Fiz as pazes com a terra quando o meu filho decidiu reerguer o negócio de família - é lá que está a fábrica [de produção de álcool etílico] e recuperou as casas. Comecei a ir visitar os meus netos e assim recomeçou a minha ligação à terra, aos primos. Estou a reconhecer a terra, os lugares, as casas... Mas nunca entrei na primeira casa onde o meu filho morou, que era a da minha mãe, só nesta onde ele está agora a viver, que era a casa da amante do meu pai.
O seu pai era, portanto, um marialva… Descendo de duas famílias: os Vieira e os Vassalo e a minhas primas contavam-me que as pessoas de Torres Novas tinham este dito: “Vieiras e Vassalos é tê-los e largá-los”, era uma coisa quase fatal. Todos eles tinham a mulher da aldeia e a mulher de Lisboa. Eu vivia em Lisboa, ouvia isto e não podia sequer olhar para a casa onde morava a mulher de lá. Cheguei a conhecê-la quando espreitei através da vidraça [risos].
Revê-se em alguma característica do Ribatejo? Sim, gosto muito de touradas. Fui sempre habituada desde pequena a assistir e até garraiadas gosto de ver. Acho que é um jogo entre um homem e um animal.
Como vê estes movimentos anti-tourada? Acabam-se as touradas e acaba-se o touro bravo, é preciso que se diga isto. As pessoas que começam a berrar contra as touradas nunca foram ver como os animais são mortos no matadouro.
Disse aos alunos desta escola que só é escritora porque é jornalista. Os jornais também lhe trouxeram o amor. Foi o único? Não. Três anos depois do meu marido (Mário Castrim) morrer reencontrei o meu primeiro namorado (Mário Pinto). Vivemos juntos onze anos (morreu há cinco meses). Tinha-o deixado aos 18 anos, quando entrei para o Diário de Lisboa e conheci aquele que viria a ser meu marido. Foi um escândalo…
Porque ele era muito mais velho [tinha mais vinte anos que Alice Vieira]? Também. E porque na altura era casado. Lembro-me de subir a escadaria do jornal e de ele estar lá em cima. Senti que aquela era a vida que eu queria ter e aquele o homem que eu queria para meu marido.
Consegue sempre tudo o que quer? Não, mas quando quero muito uma coisa, vou à luta. Nada na minha vida me foi entregue de mão beijada. Eu trabalhava com o meu marido no Diário de Lisboa e achei que marido e mulher no mesmo emprego ia dar mau resultado. Atravessei a estrada e fui pedir emprego ao Diário Popular. Era no tempo em que mostrando trabalho se conseguia uma vaga como jornalista.
Como vê o jornalismo de hoje? Ui, nem me faça falar. Acho que o jornalismo de O MIRANTE, o jornalismo regional, tem algo que os outros perderam: a proximidade com os leitores. Nos jornais nacionais não se vai para rua, escreve-se mal e dá-se muito mais destaque a mortos e a acidentes.
Não é isso que as pessoas querem? As pessoas querem o que lhes dão, é preciso dar-lhes outras coisas.

Autógrafos... a duplicar

No final da sessão com os alunos, Alice Vieira tinha uma pilha de livros da sua autoria para autografar, todos pertencentes ao espólio da biblioteca escolar. E por três vezes encontrou o seu próprio autógrafo datado de Outubro de 1999. “Já perdi a conta às escolas que visitei”, confessou. Nesse mesmo dia, depois da visita a essa escola de Vila Franca de Xira, a autora seguiu viagem até Aveiro, onde iria visitar outro estabelecimento de ensino.

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